domingo, 29 de março de 2015

Pequena Mostra de Teatro

 

Temos o desejo de criar um encontro teatral de caráter intimista, que selecione sete companhias brasileiras para uma vivência de uma semana, envolvendo apresentações de espetáculos, atividades formativas, debates após as apresentações, celebração, produção escrita de críticas e conteúdos teóricos, permuta de livros e materiais relacionados, e um fórum informal de discussão permanente.

O eixo curatorial da mostra seria o diálogo entre a experiência cênica selecionada e a particularidade do espaço cênico disponibilizado, a sede da Pequena Companhia de Teatro – um prédio de três pavimentos localizado no centro histórico de São Luís. A particularidade se daria pelo fato da sede oferecer, além de uma sala multiuso, com capacidade entre 50 e 100 espectadores (dependendo da configuração da encenação), diversos outros espaços: um pátio, um salão colonial, uma residência, um banheiro de 21m², um amplo camarim, uma varanda, onze sacadas, escadaria etc.

A ideia seria apresentar para a comunidade uma mostra orgânica, onde a espacialidade e o espetáculo estivessem em harmonia, dando ao espectador aquela sensação de que o espetáculo só poderia ser encenado ali; como se a mostra e o espaço respirassem juntos, tornando nossa sede um ponto de congruência de criatividade, reflexão, intercâmbio e prazer.

Outra particularidade da mostra seria a permanência das sete companhias durante todo o evento. Na busca de recuperar o diálogo e o intercâmbio que foram perdidos na maioria dos festivais e mostras de teatro da atualidade – afirmação sustentada nos mais de quarenta eventos que participamos nos últimos anos –, a proposta seria que os artistas permanecessem em constante contato, formatando um Fórum Informal de Discussão Permanente, sem horário ou tema fixo – principal atividade de produção de reflexão, promovida pelos provocadores, que poderiam ser os membros da Pequena Companhia de Teatro ou convidados.

Como eu disse, é só um desejo, uma ideia. Normalmente buscamos fazer que a ideia, mesmo embrionária, seja bem organizada, porque nunca se sabe o momento em que a vida vai nos demandar o próximo projeto. Nossa persistência caminha no ideário de extrair, do prazer do nosso fazer, o nosso sustento, e para isso, brincamos de imaginar o que gostaríamos de fazer. Esprememos nosso juízo buscando as opções que o teatro nos oferece, tentando estabelecer uma visão estratégica que garanta o nosso sonho. Às vezes nos falta o mecenas. Alguém se habilita?

domingo, 22 de março de 2015

Divagações de uma mente sem lembranças

"Eles passarão... Eu passarinho!"
Hoje, dia 22 de março, faz 37 anos da morte de Peregrina Jacinta Villani, minha mãe. Atendia pela alcunha de Pele, mamá, tia, dependendo de quem lhe fizesse o chamado. Como eu tinha dez anos na época, tudo o que advém da tentativa de escrever a respeito dela, não passa de memórias ficcionais, lembranças inventadas, sensações. Em uma dessas recordações construídas vejo minha mãe brincando de telequete com seus três filhos; vejo a tampa do saleiro soltando da sua mão e salgando o macarrão no acampamento; vejo seu desespero ao abrigar dois dos seus filhos em um toró fenomenal; vejo roupas costuradas, pratos servidos, banhos dados, fardas passadas, carões e gargalhadas. No mesmo lampejo de ficção, vejo a semelhança entre minha mãe e Katia, quando a gargalhada se transforma em ataque de riso e, rindo sem parar, uma mistura de gaitadas, lágrimas e urina consegue contagiar o mais amargo dos seres.

Sou diretor de teatro, coisa que minha mãe jamais imaginaria. Se estivesse viva, não creio que meu caminho fosse esse, mas costumo idealizar que dela herdei a sensibilidade artística, tendo em vista que meu pai é um homem mais pragmático. Ela morreu muito cedo, com 36 anos, mais ou menos a idade que eu tinha quando fundamos a Pequena Companhia de Teatro. Penso no que ela sonhou e não realizou. É como se tudo o que eu vivi de lá para cá fosse o sonho de uma vida não vivida. Talvez por isso eu tenha vivido a vida até aqui com a maior intensidade possível, por suspeitar que somente este seja o principal mandamento da natureza humana. O que fazemos, o que sentimos, o que vivemos. A efemeridade do teatro é a efemeridade da vida, e a única maneira de marcar nossa passagem é vivendo, prazerosamente. O resto é desejo ególatra de transcendência. Pois, como tudo passa, passaremos.

domingo, 15 de março de 2015

A inauguração da não postagem


Hoje eu queria escrever para os que têm fome. Os desprovidos. Os sem celular, sem internet, sem pizza de domingo, sem TV, cabo, parabólica, para-raios. Hoje queria escrever para os sem teatro, sem cinema, sem circo, sem som, sem poema. Os sem teto, sem casa, sem palhoça, sem barraca. Os sem fazenda, tenda, vivenda, vidraça. Hoje queria escrever para os sem voz. Os mudos que gritam para ouvidos moucos. Hoje queria escrever para os que não sabem ler, e ler, para cada um deles o que agora escrevo. Analfabetos, destituídos, despidos. Sem roupa, sem shampoo, sem shopping, sem chá de boldo, sem cartões de débito, sem crédito, crediário, balneário. Os sem carro sem carroça sem Carrefour. Hoje queria escrever para os sós, os solitários, os abandonados, os largados, os excluídos, os invisíveis. Os anoréxicos compulsórios, os jejuadores de nascença. Os sem berço, os sem bolso. Os sem estirpe, linhagem, origem. Os sem nome, sobrenome, codinome. Escrever para os que só têm algo quando sobra. Os sem bandeira, os sem panela, os sem domingo, os sem feriado, os sem férias, os sem feira. Os sem beijo de boa noite, os sem caminha limpinha e quente, os sem dentes. Os sem passado, sem presente, sem futuro. Os sem pão duro. Escrever para os pobres, os miseráveis, os indigentes. Os sem saúde, sem samba, sem túmulo. Os sem mundo. Hoje queria escrever para eles, mesmo sabendo que nenhum lerá esta postagem.

domingo, 1 de março de 2015

A velada virtude da insignificância


A sede da Pequena Companhia de Teatro é um bem privado de usufruto público. Como tal, apresenta ações concretas para a construção de uma política cultural pública que deveria ser responsabilidade do estado. Em 2014, por aqui passaram mais de mil pessoas, entre espectadores, visitantes e participantes de oficinas teatrais e literárias, debates, aula-espetáculo, seminário, reuniões, jantares; todas atividades de acesso gratuito. Para a manutenção dessas ações, que se estendeu durante todo o ano, o poder público investiu menos de três mil reais – valor oriundo da esfera federal. Sabemos que se o espaço fosse um bem público, o valor gasto para a manutenção das mesmas atividades seria estratosférico. O aporte previsto para manter as mesmas atividades em 2015 é de zero real, ainda assim, elas acontecerão, com maior ou menor frequência, dependendo do desejo do interlocutor – espectador atento ou discente ávido. A omissão do estado na construção de politicas públicas eficientes onera o cidadão, que acaba exercendo uma função que deveria ser exclusividade do poder público. Dou um exemplo: nosso eixo curatorial, guiado pela própria produção artística da companhia, oferece um recorte do fazer teatral ancorado na pesquisa. Além de companhias locais que dialoguem com esse recorte, em 2015 provavelmente passarão por aqui o Coletivo Alfenim, A Cia. A Mascara de Teatro, O Grupo Magiluth, a Cia Tabu, etc. Se você quiser fruir desse recorte, você sabe onde encontrar. Ao oferecer um espaço e um calendário para uma forma específica de fazer teatral, a Pequena Companhia de Teatro está criticando a falta de uma política cultural pública eficiente e colaborando para a formação do cidadão capaz de reivindicá-la. Todas as nossas ações são políticas. Oferecer formação é uma forma de revolucionar; o discurso teatral é uma forma de protesto; democratizar o acesso a um bem cultural é uma forma de reivindicação; viver de teatro é uma forma de se posicionar politicamente – você não lembra, mas já tratei disso aqui.  O curioso é que a ausência do estado – falo agora das esferas municipal e estadual – não se dá pela falta de apoio, e sim, no total desconhecimento da existência dessas ações. Os governos municipal e estadual não fazem a menor ideia do que seja uma pequena companhia de teatro. Nunca souberam. Por isso creio que alguns gritos são mudos. Já que somos invisíveis, nossa reivindicação se dá através da ação; fazendo, ininterruptamente, aos trancos e barrancos, como nos últimos dez anos. Quem sabe, um dia, o poder enxergue, e faça seu trabalho, educando. A educação é a única forma de outorgar o poder ao povo.

domingo, 15 de fevereiro de 2015

O caminho


Lendo (e vendo) Os Livros de Miranda, uma pergunta feita durante um dos diálogos entre Maurice e Fernando me tomou de assalto: O que falta para esse ator? A pergunta atinge o cerne do ofício de diretor, pois, sua função, cabe na fenda apresentada por essa indagação. O ator é o ser absoluto do rito teatral; é ele que produz o estado, determina a ambiência, constrói a atmosfera, provoca o diálogo, materializa a ideia. Quanto maior a presença do ator, menor o interstício deixado pela pergunta – não se trata aqui de maior ou menor qualidade, e sim, das dúvidas, bloqueios, vacilações que qualquer processo de montagem gera no ator, com maior ou menor intensidade, dependendo de cada caso. Quando essa greta surge, o desafio de preenchê-la se apresenta para o encenador, e este é convocado para sanar, com suas falências, as incertezas dos seus pares. É o exercício de quebrar-se, para que o som vindo dos ossos partidos ecoe além do óbvio, e chegue ao ator em forma de magma – quente e barroso, para que o ator possa laborar. O que falta para esse ator? No teatro, uma pergunta não deve receber respostas, e sim, caminhos. O segredo do nosso ofício está na forma de sugerir caminhos, e na coragem para acompanhar a caminhada. Se o caminho for tortuoso, a dor será conjunta. Se circular, retornaremos juntos ao mesmo lugar, para partir de novo. Se árduo, a fadiga será mútua. Se certeiro, o gozo só durará até a próxima pergunta. No teatro, as encruzilhadas são de tão diverso mistério, que não há possibilidade de ensaiar uma alternativa, uma solução, um procedimento, antes que o imbróglio aconteça; por isso os caminhos, por isso a permanente suspensão da certeza, por isso o virginal sobressalto, e o exercício criativo que advém dessa pressão. Quando um encenador pensa saber, sabe menos do que pensa. Quando oferece o que não sabe, proporciona a construção de um saber coletivo – fenômeno basilar para a constituição do fenômeno teatral. Para tal, o diretor de teatro precisa se apresentar em estado permanente de presença criativa, mesmo que não consiga criar nada. Se essa presença arrefecer, corra para debaixo da mesa.

domingo, 8 de fevereiro de 2015

Ler & Escrever


O exercício de escrever semanalmente requer disciplina, opinião, inventividade e coragem. O exercício de ler semanalmente o que o amigo escreveu requer paciência, generosidade e disposição. Ler e escrever são gumes da mesma faca. Opostos, se encontram em ações complementares. Enquanto o cursor corre formalizando a opinião, o olhar corre redimensionando o conceito. Escrevo porque algumas coisas me são urgentes, e não conseguem esperar o próximo espetáculo. Porém, também escrevo porque não há mais nada para dizer. Claro está que o valor das opiniões que aqui expresso não superam a simples desnecessidade de escrever. Quando Jorge sugeriu este espaço – vão-se cinco anos de insistência – eu conjecturava solitário tudo aquilo que agora aqui despejo, e permaneço só, munido da ilusão de que algum leitor ainda exista, porque sozinho está aquele que se arriscou e pegou uma caneta pela primeira vez. Escrevinhando. Um escritor é um amontoado de poemas. Um escritor é um emaranhado de romances. Um escritor é um labirinto de contos, ensaios, crônicas, a esconder aquela palavra maldita capaz de sintetizar a linguagem e fazê-lo calar. Se a vida é o desencontro do todo com o nada, a existência do escritor só se justifica se for para falar do nada e escrever de tudo. É o que faço hoje aqui, escrevo; sem conteúdo, sem coesão, mas com a coerência de quem acredita no que escreve, porque vêm do rascunho da minha vida as experiências que transformo em texto. Ao encontrar um leitor, esse texto se renova na experiência do outro, e a trivialidade das palavras escritas ganham cor, uma a uma, pintadas pelos olhos de quem lê, num mosaico multicor único e exclusivo daquele leitor, naquele momento, com aquele texto. Experiência intransferível. Cores inimagináveis. Ler e escrever são como unha e carne, se separadas, sangram. Ao conseguir sua atenção até aqui, torno-me afortunado, porque você já percebeu que hoje trato de algo sem dizer nada, e, ainda assim, você está aqui, atendendo ao meu convite: deslizar o olhar pelas frases que compõem um texto. É um dos meus mais caros desafios: garimpar leitores. Por isso me causa espanto uma expressão utilizada em blogs e redes sociais: seguidores. Eu não tenho seguidores, tenho perseguidos.

sábado, 31 de janeiro de 2015

Antagônicos e o descarte

O Quadro de Antagônicos compreende dezoito palavras a receberem representações físicas, conforme relacionadas aqui. Uma das particularidades que torna o QdA um instrumento eficiente na construção de uma personagem teatral é o descarte, a exclusão, a via negativa. Diferentemente de outras práticas teóricas onde a experimentação do ator visa catalogar o que de melhor é produzido nessa experimentação, no nosso caso é o descarte do que não é interessante que orienta a prática. Parece a mesma coisa, mas é diferente. Quando o ator descarta um antagônico, depois de experimentar fisicamente todo o quadro, na busca do melhor antagônico para a construção da sua personagem, ele aumenta o tempo de pesquisa, pois, ao descartar um, permanece experimentando os outros dezessete. Se o ator fizesse previamente a escolha de apenas um antagônico, baseada no tipo físico que melhor dialoga com a personagem em questão, e começasse a trabalhar somente com esse antagônico, o ator reduziria em 95% as chances de encontrar caminhos mais orgânicos na construção da sua personagem. Para isso, é imperativo não gerar nenhuma preconcepção, prejuízo ou preconceito, sob pena de limitar a potencialidade criativa das experimentações. Dando um exemplo grosseiro: se a personagem a se construir é gorda, a escolha racional do antagônico Peso, além de óbvia, reduziria significativamente as alternativas de nuances que poderiam aparecer na construção da personagem, a partir da experimentação física de antagônicos menos óbvios, como a Tensão, a Lentidão ou, até mesmo, a própria Leveza. O que o Quadro de Antagônicos propõe é uma ruptura com a ditadura da seleção, da escolha do melhor, proporcionado ao ator um trânsito por regiões que ele jamais escolheria. Essa inversão alarga a extensão de alternativas, pluralizando os caminhos para a construção de uma personagem. Na contramão das estruturas técnico-teóricas vigentes, a negação, a recusa, a sobra, o descarte, podem ser um caldo de potência criativa esperando alguém vir sorver.

domingo, 18 de janeiro de 2015

Penso, logo, resisto


Creio que pela idade que me distancia destas, algumas pessoas me chamam de professor. Não sou professor, não tenho licenciatura. Nem, ao menos, curso superior. Tampouco sou intelectual, como arriscam outros mais despudorados e gentis. Me considero um pensador. Penso. Não pensasse, rastejaria. Pensador como você, que pensa por que estou a elucubrar sobre este assunto. Trato-o em defesa do pensamento. Em defesa da presença do pensamento no teatro. Em defesa da reflexão. As recentes experiências sensórias, fragmentadas, desconstruídas, processuais, performateatrais, pós-qualquer-coisa, estão extinguindo o pensamento. Pensar não é mais uma condição basilar para a fruição de teatro. A relação do espectador com a fortuna polissêmica e polifônica contemporânea pode ser a de “um jegue olhando para um castelo”, como diria o velho Adelmo. Basta contemplar o incompreensível e se assombrar com a magnitude sensória daquilo que nada contém. Nem pensamento nem sentimento. Espectador que sou, estão me subtraindo o direito de pensar, e me coagindo a um sentir não emocional; a um sentir tátil, olfativo, gustativo, esteticovisual, ruidossonoro. A contemporaneidade não tem esse direito. Quando me percebo partícipe do fetiche ególatra de algum neoteatrista – ao espectar outras das tantas experiências modernoarcaicas – a única sensação que emana do meu corpo é o calor provocado pela ira. Me ofende participar desse joguinho pseudovanguardista. Me ofende a presunção de acharem que conseguem camuflar o engodo. Me ofende que subestimem minha inteligência ao recriar o famigerado clichê do choque. Me ofende a subtração do meu pensar. Já a pecha de antiquado-careta-retrógrado-velho que começa a se desenhar no pensamento de alguns amigos, durante a leitura deste artigo, fazendo surgir aquele risinho no canto da boca, não me ofende, me defende. Porque não renego minha história nem a história da humanidade. Foi a soma do meu quase meio século de vida, construído a partir do exercício do pensamento, que me trouxe até aqui. Que me possibilita separar arte de artistice. Por isso reitero: o estupro ao pensamento deve parar. Parará, com as décadas. Lamento que, até lá, nosso cérebro já não esteja apto para o pensamento, e sim, embrutecido pelo instinto sensório peculiar a qualquer animal da fauna terrestre.

sexta-feira, 26 de dezembro de 2014

Você sabia que...

... a Pequena Companhia de Teatro promove, nesta segunda-feira, dia 29, o seminário "A crítica teatral e a formação de plateia: exercício de ambos"? O evento, que acontece às 19h, na Rua Vinte e Oito de Julho, 295, contará com a participação do Prof. Dr. Gilberto Freire de Santana e do jornalista André Lisboa, e mediação do ator Cláudio Marconcine. A entrada é franca e o acesso se dará por ordem de chegada até atingir a lotação. Até segunda, então!

Ecos da última jornada


Gosta de literatura e teatro e não abre mão de um texto primoroso, mas acha que em São Luís não há variedade de opções de espetáculos teatrais? Eu quero te alertar e te dar uma boa notícia.
 
O alerta é: assim como eu estava, você também está desinformado.
 
A boa notícia é: você tem sim um teatro experimental, cru, que desperta sensações, provocativo e intenso. Pude concluir isso ontem ao assistir A pequena Companhia de Teatro na peça: “Velhos caem do céu como canivetes”, livremente inspirado no conto “Un Señor Muy Viejo com Unas Alas Enormes” de Gabriel Garcia Marques.
 
O grande escritor latino ficaria feliz em ver a adaptação que fizeram aqui. Uma crítica ao homem, seus grupos e instituições, suas pobrezas espirituais. Um retrato da humanidade desconectada do divino e transcedente. Provocações e reflexões sobre o poder, a ganância, o amor, a amizade, a política e a história. O universo onírico do realismo fantástico de Garcia pode ser plenamente sentido na elogiável adaptação feita. Destaco as interpretações intensas dos atores Claudio Marconcine e Jorge Choairy.
 
Que Jorge é um dos nossos melhores Djs, todo mundo sabe. Convido a todos fãs do seu trabalho a conhecerem também o ator Jorge Choairy em cena. Vocês verão que a qualidade é a mesma.

Destaco também a excelente direção de Marcelo Flecha. Além das excelentes atuações, impressiona o trabalho de expressões corporais dos atores em cena. Impressionante, aliás, foi a palavra que foi mais comum na descrição da peça ao final da mesma.
 
Pra quem procura teatro de primeira linha, não há justificativas pra não ir. E Hoje acontece a última apresentação desse ano, então não vacilem.
 
Ah, ia esquecendo: é GRÁTIS.
 
O espetáculo começa às 19hs na Pequena Companhia de Teatro, no Reviver. Agilizem-se. Recomendo muito.
 
Dê a você mesmo esse presente de natal.
 
Nivandro Costa Vale
 
IMPREVISTO BOM:
 
Tive a alegria de conhecer, hoje (antes tarde do que nunca), o trabalho do teatrologo e diretor Marcelo Flecha. Trata-se da peça Velhos caem do céu como canivetes, inspirada num conto de Gabriel Garcia Marquez. Como o que é muito bom dura pouco - sobretudo em nossa ilha - amanhã, às 19h, será a ultima apresentação.
 
Música, cenário, figurino, texto, direção são irretocáveis. Mas o trabalho dos atores, ultrabem dirigidos, é comovente.
 
O ator Jorge Jorge Choairy, faz um trabalho primoroso e um contraponto ao personagem do ator Claudio Marconcine. Um belo jogo cênico se dá entres os dois, o trabalho de expressão corporal é um capítulo a parte.
 
Espetáculo Lindo, sério, urgente, imperdível, deve ser visto ate amanhã por todos aqueles que, como eu, sentem-se órfãos de espetáculos que ousem ir além do mero entretenimento.
 
Despeço-me com votos de que vocês possam amanha, segunda 19h, desfrutarem desse belo trabalho da Pequena Grande Companhia de Teatro.
 
Prestigiem! Convidem pessoas que vc gosta muito. Faça esse carinho em quem te é importante. E, de quebra, contribua para que o bom teatro tb tenha vez e voz entre nos.
 
William Amorim
 
Ontem fui assistir a peça "Velhos caem do céu como canivetes", na Pequena Companhia de Teatro, em que o amigo Jorge Choairy atua e por indicação de Nivandro Costa.
 
Cheguei a duas conclusões: a primeira é que é facinho reclamar que a cidade não tem nada de bom cultural, mas tá lá, espetáculo de primeira grandeza, som, atuação e luz fuderosos, DE GRAÇA, numa segunda-feira. Reclamamos de barriga entupida. Ainda falta, claro que sim, mas se sairmos da inércia, achamos grandes e lindas coisas.
 
Segundo: nunca vou descobrir se é anjo ou galinha, mas não importa o que somos, desde que sejamos algo que some na vida de alguém.
 
Viva as segundas de surpresas!
 
Milla Camões

sábado, 22 de novembro de 2014

Aniversário fora de época


Em 2015 a Pequena Companhia de Teatro completa dez anos de existência. Na verdade, em 2015 e 2016. Somos um grupo que tem o privilégio de festejar durante um biênio. Explico: em 2005 estreou o espetáculo “O Acompanhamento”, montagem basilar para a constituição do nosso grupo. Em 2006 a companhia se estabeleceu legalmente, como pessoa jurídica de direito privado sem fins lucrativos. Para ser mais exata, nossa comemoração se estenderia do dia 29/11/2015, dia da estreia do espetáculo, até o dia 11/06/2016, quando recebemos a certidão de pessoa jurídica, depois de uma via-crúcis burocrática, enfadonha e onerosa. De lá para cá foram quatro espetáculos (O acompanhamento, Entre laços, Pai & Filho e Velhos caem do céu como canivetes), duas coproduções com a Cia. A Máscara de Teatro (Medeia e Deus Danado) e diversas outras atividades artísticas (leituras dramáticas, feiras de livro, debates, performances, autos, palestras, lançamento de livro, oficinas etc.). Inicialmente vamos comemorar refletindo. Resolvemos estabelecer um fórum de reflexões entre os quatro para analisar nossa trajetória até aqui. A ideia é pensar o todo e o uno. Bater um papo semanal, sem data para terminar, sobre o que éramos, o que nos tornamos, e no que não queremos nos transformar. Discutir sem pressão prática de agenda, projetos, pautas, editais, nada disso, apenas refletir. Estamos dispostos a encarar os próximos dez anos? Para que serviram os que passaram? Quais são as mudanças necessárias? O que não pode mudar? Cabe resistir? Cabe debater? Cabe mais um? Cabedal? Cabide? Com quantos sonhos se constrói uma realidade? Com quantos pesadelos se destrói um sonho? Com quantos amigos se impõe uma vigília? E a boa, velha, repetida, e principal pergunta: com quantos paus se faz uma canoa? As respostas aparecerão aqui, parcimoniosamente. Quanto à última, nem um mestre canoeiro.

sexta-feira, 21 de novembro de 2014

Novo eco


Velhos Caem do Céu Como Canivetes, espetáculo de excessos e de difícil assimilação
Por Alexandre Mate

Drummond manifesta em seu belo poema O Lutador que haveria palavras dentro dele buscando canal: prontas para explodir. Criadores teatrais — como vulcões em estados próximos à erupção —, aliado às palavras, teriam, além destas, imagens, deslocamentos e desenhos no espaço cênico, efeitos de diversas naturezas, músicas e sonoridades em momentos distintos... A linguagem teatral é complexa e a eclosão de seu fenômeno ocorre durante o espetáculo. Antes e depois disso, o que se tem são idealizações e tentativas de explicitação.

A Pequena Companhia de Teatro, de São Luís (MA), e cujo trabalho anterior foi o pungente Pai e Filho, apresentou seu último trabalho no Teatro do Sesi, de Piracicaba (SP), durante a nona edição do Fentepira. A obra, toma como referência um conto de Gabriel García Márquez que, de modo bastante sucinto, apresenta os diálogos entre um anjo “caído” e um homem apartado do mundo. Tal situação, característica dos embates e choques entre seres de contextos absolutamente distintos, tem como cenário uma paisagem devastada (repleta de lixo reaproveitado e transformado em “obras de arte”) e lotada de objetos heteróclitos.

Feito máquinas, as duas personagens falam sem pausa e de modo ininterrupto. Sem pausa, e como condenado ao movimento constante, o ser que habita a paisagem catastrófica, parece um descendente de Sísifo (ele não descansa nunca, e parece condenado aos movimentos sem sentido).

Sem tempo para a reflexão do espectador, os efeitos se somam e vêm aos borbotões. Gilberto Gil lembra em versos de música famosa algo como em um copo vazio haveria uma plenitude de ar. Velhos Caem... precisaria, talvez, a partir de tal preceito, conferir tempo para que o público (razão de ser do espetáculo) pudesse decodificar a pluralidade de tantos símbolos.

Portanto, pausas e ralentamentos quanto ao discurso excessivo (texto, adereços, movimentações...) tenderiam a ajudar na fruição de pequenas belezas não percebidas pelo excesso.

*Velhos Caem do Céu Como Canivetes foi apresentado no domingo, dentro da mostra oficial do 9º Fentepira

sexta-feira, 31 de outubro de 2014

Teatro = Coletivo

Uma companhia de teatro é uma estrutura orgânica. É argilosa, pulsa, se modifica, vive. Por muito tempo acreditei no contrário, e apostei todas as minhas fichas na rigidez das pedras. Hoje entendo que um organismo precisa respirar, e tudo o que dele emana é frutífero, sempre e quando seus fundamentos sejam respeitados. A pulsação de uma companhia está diretamente relacionada à pulsação dos seus membros, e suas conquistas tem a mesma relação progressiva. No final da década de oitenta e início dos noventa – quando morava no interior do estado – vivi algumas das experiências mais significativas da minha vida no que se refere à vida em coletivo. Na época, sonhávamos juntos exatamente aquilo que conquistamos hoje, individualmente. De lá para cá, algo se perdeu. O indivíduo se sobrepôs ao todo, e estamos repletos de coletivos que reúnem indivíduos ilhados, entupidos de companhias de um homem só, entulhados de grupos que não se agrupam, de companhias sem unidade no discurso, de artistas migratórios que saltam de coletivo em coletivo, de grupos que são apenas um selo, de CNPJs de aluguel – tudo com o argumento de preservar o indivíduo. Esses defensores esquecem que o neoliberalismo dos anos noventa se encarregou, não só de preservar, mas de impregnar o individualismo em toda a sociedade. Os grupos que resistem dentro de padrões mínimos de convívio coletivo, de confronto dialético, de efetiva socialização, foram, são e serão o esteio do teatro brasileiro. Quando aqui me contradigo, ao defender a argilosidade necessária para a existência de um grupo de teatro, e ao criticar a pluralidade pulsante nos formatos dos coletivos contemporâneos, é para compartir com o leitor meu questionamento atual, e a reflexão que dele provém. O ato teatral, de fato, na sua essência, pode acontecer na solidão do indivíduo, mesmo que pareça acompanhado?

domingo, 19 de outubro de 2014

Marginal


Margem. Sempre estive à margem. Minha opção marginal — sobre o que eu iria fazer para o resto da vida, a forma como iria me relacionar socialmente, as opções de pensamento — sempre me conduziram para a margem. Teatro, reflexão, discrição, nunca serão centrais no mundo ocidental, portanto, a vida tem me guiado para a margem, de onde se enxerga o mundo de outra forma. Fora do centro continuo andando, e a margem me guia para fora da periferia. O teatro, per se, já é marginal. Na sociedade contemporânea, entre as artes, jamais poderíamos colocá-lo no centro. Música e cinema são as linguagens que ocupam a centralidade do interesse popular. Nossa opção de teatro acentua essa marginalidade, quando acredita nessa linguagem como instrumento de reflexão e transformação social. Por isso, quando ouço — Matem o marginal!, sinto-me na guilhotina. Quando fundamos a Pequena Companhia de Teatro, sabíamos do lugar periférico que ocuparíamos no interesse da sociedade, e nossas ações não buscaram atingir o centro, e sim, trazer esse espectador para experimentar o olhar periférico; um olhar diferente do olhar que costuma ser centralizado no teatro: a diversão, o entretenimento, a glamourização, o riso fácil, a pasteurização do pensamento, e os diversos clichês temáticos. É o que somos. Marginais. Misturo o número da 1ª pessoa propositadamente, porque o que fazemos reflete no que penso, e o que penso encontra eco no que fazemos. Fragmento o discurso desta postagem propositivamente, para gerar no leitor um incômodo marginal. Um convite a sair do óbvio, à mudança do olhar, a romper com a norma, a sair da zona de conforto. Uma música dissonante, um espetáculo hermético, um livro de três mil páginas, um filme em preto e branco, arrisque-se. Venha para a margem. Seja marginal.
 
P.S.: A propósito, amanhã tem Pai & Filho. Última apresentação antes da Mostra SESC Cariri de Cultura. Sua chance de iniciar o exercício.

quarta-feira, 8 de outubro de 2014

Você sabia que...


... o espetáculo Velhos caem do céu como canivete foi selecionado para o 9º FENTEPIRA – Festival Nacional de Teatro de Piracicaba? A curadoria ficou a cargo do ator e diretor Roberto Rosa, que selecionou o espetáculo maranhense dentre as 346 peças inscritas, de 89 cidades e 17 estados. A apresentação acontecerá no dia 22/11, no Teatro Municipal de Piracicaba. Para ver detalhes da programação do FENTEPIRA, clique aqui. Recentemente o espetáculo Pai & Filho foi confirmado na XVI  Mostra SESC Cariri de Cultura. As datas das apresentações serão no dia 11/11, as 19h, no Centro Cultural Banco do Nordeste, na cidade de Juazeiro do Norte, e no dia 12/11, as 21h, no Teatro Adalberto Vamozi-Sesc Crato.
 
 

domingo, 5 de outubro de 2014

R.S.V.P.

A expectativa
A nova sede da Pequena Companhia de Teatro forjou uma prática que venho exercitando desde o ano passado, buscando atrair espectadores para as temporadas dos nossos espetáculos. Trata-se de um convite personalizado que faço, via caixa de diálogo, em diversas redes sociais, provocando o espectador a vir nos ver. O fato seria banal, não fosse o comentário da Cris Campos, provocador desta reflexão. Segundo ela, essa minha indelicada atitude, “foi fundamental, não para eu ir, mas para ir diferente”, e completa, “quando a gente gosta muito de algo que fizemos, que consideramos bacana, interessante de ser compartilhado, a gente faz questão de que seja de fato compartilhado, né? Não é só um flyer, é um convite pessoal, semanal e desejoso. E isso é muito bom. Para mim, me trouxe a expetativa de ir, de trocar, de absorver, de ir desarmada para receber o que o universo, daquele instante, queria que eu vivesse”. Quando digo “indelicada atitude”, é porque, as mensagens que envio, normalmente têm um tom provocativo, ora ácido, ora irônico, ora jocoso, brincando com a ideia de que você curte teatro, mas não frequenta. Naturalmente, meu atrevimento fazia com que eu imaginasse certo constrangimento do destinatário da missiva, um espectador sendo cobrando no mais íntimo de todos os meios modernos: a mensagem in box. O que eu não imaginava era que, alguns espectadores, iriam perceber o subtexto que ali deixo, e que a Cris, delicadamente, percebeu: a pessoalidade. Sim, o que eu digo em cada uma dessas mensagens é da importância pessoal e intransferível de que você veja o espetáculo. Do importante que é, para mim, que você veja este ou aquele espetáculo. A pessoalidade aqui, busca a quebra desse espectador genérico, anônimo, insípido, e procura percebê-lo como ser individual, pessoal, possuidor de uma opinião tão diversa e particular que faz com que a cor seja vista descolorida pelo espectador ao lado. Se minhas mensagens não chegam mais, é porque desisti de você, ou porque o constrangimento agora é meu. Se nunca chegaram, é porque minha educação é inversamente proporcional à nossa intimidade. Você deve se perguntar por que ultimamente tenho insistindo tanto no tema espectador. Acontece que sou de um tempo e de um espaço onde o espectador não existia. Fazíamos teatro para ninguém, literalmente. Hoje, esse precioso indivíduo, se apresenta para o diálogo, e, como não tenho muito traquejo para lidar com ele, vou construindo essa conversa com a sensibilidade de um cavalo. Por tanto, se receber uma mensagem, sinta-se acariciado, mesmo que seja com um coice.
 
O resultado
P.S.: Amanhã tem Pai & Filho, não vai ficar esperando minha mensagem. Vai?

sexta-feira, 3 de outubro de 2014

Teatro é espaço de encontro


Quem vai assistir a um espetáculo teatral sempre tem a certeza de que vai encontrar pessoas, tanto na plateia quanto no palco. Conhecidos e desconhecidos. Pode-se sentar na frente, atrás, lateralmente, no chão, ficar de pé. Em cada local e situação, perspectivas diferentes do encontro: manter-se à distância ou aproximar-se?

Mesmo plateias diferentes, são plateias de teatro, e sempre se reencontram. Fazedores teatrais também são assim: se fazem teatro, se encontram, se reencontram. De uma forma que não sei ao certo, se solidarizam nas dificuldades e se confraternizam nas conquistas.

A dinâmica da vida de cada um faz com que as escolhas interfiram nesses encontros, de diferentes modos. Aos fazedores, a conquista dos espaços. A circulação não só oportuniza o conhecimento de outros espaços como amplia as oportunidades de encontro. Não estamos imunes às interferências do meio e das gentes. O que fica, fica. A partir dai, os reencontros são inevitáveis: sensação de amparo, de aconchego. Uma felicidade descomunal em rever pessoas que continuam a fazer da sua arte seu ofício, apesar dos atropelos. Como que por uma reflexo no espelho conseguíssemos ver neles também a nossa vida. Percebê-los em cena faz-nos ainda vivos. 

Gosto de me reencontrar nos espaços num recorte temporal diverso. As sensações sempre diferem numa comparação mesmo que grosseira.

Numa época eu me sentia meio nômade, mas consegui identificar alguns espaços nos quais me sentia pertencente. Quando os revisito, encho-me de esperanças. Não sou de todo ruim. Faço teatro.


domingo, 21 de setembro de 2014

Leve e ligeiro, meu balanço do FNT.


O Festival Nordestino de Teatro de Guaramiranga é daqueles eventos em que você se sente em casa. A cidade, os organizadores, o vinho, o papo, o frio. Uma semana subindo e descendo as escadas do mosteiro dos capuchinhos para ver e fazer teatro. As análises da Mostra Nordeste ficaram a cargo de Luis Alonso Aude, Wilson Coêlho e Makarios Maia Barbosa – provocadores contumazes. O espetáculo Velhos caem do céu como canivetes conseguiu se apertar no aconchegante Teatrinho Rachel de Queiroz, e tivemos uma apresentação integra, para um público que entupiu a casa, e riu muito além da conta colhida nas vinte e oito apresentações anteriores. A ovação final é suspeita, porque o público de Guaramiranga é sempre generoso com os espetáculos que por lá passam. Contudo, nos encheu de alegria e satisfação, pois confirmamos que o diálogo entre espetáculo e plateia também se estabelece fora do Maranhão. O debate aconteceu logo após a apresentação, porque Jorge e Cláudio retornariam na manhã seguinte, horário do debate. O fato, não permitindo que os debatedores tivessem a chance de se debruçar, como vinha acontecendo anteriormente, gerou comentários espontâneos e virginais. Vivências: o encontro com Abimaelsom, Dane, Pryscilla, Henrique, Silmara, Bruna, Rogério, Carlos; conhecer Quitéria, Adriano, Tiago, Vanéssia, Felipe, Astier; assistir a Fogo, Jacy e BR Trans; rir com a parada de rua; comer chocolate. Sou um homem de teatro, gosto disso. Gosto de imaginar que algo no mundo se mexe quando artistas se reúnem. Pretensão? Se vocês vissem e ouvissem o que eu vi e ouvi durante essa semana, tenho certeza que pensariam o mesmo.

Gabo no palco


Especial para o Jornal da Paraíba
Por Tiago Germano
13/09/2014

Na quinta-feira, o JORNAL DA PARAÍBA assistiu à montagem de Velhos Caem do Céu Como Canivetes, espetáculo da Pequena Companhia de Teatro, de São Luís do Maranhão. O espetáculo tem direção de Marcelo Flecha e é livremente adaptado do conto ‘Um senhor muito velho com umas asas enormes’, de Gabriel García Márquez, escritor que morreu no mês de abril.

Na peça, um misterioso Ser Alado cai no quintal de um Ser Humano, um catador de lixo que se instrui lendo os livros que encontra entre os resíduos deixados pelas outras pessoas. Impressiona a atuação de Jorge Choairy e sobretudo de Cláudio Marconcine, que se transfigura no papel deste Ser Humano, um homem que abandona as artes plásticas e vive na miséria, cercado pelas invenções engenhosamente inúteis que passa a produzir.

O desempenho corporal dos atores é fruto de uma metodologia desenvolvida pelo grupo chamada de Quadro de Antagônicos, no qual a oposição física entre os atores vai definindo, lendo e regendo as partituras físicas de cada um. O cenário, produzido artesanalmente, pelos próprios integrantes da companhia, é dominado por uma torre erguida no centro por latinhas do Guaraná Jesus.

Astier Basílio
Especial para o Correio da Paraíba
13/09/2014

 
Um ser humano confinado em um lugar ermo, revirando o lixo. Despenca em seu quintal um ser alado. É em torno deste episódio, e de seus desdobramentos, que se desenvolve o espetáculo Velhos Caem do Céu como Canivetes, montagem da Pequena Companhia de Teatro, do Maranhão, apresentada quinta no Festival Nordestino de Teatro, em Guaramiranga. No cenário, uma imensa torre composta por latinhas de guaraná Jesus foi um dos pontos de discussão entre os debatedores. “Eu não consigo ver o lixo aí tal o nível de organização da cena”, pontuou Makários Maia, encenador do Rio Grande do Norte e convidado como debatedor do evento. Numa discussão filosófica, o ser humano e o ser alado falam sobre fé. “Você não coloca a dúvida em cena, mas a descrença”, avaliou Makários. “É um espetáculo de perspectiva niilista”, observou Wilson Coelho, tradutor, diretor e dramaturgo do Espírito Santo, também integrante da banca de debatedores. Além do embate sobre a existência, numa encenação que conciliou tanto o corpo dos atores, trazendo-os dilatados, a montagem, numa composição repleta de objetos que mais parecem instalações, assume uma exuberância e a linguagem também é evidenciada como falência da comunicação – a torre de latinhas é evocada como um símbolo da Torre de Babel, de onde decorreu o castigo divino na multiplicação das línguas para impossibilitar, pela incomunicação, a chegada dos humanos aos céus.


domingo, 7 de setembro de 2014

Espectando o espectador

Foto de André Lucap
O espectador da Pequena Companhia de Teatro passa por uma experiência diferente de qualquer outro espectador de teatro. Este que vos escreve, tem por prática, acompanhar o desempenho do espectador enquanto a sessão acontece. Espécie de voyeur de luxo, essa mania acentuou-se a partir do espetáculo O Acompanhamento, e me acompanha até hoje. Sim, eu vejo cada cochilo, riso, suspiro, bocejo, choro ou ronco seu. Sentiu-se constrangido? Acontece que o teatro tem transgredido a relação entre palco e plateia, e isso acarreta uma presença muito mais efetiva do espectador, exigindo dele uma prontidão maior. Sim, assim como o espectador tem se tornado cada vez mais exigente com o artista, o artista tem se tornado cada vez mais exigente com o espectador, para que o diálogo se fortaleça, e favoreça a construção de um teatro mais inteiro, dinâmico e contracultural. Meu prazer está em espectar você, e avaliar de que maneira esses atores (você e o espetáculo) dialogam e constroem a significação do que a companhia propõe para reflexão. Não, não tem nada a ver com um modismo de público participativo, anônimo em cima do palco ou personagens invadindo a plateia, apenas eu, dissimuladamente, vendo você. Claro que você não percebe, porque as montagens sempre seguem uma configuração que possibilite a prática sem que seu incômodo aconteça, contudo, eu estou lá, observando... Analisando... Avaliando... Sentiu um frio na barriga? É isso mesmo. Saiba que a exigência, aqui, não está apenas para o ator. No nosso caso, o encontro teatral também serve para refletir sobre o espectador – esse cidadão, que é um ser sócio-político-cultural sobremodo transformador (ou não) do seu entorno. Você, na sua cadeira, é tão importante quanto o ator que representa, por isso, a sua responsabilidade é tão integradora quanto a do artista que você observa. Nossa exigência avança na busca do diálogo com o espectador disposto, atento, presente, pensante. Quer pipoca e refrigerante? Vá a uma lanchonete. Quer sacudir a cabeça? Vá a uma boate. Quer gritar? Vá a um parque de diversões. Quer acreditar na torpe utopia de mudar o mundo? As portas da Pequena Companhia de Teatro estarão sempre abertas. Exigentes, porém, abertas.

domingo, 31 de agosto de 2014

Arte & Mercado


Como estabelecer uma relação de comprometimento com a atividade artística e seu foco de reflexão, sem deixar que interesses econômicos comprometam seus resultados estéticos e dialéticos? O exercício artístico profissional transita por campos imponderados que vão além da arte, e a necessidade de extrair desse exercício o sustento para viver, pode ser uma armadilha ardilosamente perigosa. Para o artista profissional, se faz necessário um policiamento permanente, para que mudanças de rumo na carreira, e na forma e conteúdo das suas obras, não sejam justificadas por babéis argumentativas, servindo apenas para dissimular um notório descomprometimento com a sua arte, em prol do mercado. Nesse caso – se percebida a influência econômica no conteúdo programático do seu processo, na organicidade da sua prática, no resultado da sua obra – recomenda-se o desvinculo profissional, para não comprometer seus resultados artísticos. A mudança de fonte de renda, buscando a independência financeira através de outras atividades, pode proteger o artista, desprendendo-o da falha argumentação da necessidade de se adequar ao mercado, pois, muitas manifestações artísticas, são impassíveis de adequação – conforme problematiza o fragmento de um manifesto nunca publicado, que utilizo aqui para concluir:

“[...] o teatro experimental, de pesquisa, de vanguarda, marginal, laboratorial, impopular – ou como queiram chamar o teatro que não busca apenas o entretenimento (Dicionário do Teatro Brasileiro/J. Guinsburg) – é dínamo incansável para o desenvolvimento sociocultural e artístico de sua época. Esta opção artística não é compatível com as leis de mercado [...] por não objetivar o lucro como resultado final, e sim o questionamento, a revisão ou a transgressão dos valores sociais, políticos, estéticos e culturais da sociedade onde se manifesta.

Obra de arte não é produto – afirmação herética para os liberais de plantão. Torna-se produto dependendo de uma série de fatores e circunstâncias que dialoguem com o mercado vigente.

Se uma obra, posteriormente à sua criação, polariza opiniões, acaba afugentando os investimentos que tem por prática valorizar o consenso. Porém, uma obra digna não deve abrir concessões no momento da formulação do seu dizer: está aí o paradigma que incompatibiliza obra de arte e mercado [...].”

Ofereço o pano para a manga. Traga a agulha e a linha.


sexta-feira, 29 de agosto de 2014

Nominar

Estou em processo de montagem de um espetáculo-solo. Ou seria uma performance? Ou um picadeiro de clown? Teatro ou circo? Drama ou comédia? Farsa? Personagem ou persona? 
Lango-Lango Retardatário (2005)
Resido num momento em que a necessidade da satisfação pessoal se renova e que, mais do que nunca, estou aberto às interferências/influências provenientes sabe-se lá de onde, quando estou em processo, independentemente dos procedimentos.
O segredo do labirinto (2007)
A sala de ensaio é território de experimento e de sensibilidade: Leva-se roteiro, procedimentos, objetivos até bem claros de onde chegar, mas o corpo reage a sua maneira. O planejado se reconfigura, desiste de você para dar lugar e vazão a outras questões que afloram. 
Interstício (2007)
Nominar parece-me, neste instante, desnecessário, pois se é processo, tudo se configurará. E por que não dar ao expectador o benefício da dúvida ou de uma certeza só sua, pois o senso comum não diz que cada um tem a sua própria verdade? 
Canto da solidão... (2009)
A obra de arte sempre terá referências, não só de quem a idealizou, mas também de todo o contexto histórico da qual os expectadores participaram. São essas memórias de coisas que vivemos que nos dará estofo para a leitura possível da obra. Mais ativa essa plateia, impossível. 
Requiem aeternam (2009)
E se há papeis e atribuições definidas entre os seres (expectador e artista, por exemplo), por que não questioná-los? Compreendo que, quanto mais vazio de preconceitos, mais potência para o preenchimento desse vazio teremos.

Essa é a minha verdade. 

domingo, 24 de agosto de 2014

Parabolicamente falho

- Sim, o  conhecimento, de nada te serve?
Não sou antenado. Me inquieta precisar saber, entender e falar de tudo e de todos. Essa habilidade de anedota, diz respeito a uma demanda contemporânea de inclusão e pertencimento, potencializada pela individuação e isolamento pela qual padece o homem contemporâneo. Creio no pertencimento a partir da interação natural com o entorno. Viver o que nos rodeia, sem que o raio dessa circunferência extrapole a lógica do nosso interesse: é mesmo importante saber quem é Anita? Não sei o significado de MC para a música, nem conheço o grande vanguardista do teatro contemporâneo do mês passado. Polissemias e polifonias confundem o meu raciocínio, contudo, procuro não confundir informação com conhecimento – aqui confundi-los-ei, propositadamente. Prefiro a calmaria da busca pelo conhecimento necessário à tempestade da informação me buscando. A calmaria é seletiva e permite a degustação, a tempestade é invasiva e pode provocar afogamento.  Quando grito para o meu desajustado cérebro, buscando algum conteúdo, e este dá de ombros, como dizendo – te vira, respiro fundo e respondo para o meu interlocutor – não sei. De uns tempos para cá, essa sentença tem se repetido com maior frequência, por compreender que, certas coisas que outrora pensava saber, eram apenas simulacros de conhecimento. Quando jovem é mais difícil dizer – não sei, pois, a necessidade de autoafirmação, nos obriga a saber de tudo, mesmo sem ter ciência de coisa alguma. Com o passar do tempo, percebemos que não somos obrigados a estar informados sobre tudo, e que não saber pode ser divertido, pois, te obriga a estudar. Em verdade vos digo: é bom não saber demasiadamente e melhor ainda é não ser o rei da informação. Ameniza a ansiedade, alivia o estresse, e desonera o coitado do seu interlocutor, que não terá mais que ouvir o quanto você é antenado. O tempo pode não ser o melhor remédio, porém, é o melhor companheiro.  Hoje sei que não sei muita coisa, só não sei se nada sei.
 
P.S.: Só não confunda sábio com sabido.
 
 

quinta-feira, 21 de agosto de 2014

Os processos

Gosto de dizer que tudo está passível de mudança. Fechar-se equivale a morrer para as possibilidades outras que não aquela escolhida como identitária, definitiva. Nada o é.

A Pequena Companhia de Teatro tem no "Quadro de Antagônicos" seu procedimento metodológico para treinamento do ator e composição das personagens. Fiz parte de Entrelaços, Pai & Filho e Velhos caem do céu como canivetes e todos utilizaram esse mesmo procedimento. 
Entrelaços
Imagine o frescor de provar pela primeira vez o gosto do beijo da pessoa amada, ou experimentar o prazer provocado por uma Coca-cola com gelo e limão numa tarde ensolarada, à sombra de uma frondosa árvore. Essas experiências primeiras não se repetem, mesmo que continuemos a beijar a mesma pessoa e a tomar o mesmo refrigerante eternamente. As experiências são únicas, mesmo que a configuração possa aproximar daquela primeira sensação. Assim percebo os processos de encenação. 
Velhos caem do céu como canivetes
Podemos repetir infinitas vezes o mesmo procedimento para a montagem de nossos espetáculos, mas esse debruçar sobre a teoria na prática, num recorte único de tempo/espaço será inédito em sua configuração, sem contar com a nossa compreensão do método e da vida: mudamos, permanentemente, porque estamos em processo. Dizem que tem algo a ver com a maturidade. 

O viver para mim é experienciar, sempre.

sábado, 9 de agosto de 2014

Projetando sonhos


Enquanto apresentamos Pai & Filho [toda segunda-feira, às 19h, na Rua do Giz, 295, com entrada franca (adoro parênteses retos)], e ainda realizaremos seminários e leituras dramáticas, o momento é de projetar o ano de 2015. Projetos, aos borbotões, começam a ser esboçados, confeccionados, desenterrados, reinventados no intuído de continuar fazendo a única coisa que sabemos: teatro. Editais exigem projetos. Projetos são desejos não realizados que sempre tivemos e que, em determinado momento, o sistema nos autorizou a sonhar. Publicar um livro, montar uma banda, viajar pelo país com uma peça de teatro, escrever um romance... Sonhos, que em meados da década de oitenta estavam mais para delírios – lembrem sempre que falo de um passado no interior do Maranhão. Hoje podemos sonhar. Posso. Claro que sou engajado, e sei de todos os problemas que nos cercam, conteúdo do discurso que vocês estão acostumados a ler por aqui. Sei também que se novas políticas culturais públicas municipais, estaduais e federais eficientes não forem implantadas corremos os risco de morrer de fome já em 2015. Contudo, quem viveu como eu o passado de querer fazer teatro, não pode jamais se distanciar dele ao ponto de não enxergar as conquistas conseguidas depois de tanto lutar. Hoje a profissão é uma realidade. Outrora o amor provido pelo amadorismo era o combustível. Foi a nossa resistência que obrigou o poder público a se lembrar de que tem gente no país que insiste em fazer teatro. A conquista é nossa e o resultado está aí, por isso, não me queixo. Alguns podem dizer que fazer um projeto não é trabalho para um artista. Penso que todo projeto é um sonho indo para o forno. Eu não consigo imaginar ninguém pensando nossos sonhos melhor do que nós, artistas que os sonhamos. Romântico, outra vez. Mãos à obra, de arte!

domingo, 3 de agosto de 2014

Andanças de Pai & Filho


São Luís/MA → Imperatriz/MA → Balsas/MA → Riachão/MA → Presidente Prudente/SP → Guaramiranga/ CE → Natal/RN → Santos/SP → Rio de Janeiro/RJ → Timon/MA → Teresina/PI → Sobral/CE → Fortaleza/CE → Mossoró/RN → Santa Inês/MA → Belém/PA → Castanhal/PA → Parnaíba/PI → Palmas/TO → Porto Nacional/TO → Maceió/AL → Teotônio Vilela/AL → Palmeira dos Índios/AL → Arapiraca/AL → Vitória/ES → Caxias do Sul/RS → Passo Fundo/RS → Ijuí/RS → Santa Maria/RS → Porto Alegre/RS → Cuiabá/MT → Feira de Santana/BA → Recife/PE → Macapá/AP → São João do Miriti/RJ → Blumenau/SC → Itajaí/SC → Tubarão/SC → Paranavaí/PR → Curitiba/PR → São Paulo/SP → Belo Horizonte/MG → Porto Velho/RO → Florianópolis/SC → Rio do Sul/SC → Lages/SC → Chapecó/SC → Caxias/MA → Itapecuru Mirim/MA → São Bernardo do Campo/SP → Botucatu/SP → Franca/SP → Rio Claro/SP → Marília/SP → Piracicaba/SP → Campinas/SP.
 
111 apresentações, em 56 cidades de 19 estados, durante 04 anos de espetáculo, e você ainda não viu. Aproveite a temporada regular que acontece em São Luís, toda segunda-feira, 19h, na rua do Giz, 295, com entrada franca, até 22 de setembro.