domingo, 13 de agosto de 2017

Como nossos pais


Não somos os mesmos, nem vivemos como os nossos pais. Culpa do teatro. Se existe algo neste quase meio século de vida que me faz sentir orgulho é isso. Ressalvas à vida que meus pais levaram? Não, apenas a viva constatação de ter traçado o meu caminho, e por consequência, vivido a trama que o teatro e seus quiproquós prepararam para mim. Uma vida pautada pelo abrir e fechar de cortinas, mesmo quando as cortinas estão ausentes, e o balanço do tempo é dado pela espera da próxima apresentação.

Essa opção não trouxe uma vida mais amena, nem farta, nem segura, nem tranquila; trouxe a vida da incerteza, da provocação permanente, do chacoalho constante, do estado de alerta, da destituição da zona de conforto, do descompasso entre realidade e ficção; aparelhos para a surdez humana, que favorecem a audição das marcas deixadas pelas tiranias que massacram o homem, e que meus pais não conseguiram ouvir, pois eram aturdidos pelo sistema.

Nossos ídolos tampouco são os mesmos. Meu pai adora dinheiro. Pelo teatro abandonei o caminho do capital, e carreguei os senões de boa-vida, idealista, ingênuo, irresponsável. O teatro fez com que o dinheiro se tornasse para mim o que penso que é: papel que os adultos usam para brincar de troca-troca em um jogo onde se troca papel por coisas, e ganha aquele que tiver mais coisas ou mais papel, sem questionar se a coisa é mais valiosa que o papel; o que se sabe é que nesse jogo, um papel de dinheiro sempre valerá mais do que o papel que carrega um poema.

A opção do teatro me distanciou do destino traçado pela sociedade – um destino que seria lindo, contudo, não necessariamente meu. Outro caminho, para além das coisas que se aprendem nos livros. Não fui engenheiro civil, nem nada do que é necessário ser para ser alguém na vida. Fui o que meus passos trilharam sem saber o que trilhavam, flutuando no abismo da existência, guiado pelo ideal da transformação, do novo, da vida na terceira margem, da esperança de um mundo melhor para todos, mesmo sabendo que não tinha capacidade nem para organizar meu próprio mundo.

A essa altura você deve estar me achando um sonhador, e sabemos que viver é melhor que sonhar, sim. Mas seria possível viver e sonhar ao mesmo tempo? É essa a opção do artista. Enquanto a vida vai se consolidando como injusta posso sonhá-la justa, motor para que meus atos tentem transformá-la em justiça. É uma equação tola, mas todo artista é um tolo. Tolo é aquele que resolve viver além do posto, e não transigir com as sedutoras artimanhas do estabelecido. O que está posto, posto está. O que há além do posto, diz muito mais da vida do que a gasolina que gastamos para chegar até lá.

Não quero lhe falar do meu grande amor, porém, não fosse o teatro, não teria conhecido a Katia, minha esposa, minha produtora, minha companheira de grupo; a parceira improvável que merecia o engenheiro, o fazendeiro rico, o empresário de sucesso. Improvável porque é pouco provável suportar um Marcelo por mais de um ano, portanto, suportar um Marcelo artista por mais de vinte é tão improvável quanto ganhar na Mega-Sena. Logo, a opção que fiz pela vida que tenho conseguiu a façanha de me fazer ganhar na Mega-Sena.

A intenção desta postagem não é lhe contar como eu vivi, apenas pontuar o quanto as nossas opções na vida dizem de nós mesmos. O quanto estamos carregados de ancestralidade e o quanto podemos alterar do nosso futuro. O quanto somos ditados por forças sociais e o quão cordeirinhos inocentes somos ao acharmo-nos artistas que podemos mudar o mundo. A intenção é perceber que por termos feito tudo o que fizemos, podemos ser nós mesmos, e não necessariamente viver como os nossos pais.

Mesmo no que se refere ao sentido de descendência, tudo pode ser diferente. Eu nunca quis ter filhos biológicos, nem fiz pela Morgana – essa moça linda que enfeita a foto acima – trinta por cento do que um pai faria por uma filha, e mesmo assim, ela me considera como um pai. Em termos de paternidade, não posso me queixar, o teatro deu um nó na minha existência e tive a filha que não planejei e o amor que não mereço.

Tudo pelo avesso. Tudo atravessado. Uma trilha na contramão. Uma íngreme, sinuosa, argilosa trilha construída além dos preceitos sociais, sistêmicos, econômicos; e sou tolo ao ponto de achar que isso é verdade. E é o descompromisso com o ridículo, o destemor da burla, a imunidade à chacota que me permite ser eu mesmo, o não planejado, o desgovernado, o idiota. Portanto, hoje, do alto da minha tolice, e atravessada a maior parte do caminho, posso afirmar, sem receio: eles não venceram, nem vencerão, jamais.

domingo, 30 de julho de 2017

Afetos como antenas de comunicação


Desde ontem aportamos em Mossoró, após concluirmos a ocupação do Centro Cultural BNB de Fortaleza, durante as últimas duas semanas. A partir de agora cumpriremos uma jornada afetiva, que preambulei na postagem Antenas para os afetos e que agora desenvolvo. Estamos com a oficina sobre o  Quadro de Antagônicos, ontem e hoje; apresentaremos Velhos caem do céu como canivetes, na terça, 19h30, no Teatro Municipal Dix-Huit Rosado, e na quinta, 20h, nos apresentaremos em Natal, no barracão dos Clowns.
Como venho ressaltando em quase todas as últimas postagens deste blog, o futuro do teatro de grupo no país está fadado a retroceder trinta anos, capitaneado por um desmonte estrutural e um desmanche sistemático de tudo aquilo que o Ministério da Cultura se tornou na última década; obrigando os grupos a desenvolver estratégias outras para garantir a sua produção artística, fundamental para a sobrevivência do pensamento autônomo brasileiro.
Uma das apostas da Pequena Companhia de Teatro para confrontar essa perversa realidades são os afetos. Explico: nossa ocupação em Fortaleza foi patrocinada pelo BNB, por consequência, o maior custo de produção já está pago, que compreende o deslocamento da equipe e cenário, e na atual conjuntura, a possibilidade desse mesmo espetáculo se apresentar em Mossoró e Natal é mínima. Como temos uma enorme relação com essas cidades, e achamos fundamental que conheçam esse trabalho, resolvemos abrir mão de um cachê mínimo por apresentação e estender nossa jornada até as duas cidades, no peito e na raça, sabendo que, por logística de espaço e número de apresentações, não teremos nenhum tipo de retorno financeiro, a não ser para pagar os custos; vamos porque queremos que essas cidades vejam o espetáculo; faremos isso por afeto.
Da mesma maneira, e principalmente, quem nos recebe aporta com uma parcela incomensurável de afeto, concentrada na Cia. A Máscara de Teatro – com o apoio da prefeitura, e diversos outros parceiros –, em Mossoró, e nos Clowns de Shakespeare, Arlindo Bezerra e Chrystian Saboya, em Natal. Ou seja, uma soma de afetos provindos dos mais recônditos labirintos das nossas amizades possibilitará que as comunidades de Mossoró e Natal assistam a um espetáculo que não chegaria a elas se dependesse de políticas públicas para a circulação do pensamento dos grupos de teatro de pesquisa pelo país – instrumento basilar para a formação de cidadania e para a materialização identitária do ser brasileiro. 

São estratégias heterodoxas, táticas de guerrilha, maluquice de artista, nada ideal, nada leves, mas necessárias para confrontar uma realidade que busca aniquilar o nosso pensamento e as nossas ações. Enquanto um pensamento comum que contemple o teatro de grupo de todo o país não emergir, vamos executando pequena ações, trilhando novos caminhos, pensando em como marcar nossa realidade com a resistência que nos identifica; e o nosso primeiro e principal instrumento para isso é o afeto.
Ver o esforço descomunal da Cia. A Máscara de Teatro para que a empreitada seja possível faz valer cada gota de suor do nosso esforço e cada centavo perdido, pois é bom que se enfatize que tanto nós quanto cada um dos nossos parceiros nesta maluca campanha estão trabalhando praticamente de graça – e uso a Máscara como exemplo de todos os outros queridos amigos que tornaram viável a nossa ida. Fazemos porque acreditamos que o rastro deixado por nossas ações fertiliza o solo árido de hoje, preparando uma colheita digna para os que virão. 

São essas lógicas excêntricas que precisam ser praticadas pelos grupos do país na busca de formatar estratégias fora da curva, que possibilitem a nossa caminhada até atravessar o tenebroso inverno que o país vive. Os longos papos com o Nelson, do Pavilhão da Magnólia – grupo querido que não mediu esforços e nos brindou com um caminhão de afetividade em Fortaleza, tornando nossa estada viva e pulsante – convergiram para esse pensamento: precisamos uns dos outros, muito além das estruturas mercadológicas que o sistema tenta impor para um setor tão efêmero e imaterial quanto o teatro. 
Afetos. Antenas para os afetos. Vale a pena carregar o peso dos cases, enlonar o reboque e dirigir por horas a fio se nos recebem os braços abertos dos nossos queridos amigos. Vale o esforço, vale o cansaço, vale o foco na desambição; vale a pena saber que estamos fazendo a nossa parte, contribuindo com um grãozinho de areia para que este país seja um pouco menos capital e um pouco mais humano.

domingo, 23 de julho de 2017

O indelével efeito da invisibilidade


Depois dos mil quilômetros de estrada, e da alegria singular com que o Grupo Pavilhão da Magnólia nos recebeu, já se passaram seis dias e chegamos à metade da nossa ocupação do Centro Cultural BNB de Fortaleza, concluindo a oficina de dramaturgia, três apresentações de Velhos caem do céu como canivetes e seus respectivos debates, a exposição do figurino que o Chico Coimbra fez para a performance Literatura Viva e o lançamento do meu livro.
Nosso projeto de ocupação dialoga diretamente com a atual conjuntura cultural brasileira, no que tange a dificuldades, desafios, superações, e a urgente necessidade de desenvolver estratégias de gestão e sustentabilidade. Prova disso foi o nosso deslocamento por via terrestre – de carro e reboque –; a assimilação progressiva da aridez do espaço de apresentação, pouco propício para espetáculos de teatro; o ajuste no orçamento, procurando realizar o maior número de atividades no menor espaço de tempo; e a extensão da jornada para outras paragens, tema da postagem de domingo que vem.
O momento é de observância, prontidão e diálogo. E é no diálogo que percebemos o escárnio com que os poderes públicos estadual e municipal tratam os grupos de teatro de pesquisa do Maranhão e de São Luís – não vou falar do poder público federal porque, além de não mais existir, venho reiterando esse desmonte constantemente nas postagens anteriores. Em diálogo com os queridos amigos do Pavilhão, fiquei estupefato com o número de instrumentos de políticas públicas estaduais e municipais que contemplam os grupos de teatro do estado: editais de ocupação de espaços, de manutenção de grupos, de pesquisa continuada; são tantos e tão variados que não conseguiria quantificar nem qualificar, pois me foi impossível reter em uma conversa a diversidade de opções e ofertas que protegem o pensamento teatral e sua difusão no estado do Ceará. O curioso é que a classe continua a reivindicar e exige uma atenção permanente, certos de que o que está posto ainda não é o suficiente para garantir uma política pública cultural de qualidade para o teatro de grupo.
Fiquei assombrado. Levando em consideração que a Pequena Companhia de Teatro, nos seus 11 anos de trajetória, nunca recebeu do governo estadual ou municipal um único aceno, seja ele por qualquer instrumento de democratização de políticas culturais que não sejam as famigeradas leis de incentivo – que bem sabemos são um equívoco, e vêm sendo questionadas em todo o país há mais de duas décadas – me fez enxergar o óbvio: o quanto estamos distantes de um mínimo de dignidade. Lembrado que falo de dentro de um grupo que já circulou por 67 cidades de 25 estados, participou dos principais projetos de circulação do país, montou 4 espetáculos, ganhou 4 prêmios Myriam Muniz de Teatro e tem sede própria viável com os mais diversos projetos de formação e difusão; o que dirá um grupo jovem que pretende se firmar no seu fazer? Por essa década passaram prefeitos e governadores de todos os tipos e a receita sempre foi a mesma, ignorar, como já falei aqui.
É lamentável. Confesso a vocês que preferia não ter tido a conversa com o pessoal do Pavilhão. Preferia continuar achando que os outros estados estão tão lascados quanto nós, no que se refere a garantir um mínimo de dignidade para um setor que é responsável por auxiliar a manter viva a dignidade humana.
Isso reforça o nosso atual e árduo caminho: aguçar a visão estratégia, refletir sobre sustentabilidade, alargar o diálogo com o país, estabelecer parcerias, reivindicar o óbvio; pois sabemos, há mais de uma década, que no que se refere a políticas públicas municipais e estaduais, estamos sós.
Claro que não poderia deixar de fazer aqui o mea-culpa: se o estado do Ceará e Fortaleza têm esse olhar para o teatro de grupo foi por uma permanente vigilância da classe artística local, por lutas reivindicatórias constantes, por um poder de enfrentamento respeitável, por uma disposição para o confronto, por uma consciência de união entre os diferentes quando necessário, por uma classe que entende que se não for na bruta, o respeito para com a arte não acontece.
Nesse sentido, pouco fiz. Sempre acreditei que se estabelecêssemos um trabalho sério, honesto, comprometido, bastaria para que o poder público percebesse que a nossa invisibilidade corrobora significativamente para a formação de cidadania, e, por consequência, para o próprio governo, mesmo que a nossa intenção seja apenas contribuir para o desenvolvimento do nosso estado. Doce ilusão. A história prova que o caminho das conquistas são o confronto e a reivindicação.
A única vantagem é que nada muda. Como nunca tivemos políticas públicas culturais, tudo continua como sempre foi, e como era quando decidi que viveria de teatro, nem que fosse na marra, quase trinta anos atrás, independentemente do político da vez. Só faço teatro porque não entendo o mundo.

domingo, 16 de julho de 2017

Acordei de bom humor após sonhos intranquilos


Hoje faço um bate-e-volta para o Rio de Janeiro, participar de um debate sobre o SESC Dramaturgias, que será transmitido amanhã, às 14h30, por videoconferência para todo o país, pois na terça, bem cedinho, pego o volante da Pequena Móvel, e rumaremos para Fortaleza cumprir com a nossa agenda de ocupação do CCBNB destrinchada nesta postagem aqui.
Como vamos bater um papo sobre a experiência em participar do projeto a partir da oficina de escrita dramatúrgica que ministrei em Caxias/MA, Vitória/ES e Maceió/AL, antecipo o meu balanço para instrumentalizar os queridos leitores que por ventura vierem a acompanhar o debate em alguma das unidades regionais do SESC para onde a videoconferência será transmitida. 
Assentarei a provocação naquilo que motivou minha proposta para o SESC e que vem sendo discutida aqui no blog: o excesso de narrativização do teatro contemporâneo. Esse assunto pontuou permanentemente o diálogo com as pessoas que participaram das oficinas, e gerou uma inquietação quanto à necessidade de discutir o fato e entender o que esse sintoma da contemporaneidade tenta nos dizer. Como penso que será necessário me debruçar em outra postagem sobre o assunto após ruminar a colheita das réplicas e tréplicas que recebi, não aprofundarei esse mote hoje; todavia, o conteúdo da problematização está escondido na palavrinha que aparece em vermelho neste parágrafo, é só clicar para abrir a Caixa de Pandora.
Debruçar-me-ei sobre quatro pontos que considero cruciais na experiência vivida, dois negativos e dois positivos. Começarei pelos negativos, para dar tempo de diluir meu azedume, fazendo com que o ledor termine a leitura com uma imagem menos ranzinza deste ranheta contumaz que tanto reclama.
O primeiro ponto negativo é que meu Henrique é sem H... Era para ser uma piada; se você não riu, é a prova patente de que você é tão ranheta quanto eu. O segundo, e aqui ressalvo abordar o tema em termos gerais, não sendo generosos com as situações que fugiram à regra, percebi uma dificuldade do SESC em conseguir adequar a clientela da oficina para o recorte mais específico sugerido pela oferta, desnivelando a possibilidade de aproveitamento por parte das pessoas atendidas pela ação; fiquei com a sensação de que pessoas outras, que respondessem mais organicamente às especificidades, pudessem ter ficado de fora não por indiferença, por desaviso.
Já os pontos positivos foram apenas confirmados, pois haviam sido levantados como suspeitas em postagens anteriores que nem vou lincar, por saber que você não se dará o trabalho de clicar. O primeiro diz respeito ao cuidado do SESC em viabilizar uma carga horária significativa, 32h – tendo em vista que uma disciplina acadêmica gira entre 40 e 60 horas, disponibilizar uma atividade formativa com essa extensão comprova o compromisso do SESC com o aprofundamento do estudo das múltiplas dramaturgias postas hoje. Não é muito comum atividades formativas receberem essa atenção quanto ao tempo necessário para que uma facilitação seja realizada largamente, possibilitando ao participante um debruçar-se efetivo, contrapondo-se a certa superficialidade que permeia projetos que incluem formação, inclusive nossos.
A segunda, e que a edição deste ano traz como novidade, é a possibilidade de a oficina ser ministrada em dois momentos, com um intervalo de tempo importante entre os dois. Esse acertado formato possibilitou o confronto entre teoria e prática. Aquilo que fora postulado no primeiro encontro, recebera um outro momento para a verificação das postulações no tête-à-tête com o postulante, arremessando oficineiros e oficinados em um delicioso jogo dialético, repleto de comprovações, antíteses, problemas, réplicas, contradições, esclarecimentos, teses, tréplicas, abraçados pelo empenho na busca da síntese, tão esquecida nas tratativas dialéticas contemporâneas, principalmente virtuais.
No trinchinchim, minha experiência aponta para algo que vem sendo pontuado por onde passo, nas quase setenta cidades que visitei nos últimos anos com diversos projetos: o fato de o SESC ser um ocupador potente da lacuna que as políticas públicas culturais do país não conseguiram preencher, e que agora, na atual conjuntura política de desmonte e desmanche, será alargada até virar uma grande vala onde será sepultada a cultura brasileira.
São apenas umas pitadas de tempero que jogo por cima, para marinar o papo que acontecerá amanhã, e que você poderá acompanhar, se tiver disposição para dar um pulinho na unidade do SESC da cidade que você habita. Como frequentemente faço jejum, chegarei para o debate com fome, e espero que as questões levantadas por você, meu intrépido leitor fantasma, saciem este faminto prosador de inutilidades.  

domingo, 9 de julho de 2017

Antenas para os afetos


Terça-feira que vem, dia 11 de julho, às 19h, estreia o espetáculo teatral “Atenas: mutucas, boi e Body”, de Lauande Aires e Igor Nascimento, na sede da Pequena Companhia de Teatro, na Rua do Giz, 295, Praia Grande. A temporada de estreia vai de terça a sábado, e a entrada é gratuita. No elenco, Dênia Correia, Nuno Lisboa e o próprio Lauande. Serão 15 apresentações ao todo, sendo que as duas outras temporadas acontecerão de 15 a 19 e 22 a 26 de agosto. Isso é o de importante que tinha para escrever hoje. Tudo o que segue é mais uma das elucubrações irrelevantes às que submeto a querida leitora e o companheiro leitor por mera necessidade de encontrar companhia para o maior prazer da minha vida, perder tempo.
As relações da Pequena Companhia de Teatro são construídas, primordialmente, pelo afeto. A própria consolidação do nosso grupo se estabeleceu a partir dele e da amizade. Até a curadoria de ocupação da nossa sede, como já falei aqui, é orientada, inicialmente, pelo afeto.
Você pode achar que é uma maluquice, eu acho um privilégio. Um dos meus maiores temores durante a minha formação foi o de ser obrigado a ter que trabalhar com gente chata. Como sempre conheci o tamanho da minha chatice, achei oportuno me abrigar em ambientes agradáveis, onde a minha ranhetice ficasse diluída na cordialidade e leveza do todo. É o prazer que me move, e o teatro é uma fonte de prazer martirizante, onde o martírio do trabalho que faço (trabalho sempre será um martírio para qualquer ser humano que entenda o indelével prazer do ócio) encontra o prazer da lida com quem ou para quem trabalho, criando uma espécie de limbo límpido, sombra iluminada, palafita luxuosa, lodaçal de chocolate.
Com a ocupação da nossa sede pelo espetáculo Atenas não é diferente. Acompanhar o sobe e desce de escadas, bater um papo entre sacadas, ouvir as batidas dos martelos, servir no que for preciso, curiar as nuances, tomar um suquinho, descobrir que têm malucos como nós; tudo isso é abraçado por um afeto que me faz cruzar os dedos diariamente na torcida para que tudo dê certo, e na terça tenhamos a estreia de um espetáculo honesto, comprometido, transformador, pois nada pode fugir desse roteiro quando se tem um grupo tão dedicado, sério e inteligente como o que tenho visto transitar feito fantasma pelas escadarias da Pequena Companhia de Teatro nestes últimos dez dias.
Essa condição de existência privilegiada está diretamente relacionada ao entendimento da necessidade de perceber onde estão os nossos pares, para onde os caminhos convergem, onde se depositam os sonhos, onde se esconde a sutil coincidência – aquela que junta os menos prováveis e os transforma em iguais, por mais diferentes que sejam. Claro que para conseguir essa condição já engoli muito sapo, vendi diversas vezes minha alma para o diabo, aguentei muito caboco mais chato do que eu e até madruguei (!); tudo para conseguir essa minha pré-velhice tranquila, meu quase fim moroso, a lenta despedida da movimentada quietude que é a vida.
Escrevo esta glosa sobre o afeto porque Atenas é a mais longa jornada de um espetáculo externo na nossa sede, desde sua inauguração, em 2013, e não poderia estar envolvida outra pessoa que não o Lauande, um dos nossos amigos mais próximos, e responsável por comandar a trupe nesta jornada trágica que se avizinha. Como tudo o que me invade vira postagem, achei que as sensações da experiência que narrei poderiam encontrar eco no coração da leitora ou leitor, e ainda fantasio que, enquanto você lê, dá uma olhadela dissimulada para a pessoa que está ao seu lado e sorri, graciosamente, por sentir a felicidade de saber que ela é a pessoa que deveria estar nesse exato momento e lugar.

domingo, 2 de julho de 2017

Entre Pasárgada e Macondo


De 18 a 29 de julho a Pequena Companhia de Teatro ocupará o Centro Cultural Banco do Nordeste em Fortaleza/CE, com grande parte do seu repertório de atividades: 06 apresentações de Velhos caem do céu como canivetes e seus respectivos debates, 02 oficinas – O Quadro de Antagônicos como instrumento de treinamento para o ator e Do narrativo ao dramático: a transposição de gêneros como instrumento de confecção de dramaturgia –, o lançamento do livro Cinco Tempos em Cinco Textos, que reúne minha produção dramatúrgica entre 2003 e 2009, a exposição dos figurinos da performance Literatura Viva, do saudoso Chico Coimbra, e a palestra Desconstrução estética de Velhos caem do céu como canivetes, que pretende aproximar cenógrafos e iluminadores das tecnologias teatrais desenvolvidas por nós durante a última década.

O projeto Teatralidades: a Pequena Companhia de Teatro ocupa Fortaleza foi contemplado pelo edital de Seleção de Projetos Culturais BNB 2016/2018 e segue o nosso conceito de ocupação, que procura passar o maior tempo possível na cidade com grande parte das nossas atividades, para que a comunidade que nos recebe tenha uma dimensão ampla dos caminhos do nosso fazer. Por duas edições consecutivas (a de 2014/2015 contemplou a ocupação do CCBNB em Sousa/PB) a Pequena consegue sensibilizar os pareceristas com uma proposta que foge à regra do trânsito rápido, e tenta extrair uma intensidade maior da ideia de intercâmbio. As cidades de Campo Grande/MS, Primavera do Leste/MT e Goiânia/GO também foram tocadas com o conceito, através do Programa Petrobras Distribuidora de Cultura, em 2016, e muitas ramificações férteis surgiram a partir dessa interlocução mais intensa com os municípios visitados.

Quem nos receberá por lá será o Pavilhão da Magnólia, que fará nossa produção local e assessoria de imprensa, já disparando o diálogo com a cidade e suas idiossincrasias, motivo principal do nosso programa de circulação que procura conseguir o desnudamento dos prazeres e agruras do fazer teatral de cada universo. Para isso, separamos quatro dias da jornada sem atividades formais, para podermos acompanhar espetáculos locais, visitar grupos, sedes, projetos teatrais e toda sorte de atividades que nos possibilitem entender a dinâmica e a lógica da produção cênica de Fortaleza – cidade em que morei por dois anos, num tempo em que teatro ainda era um bicho de sete cabeças que eu almejava conseguir domar algum dia.

Exemplo expresso do que já falei aqui, Fortaleza é uma das capitais mais próximas de São Luís, e uma das mais distantes no que se refere ao intercâmbio de pensamento entre a Pequena e grupos de teatro do país. Estivemos por lá diversas vezes, quando da nossa circulação pelo Myriam Muniz, pelo Palco Giratório e no Festival BNB de Artes Cênicas, com Pai & Filho, mas pouco contato tivemos com a classe artística, ação fundamental para a oxigenação do pensamento, o espelhamento de práticas, o abrandamento de mazelas e a encubação de soluções para a subsistência de grupos de teatro neste trágico Brasil que hoje se apresenta. Capitais menos prováveis são aliadas contumazes na tessitura da teia de que falo no link que acabei de oferecer acima, e que você não teve a gentileza de visitar para que a contextualização seja possível.

Por quê? Por que uma capital mais próxima do que muitas outras se manteve tão distante da Pequena Companhia de Teatro? Por que Piracicaba, Campo Grande, Palmas, Belém, Cuiabá, Porto Velho, Guaramiranga, Teresina, Macapá conhecem nossos últimos dois espetáculos e Fortaleza só conhece um? A principal resposta está num problema que perpasso agora, mas que me debruçarei em uma próxima postagem: com o advento da política dos editais –  esboço de fomento cultural que contribuiu para a construção de cidadania, diferentemente do desmonte atual – deixamos de ser propositivos, e passamos a ser pautados por aqueles que determinam os eixos curatoriais dos editais em questão. Se a Pequena queria ir para Pasárgada e Macondo, não necessariamente o programa da vez queria o mesmo, e acabávamos indo apenas para Macondo. Nossa ida para Macondo, por mais sensacional que fosse, não saciava nosso desejo de ir para Pasárgada, contudo, pouco fizemos para chegar até lá, mesmo sabendo que seríamos amigos do rei.

Agora, para que o projeto de ocupação do CCBNB se tornasse viável, propusemos ir de Pequena Móvel – nome dado por Fernando Yamamoto à nossa forma de deslocamento quando vamos os quatro de carro com o reboque carregando o cenário –, dirigindo os mil quilômetros que separam São Luís de Fortaleza; pincelada de esforço que confirma o desejo de que a cidade conheça um pouco mais a fundo nossa produção. Então, o que nos impediu de arribar em Fortaleza em outro momento? A resposta na ponta da língua é o fator econômico, desculpa que nos acomodou em um calendário sugerido por nós, mas definido por outros. Desculpas, pois, a Pequena Móvel depende de uns litros de combustível para ser independente, e tenho absoluta certeza que não faltaria um colchão limpo e um espaço vazio esperando por nós em qualquer destino desejado.

As reflexões que aqui faço são os passos que dou rumo ao entendimento de outras diversas ações de sustentabilidade que precisamos desenvolver para que a nossa realidade continue sendo a de um grupo de teatro nordestino que apresenta um fazer teatral honesto, independente e constante. Uma dessas ações será o tema da postagem que escreverei no final deste mês, após confirmadas as tratativas. Só não digo do que se trata para não ter que usar a palavra “spoiler”.
 

domingo, 11 de junho de 2017

Teatro de grupo, IDH e um país desgovernado


Semana passada encerrei minha participação no SESC Dramaturgias, nas cidades de Caxias/MA, Vitória/ES e Maceió/AL, com uma oficina de escrita dramatúrgica, sobre a qual versei muito por aqui. Foram dois meses, entre idas e vindas, e cento e duas horas de atividade, onde facilitei a forma de adaptação aplicada pela Pequena Companhia de Teatro nos seus últimos dois espetáculos, e no próximo, que está em gestação.
Coincidentemente o projeto me levou para as Alagoas, e não menos coincidiu a conversa com um amigo sobre os índices de desenvolvimento humano do país. Dando uma pesquisada virtual, qual foi a nossa surpresa – leia um texto sobre ironia aqui – ao constatarmos que Maranhão, Piauí, Pará e Alagoas encabeçam o ranque dos piores IDHs brasileiros. A conversa nada teria de singular, não fosse o momento de reflexão em que me encontro e a dificuldade do país de se encontrar.
Como um grupo de teatro maranhense – que decidiu atuar em um país que sinaliza com o desmanche da cultura como estratégia de progresso – sobreviverá nos próximos anos estando na periferia do desenvolvimento humano, na vanguarda do atraso, no fim da fila na lembrança dos eixos hegemônicos que controlam a cultura do país?
Esse é o desafio atual da Pequena Companhia de Teatro, que atende pelo apodo de visão estratégica – a ser desenvolvida na busca de opções além do óbvio, fora da curva; alternativas que atravessem os mecanismos da nossa expertise e desemboquem em soluções menos ortodoxas.
Até aqui, a sensação é a de que são apenas palavras bonitas. Um indivíduo, um corpo, uma célula, não sobrevive sem o seu entorno, por mais visão estratégica que tente desenvolver. Qualquer lógica individual sempre será moldada, afetada ou massacrada pelo coletivo, pelo país que habita, pelo sistema que a governa, pela esfera onde circula. É impossível ser criativo se o modelo de gestão entende a cultura como mercado enquanto o criador entende como instrumento de transformação sócio-político-cultural a longo prazo.
Uma diretriz nossa, que norteou a trajetória da Pequena desde sua fundação, foi a de entender o grupo inserido na produção do país, extrapolando as fronteiras da província, pois a interlocução apenas com o nosso estado não seria suficiente para garantir a nossa sustentabilidade criativa, financeira e dialógica. É essa certeza que acentua o nosso desafio quando entendemos que estamos inseridos em um estado de origem pouco acessado como referência de produção teatral, reflexo naturalmente do contexto social que indica o índice que mencionei acima.
Essa triste realidade é comprovada pela nossa própria trajetória, quando fomos o primeiro grupo maranhense a participar de diversos projetos, chamamentos, festivais e editais – inclusive agora, quando finalizo o SESC Dramaturgias como o primeiro maranhense a participar do projeto como facilitador –, fato que devia nos orgulhar, mas que na verdade aponta para a dificuldade de penetração da produção teatral e do pensamento artístico maranhense na cena brasileira.
Exponho essa condição por saber que há inúmeros grupos de teatro pelo país tentando resolver a mesma equação e achando ser o único que está pensando nisso. O que talvez difira da nossa condição seja a posição que ocupa o estado desses grupos no ranque do IDH. Quando o índice de desenvolvimento humano é tão precário, a possibilidade de um olhar mais atento, mais inteligente, mais delicado para com as artes é quase inexistente, pois, as prioridades se acavalam galopantes diante da nossa miséria. Por consequência, conseguir os holofotes do Brasil além de degolas, lagoas, capitanias hereditárias e bumba-meu-boi é uma tarefa hercúlea.
O problemático é saber que dependemos disso. A Pequena Companhia de Teatro não sobrevive sem o Brasil, e o Brasil de hoje está encarregado de exterminar a Pequena Companhia de Teatro e todo e qualquer grupo de teatro do país. O que dá maior ou menor resistência a esses grupos é o índice de desenvolvimento humano do estado de origem. As dificuldades são as mesmas, mas um coletivo que opera em um estado mais desenvolvido e, por consequência, com maior poder hegemônico, naturalmente estará mais próximo do foco daquele holofote, sobrando para nós a penumbra, e a esperança de que os responsáveis pela direção do olhar o ajustem para a sombra, como aconteceu na última década.
Nada trago de novo que não haja vivido nestes quase trinta anos de fazer teatral. A diferença é que durante essas três décadas transitei pela impossibilidade de viver de teatro, pela esperança de que fosse possível, até desembarca na realidade de viver do ofício sem a necessidade de forjar outro ofício complementar que legitimasse o primeiro. Agora, enquanto espremo meu juízo na busca de alternativas estratégias, fórmulas escalafobéticas, mirabolâncias engenhóticas, suspeito ter caído no conto do vigário. Os onze anos de trajetória ininterrupta da Pequena Companhia de Teatro se contrapõem a essa suspeita.

domingo, 21 de maio de 2017

Uma pequena volta por Campo Grande


Na próxima terça-feira a Pequena Companhia de Teatro retorna a Campo Grande, cidade ocupada com nossas atividades artísticas em 2016, através do Programa Petrobras Distribuidora de Cultura. Fomos convidados para participar do Projeto Boca de Cena – Mostra Sul-Mato-Grossense de Teatro e Circo e passaremos toda a semana em terras campo-grandenses. Ministraremos a oficina O Quadro de Antagônicos como instrumento de treinamento para o ator, participarei de uma mesa redonda sobre resistência teatral em tempos de crise e encerraremos nossa participação com uma apresentação do espetáculo Velhos caem do céu como canivetes.
Nosso trabalho no decorrer da última década se pautou no compromisso com o fortalecimento do teatro de grupo, na seriedade com que encaramos nossos projetos artísticos, e na honestidade que apresentaram nossos resultados. O curioso do convite é que saímos de Campo Grande com a certeza de que tínhamos feito um trabalho significativo e contribuído, de alguma maneira, para o fortalecimento da cena teatral local. Foi uma sensação coletiva, pois, ao deixar a cidade, os quatro sentiram que se efetivara a troca; e tudo o que o teatro opera, naquele momento, fazia muito sentido para nós. Mas, como toda certeza é uma dúvida em forma de esperança, o chamado da Fundação de Cultura do Mato Grosso do Sul serviu para confirmar o efeito da nossa passagem, e para propiciar um novo momento para a troca de experiências.
Dos encontros improváveis que a arte proporciona, Campo Grande receberá, em menos de um ano, os dois espetáculos do nosso repertório, as duas oficinas basilares da nossa construção cênica, e pílulas das reflexões que o blog da Pequena Companhia de Teatro procura provocar (assim como a oficina que facilitarei em Natal, a mesa redonda citada acima é outra atividade provocada pelo teimoso exercício de ancorar o pensamento aqui), criando o ambiente oportuno para que a comunidade local estabeleça um contato direto com a formatação do nosso grupo, os mecanismos de encenação, nosso posicionamento político, os meios de financiamento, nossas opções estéticas, os métodos para suportar a fome, os caminhos de treinamento para o ator etc. Apesar do permanente e profícuo atravessamento geográfico que os grupos de teatro brasileiros efetivam anualmente, não é comum uma cidade ter contato pleno com todo o fazer teatral de um coletivo, por isso defendemos e aplicamos, quando possível, o conceito de ocupação alargada, já realizado em Sousa/PB, Goiânia/GO, Primavera do Leste/MT, Campo Grande/MS e, em julho próximo, Fortaleza/CE, quando ocuparemos o CCBNB durante duas semanas com a maioria das nossas atividades artísticas.
Claro que a atual conjuntura político-brasileira, e o conceito derivado dessa para as políticas público-culturais – que atende pela alcunha de desmonte – compromete, significativamente, nosso projeto artístico, pois, sem um olhar sensível do poder público, qualquer iniciativa passa a ser regida pelo canibalismo do mercado e nessa seara somo meros cordeirinhos. Portanto, inciativas como a da prefeitura de Campo Grande, focada em propiciar a fruição teatral para sua comunidade, também contribui para a resistência do teatro de grupo, ao promover uma mostra teatral, quando a nova ordem sugere que artistas devem pensar em arrumar trabalho – leia o contraponto que fiz aqui a esse chiste de mau gosto.
A atenta leitora, o cuidadoso leitor, já devem ter percebido o quanto a palavra resistência tem se repetido neste nosso muro das revoluções. Essa reiteração ocorre porque – mesmo que você não saiba, e que nenhum meio de comunicação divulgue – o teatro de grupo do país, e a arte de um modo geral, vem sofrendo uma profunda desconstrução estrutural, surda, capciosa, corrosiva, e a principal arma de que dispomos para o enfrentamento é a resistência. Resistindo vamos, teatralizando, de volta a Campo Grande.

domingo, 14 de maio de 2017

Caneta e papel: a resistência da escrita

Na última quinta-feira encerramos o 1º encontro do SESC Dramaturgias, em Maceió/AL, depois de ter passado por Caxias/MA e Vitória/ES. Foram 16h de atividade em cada uma das cidades, instrumentalizando o participante para a produção de escrita dramatúrgica, a partir da profunda análise de gêneros literários, do mergulho nas características do gênero dramático, da democratização do processo de transposição de gêneros da Pequena Companhia de Teatro, e da problematização sobre a preponderância da narrativização no teatro contemporâneo.
Coincidentemente, já havia passado com espetáculos e oficinas nas três cidades que visitei; isso me proporcionou o confronto das realidades, produções e problemas, em um intervalo aproximado de cinco anos, com exceção de Caxias, que visitei com maior frequência. É difícil não observar que, pese aos esforços pontuais de iniciativas que resistem, os problemas perduram, e meia década depois, assim como a realidade ludovicense, não posso afirmar que houve avanços significativos entre o que havia e o que hoje está posto. Nas discussões que perpassaram todas as horas de atividade, foram recorrentes as queixas quanto à minguada produção teatral, a desestruturação de políticas públicas culturais, a dificuldade de conseguir financiamento artístico, a carência de oferta de atividades formativas, e a recorrência de se enxergar o SESC como um ator importante mas não suficiente para sanar as demandas emergenciais de uma classe teatral que tende a definhar ainda mais com a nova ordem estabelecida nacionalmente no que se refere a arte: o desmonte.
Ainda assim, foi gratificante perceber que os que ali estavam para dialogar, cerca de cinquenta dedicados interlocutores, conservavam a força oriunda da resistência cultural – condição presente no DNA de qualquer artista que seja forjado em um país que desconsidera, permanentemente, o poder de transformação sociopolítica da cultura. Esses queridos companheiros de jornada dramatúrgica mantiveram acesa a chama do diálogo, e provocaram seus conhecimentos, ao permitir-se horas de intenso estudo, sem negligenciar o necessário estado de atenção frente ao mundo que nos cerca.
Após esse nosso primeiro momento, onde foram facilitadas as informações e técnicas necessárias para o avanço da atividade, todos os participantes encontram-se agora no processo de escritura de uma peça teatral a partir de uma obra de outro gênero literário; e a oficina pretende que, ao fim, todos os participantes tenham desenvolvido um texto de curta, média ou longa extensão. No decorrer dessa produção, vou acompanhando virtualmente o desenvolvimento de cada um dos projetos dramatúrgicos, verificando os caminhos e os descaminhos que se apresentarem durante a trajetória. Isso continuará até o nosso próximo encontro, pois, como versei aqui, o SESC Dramaturgias prevê o retorno do oficineiro à cidade visitada. Sendo assim, outras 16h, nos três municípios, pretendem possibilitar a prática com a presença do facilitador, onde acompanharei a feitura e finalização de cada um dos textos, dirimindo ruídos que tenham perdurando durante o primeiro encontro.
O projeto terá sequência nesta segunda-feira, quando parto para Caxias/MA, primeira cidade que visitei com a oficina de escrita dramatúrgica. Com a metade que me cabe do SESC Dramaturgias concluído, posso dizer que toda ação de cunho formativo tem marcante repercussão na comunidade artística onde é realizada, pois aciona dizeres e desejos muitas vezes escondidos em lugares recônditos da alma humana, e que, quando provocados, se apresentam com a potência, prontidão e espanto matriciais para a criação artística. Tomara que tudo seja, permaneça, aconteça, recomece, resista...  

domingo, 7 de maio de 2017

Dram Act Urge


Queria ter a clareza das grandes certezas: a morte, a vida, o sabor irretocável do presunto cru. Queria o amigo da sentença absoluta; queria saber sem duvidar; queria que alguém me dissesse, com absoluta certeza, quem nasceu primeiro, se o ovo ou a galinha; alguém que sentenciasse o sexo dos anjos; queria a resposta para a pergunta de alguns anos atrás: com quantos paus se faz uma canoa? Mas não. Tudo na vida é dúvida, incerteza, cambaleio, titubeio.
Sempre que embarco em uma jornada dialética como a que me propuseram para estes dias, com o SESC Dramaturgias, me deparo com a fragilidade das minhas certezas, com a pretensão dos meus saberes, com o embaraço dos meus pavoneios, com a vaidade camuflada e suas idiossincrasias. Como sou encenador por ofício, as poucas certezas que carrego estão relacionadas a essa prática, o mais é penumbra, desassossego.
Essa sensação faz como que a exposição provocada por uma atividade formativa faça emergir um torvelinho de inquietações que servem para temperar o pensamento, conduzir o procedimento, equilibrar o diálogo, domar os excessos e transformar o encontro em troca e o exercício em aprendizado.
O tempo que me trouxe até estas paragens – longos anos em busca de um fazer teatral honesto e orgânico – me fez constatar o quanto o conhecimento pode ser um perigoso instrumento de poder, e como esse poder é muitas vezes utilizado como mecanismo de opressão. Minha luta sempre se estabeleceu na tentativa de jamais cortejar esse poder, nem ciceronear aqueles que entendem o conhecimento como propriedade. Se a alma não é generosa, a exploração que o poder pode provocar é nefasta.
Por isso a experiência artística é tão provocadora. Os enlaces que ocorrem em uma oficina de cunho artístico como a que estou facilitando vão muito além das estruturas formais organizadas, e transitam por um ambiente muito mais amável, franco, desafiador, gerando o terreno oportuno para a troca desinteressada, o fortalecimento do diálogo, a amabilidade dos pares; diluindo graciosamente todas as dúvidas que apresentei no prólogo, e reforçando a suspeita de que este é o lugar onde eu deveria estar hoje, ontem, e onde se apresente a oportunidade de desenvolver uma boa conversa.
Já ministrei oficinas em 27 cidade de 14 estados, acredite. E em todos esses encontros a sensação primária de abismo perdurou pelo tempo que separa o convite do encontro. Quando o encontro acontece, emerge o cálido palpite de estarmos, juntos, construindo algo novo, fora da curva; provocando as estruturas, transformando o inequívoco, idealizando um mundo novo, outro, que o da realidade que hoje nos oprime e aflige – principalmente quando o presente do país que habitamos é tão dilacerantemente medonho. Uma personagem de um texto de Wilson Coêlho – querido amigo que este projeto possibilitou reencontrar –, cujo título roubei para titular esta postagem, diz; “me parece que os equívocos somente existem para os idealistas”. Talvez eu esteja totalmente equivocado, idealista que sou, e nossas ações, encontros, discussões, não reponham uma única mordida deste abocanhado Brasil. Mas, pelo menos, tenho o privilégio de saber que os equívocos existem – parafraseando a personagem Dram –, e que de tanto errar, quem sabe um dia, possamos acertar a mão e construir um lugar ideal. São só dúvidas, suspeitas, palpites, desejos.  A única certeza que perdura, encontro a encontro, é a de que sempre aprendi mais do que ensinei.

sábado, 29 de abril de 2017

Ilhas de encontros em um mar de desencontros

 
O primeiro encontro de 16h com os participantes do SESC Dramaturgias em Caxias/MA – serão dois, conforme expliquei aqui – encerrou na quinta, e enquanto me preparo para seguir viagem rumo a Vitória/ES e Maceió/AL, depois de amanhã, repasso na cabeça as marcas deixadas pela experiência e as indagações provindas dessa jornada.  
Toda atividade formativa, seja oficina, curso, vivência, imersão, minicurso, workshop (sic), propõe um repasse de práticas, teorizações, metodologias, experimentos, postulações e pulsações de alguém que se pressupõe cumprir os pré-requisitos para atender as demandas da clientela que o espera – aplicado vertical ou horizontalmente, dependendo da proposta do facilitador –, e as consequências dessa natural troca são avaliadas de diversas maneiras pela comunidade que o recebe; no decorrer da atividade, em bate-papos informais ou na cordial conversa de encerramento, mas, principalmente, depois da partida do dito cujo; quando a volta à rotina da classe artística local faz com que se efetive, no tête-à-tête, a real e implacável avaliação do bardo. Porém, raramente temos acesso aos resultados, transformações, devaneios, daquele que promove o repasse, e quando existem, ficam confinados em formais relatórios de conclusão, arquivados nos anais da desmemoria.


Por esse motivo me proponho a mostrar o outro lado, e revelar o que se passa pela cabeça daquele que vai e carrega consigo as marcas da experiência, a carga do forasteiro, o desafio de ter invadido uma realidade que não é a sua e ser o ilustre desconhecido apresentado por algumas laudas de currículo.
A primeira sensação que me toma é a de que todo encontro é uma ilha em um oceano de desencontros. Toda atividade formativa, quando realizada fora da comunidade onde o ministrante atua – e já passei por essa situação inúmeras vezes –, expressa em sua gênese a minúscula probabilidade de que esse encontro se repita, e esse que vai, carrega sempre consigo o desejo de retornar e a certeza da improbabilidade.
Essa é a marca inaugural deixada em mim com a primeira experiência no SESC Dramaturgias. Como o projeto agora propõe o retorno do ministrante, depois de mais ou menos um mês, para um novo encontro de 16h, a sensação da partida foi particularmente diferente de todos os experimentos formativos que me propus realizar durante os últimos vinte anos. Poder retornar, prontamente, para perceber ruídos, poder acompanhar se efetivamente se verifica alguma contribuição significativa na formação do participante, poder receber impressões presenciais dos problemas, me fez transitar pelos 362km que separam Caxias de São Luís, com um singelo contentamento substituindo a escamoteada angústia, pois sei que voltarei.
Aquele olhar de dúvida que não percebi terá uma segunda chance. Aquela certeza de entendimento que se esvai em uma prática mais aprofundada terá uma segunda chance. Aquela confidência de incompreensão que foi calada terá uma segunda chance. Aquela atenção que não dei, por descuido, terá uma segunda chance.
Claro que muitas vezes retornei à mesma cidade depois de visitá-la com algum projeto artístico, e criei laços profundos que se sustentam até hoje – inclusive em Caxias, onde apresentamos os dois últimos espetáculos da Pequena Companhia de Teatro –, mas em todos esses casos as motivações do retorno foram fortuitas, afetivas, desavisadas. Aqui, não. O projeto tem o cuidado formal e a delicadeza de garantir esse privilégio para oficinados e oficineiros, sem que eles tenham que contar com a sorte de que esse oceano de desencontros se abra para que passe um novo encontro.
Começou agora. Mas, a primeira marca já está cravada na pele deste pelejador teatral, forjado a cada encontro, a cada abraço, a cada papo, a cada troca, a cada partida, a cada retorno... Agradeço ao SESC por essa singela marca. E para os vinte e quatro consortes que participaram da oficina, e tanto discutiram sobre gêneros literários, perdoem o excesso de lirismo que tomou conta desta narrativa. Nos vemos em breve!

domingo, 23 de abril de 2017

A Pequena no SESC Dramaturgias

 
Amanhã parto para Caxias/MA. Fui convidado para participar do SESC Dramaturgias, um dos principais projetos de pensamento e difusão das plurais dramaturgias pesquisadas atualmente. Visitarei ainda neste primeiro semestre as cidades de Vitória/ES e Maceió/AL, com a oficina Do narrativo ao dramático: a transposição de gêneros como instrumento de confecção de dramaturgia, metodologia criada pela Pequena Companhia de Teatro para a produção de dramaturgia quando o conteúdo de dizeres para a encenação teatral encontra-se disponível em um texto que não é do gênero dramático, seja ele de qualquer outro gênero literário ou textual.   
O projeto me é caro, pois, ao expandir o conceito de dramaturgia, vai de encontro ao pensamento do Teatro Polidramático que a Pequena vem desenvolvendo há alguns anos, e que se sustenta na ideia de que todo aquele organismo cênico que for capaz de construir uma narrativa poderá ser instrumento de dramaturgia, seja ela basilar ou estruturalmente auxiliar a uma dramaturgia principal.
O diferencial expressivo deste projeto em relação a outros que a Pequena Companhia participou ou promoveu, é se tratar de uma atividade formativa com carga horária extensa, de 32 horas/aula. Esse alargamento do tempo de troca retumbará significativamente no aprofundamento de todo e qualquer conteúdo que os diferentes artistas convidados do SESC Dramaturgias proponham, possibilitando uma colheita muito mais pujante que a conseguida com atividades de menor carga horária. Ainda, o participante que se propõe ao intercâmbio, tem a oportunidade de acentuar o estudo e intensificar a prática metodológica da vez, confrontando experiências anteriores e expandindo sua vivência.
Outra virtude é que o projeto prevê dois encontros de 16h, com um intervalo de várias semanas entre um e outro. Essa ideia me é singularmente provocativa, pois promove um tempo de maturação do conteúdo e de prática real para o artista que participa da oficina, oferecendo o tempo e a empiria necessária para os contraditos, as ressalvas, as antíteses; colocando o facilitador frente a frente com possíveis falências reveladas no encontro anterior – diferentemente de  atividades de tiro único, quando o participante fica sem a possibilidade de esclarecer dúvidas provocadas pela tentativa de aplicar o conteúdo sem o acompanhamento necessário de que o preconiza. O conceito exige robustez do oficineiro, sendo que é confrontado com qualquer descaminho que suas proposições não tenham previsto, possibilitando a permanente revisão, tão necessária para a plena consolidação de qualquer postulação.
O SESC Dramaturgias foca investigação em escrita dramatúrgica, dramaturgia do ator, da dança, do circo, da iluminação, afora leituras em cena; e o convite que me foi feito concentrará seu conteúdo na escrita dramatúrgica através da transposição de gêneros literários, experiência que alguns leitores deste blog já vivenciaram em diferentes momentos do nosso calendário de atividades formativas. O que diferirá de experiências anteriores – além do tempo que oportunizará um aprofundamento muito mais significativo – é que somo à atividade a provocação/problematização que tenho feito em palestras e convites para conversas e mesas redondas, assentada na postagem recente que fiz aqui, sobre o excesso de narrativização do teatro contemporâneo.
Como primeiro maranhense a participar do projeto como facilitador, em todos esses anos de SESC Dramaturgias, entendo que o diálogo fortalecerá a capilarização de uma série de escritas cênicas que estão sendo desenvolvidas no Maranhão, e que, por periféricas geograficamente, não conseguem transpor as barreiras impostas pelas regiões detentoras da agenda cultural do país – repare você, arguciosa leitora, astuto leitor, que falo apenas de agenda cultural, pois, a cultura brasileira é tão plural e rica que não admite centros. Mais uma vez o SESC assume um papel capital em favor da descentralização do pensamento, da democratização dos múltiplos fazeres, do intercâmbio nacional e do abrandamento dos eixos hegemônicos.
Claro que o que aqui escrevo são meras impressões do porvir, porque amanhã apenas inicio minha jornada de encontros, aprendizados, desafios, provocações, registros, conversas, trocas, revezes, discussões e estudos. A única certeza é que você poderá acompanhar o desenvolvimento da empreitada no mesmo endereço de sempre – um blog que acumula 541 textos, 1.309 comentários e 7 anos de extensa inutilidade.

domingo, 16 de abril de 2017

H(á) poesia na rua do Giz


Um querido amigo – prosista de estimada destreza –, em uma das nossas intermináveis conversas, queixava-se da falta de poesia do mundo contemporâneo. De fato, o mundo vem perdendo sua capacidade poética, além de naufragar em incompreensões de metáforas, ironias, paródias, hipérboles...
No momento em que o mundo anda tão polarizado, não há espaço para sutilezas, e tudo é preto ou branco, macho ou fêmea, esquerda ou direita, conhecimento ou ignorância, virtude ou defeito – um Quadro de Antagônicos Social, se me permitem a propaganda. Essa realidade cristaliza uma contemporaneidade repleta de cruezas, escancaramentos e obviedades, embrutecendo e emburrecendo o interlocutor e conduzindo-o a uma incapacidade de ler além do óbvio, de perceber as transversalidades, de elucidar um discurso metafórico, de alargar o diálogo além da dureza de verdades e mentiras.
Naturalmente, e como deve ser, a arte também padece desse sintoma, e o teatro não é a exceção que confirmaria a regra, como eu gostaria que fosse. Essa constatação provoca meu pensamento e atenta ao fato de encontrarmos hoje no teatro um lugar de rigidez, sobriedade, objetivismo e sequidão jamais vista. Esse presente cruel afoga a possibilidade de construir um fazer teatral mais intrincado, abstruso, complexo, sofisticado (atualmente usar essa palavra é quase uma obscenidade), e ao não dialogar com o entorno corre-se o risco de receber a pecha de anacrônico.
O que estamos perdendo ao transformar uma arte que se valia do símbolo, da ironia, das camadas de leitura, da transversalidade, em uma arte de discurso direto (o trocadilho que faço com a principal característica do gênero dramático é proposital)? O teatro sempre exigiu do espectador uma prontidão maior do que a do dia-a-dia, e todo frequentador sabia que o encontro teatral desafiaria sua percepção ao construir um universo repleto de metáforas, ironias, escamoteações, acidezes, quiproquós – uso uma palavra como essa e ainda não quero pagar de arcaico. Ao tornarmo-nos replicadores de uma realidade nua e crua não estaremos reduzindo o poder transformador social do teatro? É necessário perder a ternura? O mundo não acaba ficando enfadonho sem poesia?
Toda onda deve servir de alerta, principalmente para nós, artistas de teatro, que temos como única arma o emparelhamento e espelhamento – distorcido ou real – da vida. Penso que quanto maior a crueza contemporânea, maior devia ser a nossa exigência em nos desafiarmos na construção de um discurso menos óbvio, pois, o que é dito com destreza perdura, e o que é dito com simplismo se dilui com a mesma potência com que se projetou. Não me canso de acreditar que ainda há lugar para um dizer desafiador, carregado de significados, provocativo, incendiado pelo poder de afrontamento e confronto que ele possui, pois sabemos que o discurso robustecido já dobrou reis, generais e presidentes.
Falta poesia. Tudo está muito frio, cru, direto, seco, óbvio, concreto, real. Não deixemos que o teatro perca seu quê de lúdico, lírico, lúcido. Acreditemos que é possível contestar, provocar, refletir, indagar, renegar com a faca nos dentes, porém, montados em um unicórnio azul. Todas as atrocidades do mundo não bastam para acabar com uma única poesia. Todos os palavrões do mundo não têm o poder de uma única metáfora. Todas as leis do universo se esvaem perante uma simples ironia. Toda certeza se curva diante da primeira pergunta.
A Pequena Companhia de Teatro segue fiel a esse compromisso. Ao trabalharmos na adaptação do conto “A outra morte”, de Borges, sabemos que nossa intenção é provocar uma reflexão além do pequeno horizonte, e também sabemos o preço que pagamos nos últimos dez anos por esse exercício. Claro que não estamos isentos, e todo início de processo nos apresenta uma série de caminhos engajados, antenados, contemporâneos, para, durante a depuração do todo, se chegar ao que realmente nos interessa. Nem sempre é o que interessa ao novo. Nem sempre é o que interessa ao mercado. Nem sempre é o que interessa à espetacularização. Mas, sempre acreditamos que seja o que interessa ao espectador, único motor dessa máquina chamada teatro.
Os mais severos poderão argumentar que advogo em causa própria. Nesse caso, para salvaguardar meus argumentos, volto-me para o amigo espectador que motivou esta postagem: há quem ache que falta poesia no mundo contemporâneo. Tratando-se da Pequena Companhia de Teatro, não há o que temer, pois, não pode faltar poesia em uma companhia cujo endereço seja: Rua do Giz.