domingo, 8 de outubro de 2017

Por que escrever um texto de teatro?


Amanhã embarco para Teresina, finalizar minha participação no projeto SESC Dramaturgias, que me possibilitou exercitar um diálogo profícuo sobre o texto teatral e seus desenhos. Curiosamente, em 2017, me dedico à feitura do texto da nova montagem da Pequena Companhia de Teatro, que parte de um conto de Jorge Luis Borges intitulado A outra morte. Como minha escrita acontece concomitantemente ao atravessamento geográfico que o SESC me propôs, é natural que a nova dramaturgia venha contaminada de inúmeras problematizações que se agruparam no decorrer da vivência dialética provocada pela minha passagem por Caxias/MA, Vitória/ES, Maceió/AL e Teresina/PI.

O que é ser dramaturgo na contemporaneidade? O que compreende efetivamente essa função, quando descartamos as plurais dramaturgias atuais e nos concentramos no autor de textos teatrais – aquele maldito, anacrônico e solitário cidadão que senta em uma cadeira, diante de uma mesa, para escrever o que habita o palco, mesmo sem a certeza de que esse palco seja habitado por aquilo que ele escreve?

A minha particular condição me é favorável, pois, normalmente, o que escrevo vem sendo levado à cena por nosso grupo, e só escrevo pela necessidade de compor um dizer para esse fim; mas, como fica a vida do dramaturgo autônomo, aquele ser que não faz parte de um coletivo; aquele indivíduo que imagina poder construir um discurso com potência mínima que justifique a sua feitura e a travessia para a tridimensionalidade, independentemente de ter perspectivas de que isso aconteça?

O tema é delicado. Nas quatro cidades onde discutimos o assunto, durante meu perambular sesquiano, foi unânime a constatação da significativa diminuição do exercício da escrita para teatro; a redução de escritores que se dispõem a enfrentar o gênero dramático; a ausência de novos textos para possíveis montagens; a escassa produção literária do gênero. O que sim fica claro é o deslocamento do “modus operandi” dessa função, sua integração a um conceito maior de teatralidade, e suas flutuações de construção e estilo, com suas respectivas idiossincrasias; mas não é esse o foco desta postagem, e sim, a produção literária do gênero.

A quem serve, efetivamente, o texto de teatro isolado, escrito no gabinete, descolado do atravessamento cênico provocado por um grupo de teatro ou coletivo de artistas que o horizontalize? Será que ainda existe espaço para? Quais motivações ainda perduram para que um escritor pense em escrever para teatro? Sabemos que a finalidade de um texto teatral é o palco, e, naturalmente, o escritor desse gênero só encontrará sentido na sua produção se esta atingir esse fim. Então, que mecanismos a contemporaneidade oferece para que essa produção ainda faça sentido?

Como sempre consigo ser mais patético do que você imagina, vou me tomar como exemplo: um sujeito com parca produção dramatúrgica, que não tem isso como ofício, que não se alinha com a prática como mero exercício, e que nunca pensou em encenar os próprios textos – ressalvo que apesar da autoria das duas últimas dramaturgias da Pequena Companhia de Teatro, estas partiram de obras literárias já existentes, e coube a mim construir um dizer que, mesmo autônomo, se origina em outro suporte. Desde 2009 não escrevo um texto teatral que não esteja relacionado com algum tipo de encenação eminente, parceria pertinente, construção proeminente, ou pragmática contratação. Literariamente tenho até me dedicado a um romance em detrimento ao desejo de escrever para teatro (a perversidade do seu sorriso ao ler essa sentença escancara a sua sordidez, e posso até ouvir a sua sutil exclamação ao constatar minha pretensão: Você?!). O que motivou o arrefecimento da minha produção na última década, se em parte da década anterior produzi em média um texto por ano? (Como prometi, o tosco exemplo se ancora no patético proponente.)

Você deve ter percebido que hoje me dedico quase que exclusivamente a arguir, e penso que seja um sintoma do que está assentado. A contemporaneidade conseguiu esvaziar as motivações que justifiquem a dita dramaturgia convencional? Há redução de oferta, ou Caxias, Vitória, Maceió e Teresina são exceções que confirmam uma produção de textos teatrais prolífera, acentuada e relevante? Será sempre São Paulo o exemplo que vem à sua cabeça para fazer a réplica? Os grupos de teatro conseguirão oxigenar se alimentando apenas de narrativas próprias? A desnecessidade da escrita dramatúrgica pode apequenar a busca de conhecimento técnico e, com isso, reduzir a qualidade da produção? Ainda é possível qualificar um texto se está desconectado de um organismo teatral embrionário? O texto teatral descolado de uma montagem que o provoque ainda é necessário? É o crepúsculo do dramaturgo no seu sentido etimológico?

Claro que o cano das questões, com as críticas que se aderem, apontam diretamente para a minha cabeça, autor que estou de um texto teatral, transposto de um conto, construído dialogicamente, para ser montado pelo grupo de teatro do qual faço parte, e que há tempos não escreve sob outra condição. Logo, a provocação que lhe faço não é gratuita. Nunca foi. Pois, você, há anos, mesmo sem saber, vem servindo de cobaia, consultora, confidente, juiz, coautor, mártir, e espero que sua paciência e generosidade nos mantenha assim.  Portanto, me responda, ou me ajude a perguntar.

domingo, 24 de setembro de 2017

Teatro de grupo: o grito que não se cala


Sorrateiramente, a atual conjuntura político-cultural brasileira, que atende pelo nome de desmonte, ataca o teatro de grupo do país no seu ponto mais sensível: a montagem de novos espetáculos. Nos últimos tempos, acompanhamos o minguar de toda e qualquer iniciativa do Ministério de Cultura no que se refere a projetos de apoio a montagens inéditas, e a consolidação dessa realidade não é fortuita.

Se a ideia é desconstruir a teia de pensamento reivindicatório que o teatro de grupo representa – com sua profunda capilarização por todo o país –, qual a melhor forma de descoser essa potente rede de contestação? Atacando a produção inédita.

Perceba que projetos de circulação, apesar de escassos, ainda perduram nas esferas públicas e privadas, contudo, todo e qualquer programa que incentivava novas montagens desapareceu como num passe de mágica. Com isso, enquanto circula-se pelo país com o repertório existente, vai se perdendo o fôlego que o novo espetáculo dá para a continuidade da trajetória dos coletivos do país; ou seja, um desmonte sorrateiro, perspicaz, ladino, criminoso. Quando grupos menos estruturados, ou com menor poder de articulação, forem pleitear os poucos projetos de circulação que ainda existirem, perceberão que não conseguiram viabilizar um novo espetáculo para circular, fazendo minguar o volume de novas montagens no país. Por consequência, ao constatar o encolhimento da produção de novos espetáculos, o próprio projeto de circulação remanescente passa a não fazer sentido, justificando-se a extinção, e consolidando o desmonte da rede de grupos. Nem montagem nem circulação; cala-se o grito.

Agora, o que os detentores do poder já deveriam ter entendido é que o couro do teatro de grupo do país é feito de uma textura indefectível e indecifrável; ele não rasga, não tora, não pui, não cede; está além da vaidade individual, além do mercado, além das prioridades pessoais do artista; ele resiste porque seu objetivo sempre foi a consolidação de uma sociedade mais justa, igualitária, humana. É o que o teatro de grupo busca com sua inacabável resistência, embrenhada nos mais recônditos recantos do país.

Portanto, não adianta puxar, esticar, pressionar, desmontar, pois, a nova montagem é a principal arma de contestação de uma companhia de teatro, e para manter esse instrumento vivo, os coletivos sempre reinventarão mecanismos outros que os postos no seu tempo, colaborativos, autofinanciados, agregativos, comunitários, pactuais; garantindo o grito que um novo espetáculo dá, quando a cortina se abre pela primeira vez.

Claro que grupos ficarão pelo caminho, outros se dissolverão por acreditar na oratória do mercado, alguns tropicarão entre sonho e realidade, diversos cederão aos apelos do consumo; mas a grande maioria dos grupos de teatro deste interminável Brasil resistirão, como sempre, por entender que a sua responsabilidade transcende o desejo individual. Ela evoca o bem comum, único objetivo que faz com que os artistas mais diversos se congreguem nessa difícil e desafiadora micro-sociedade-igualitária chamada grupo de teatro.

 

domingo, 10 de setembro de 2017

Besta é tu


Amanhã viajo para Teresina, facilitar uma oficina de escrita dramatúrgica pelo projeto SESC Dramaturgias, última cidade que visitarei este ano provocando dramaturgos, após ter passado por Caxias/MA, Vitória/ES e Maceió/AL, pelo mesmo projeto. Antes, já estive em Teresina para participar do NORTEA/Encontro de Pesquisadores do Nordeste, dentro do FestLuso; antes, pelo SESC Amazônia das Artes, com Velhos caem do céu como canivetes; antes, com Pai & Filho, pelo Myriam Muniz de Teatro; antes, para ver a estreia de “Quando as máquinas param”, do Harém; antes, com Deus Danado, participando de outra edição do FestLuso; antes, com “Ramandá e Rudá”, no Theatro 4 de Setembro; e antes, e antes, e antes de antes. Uma intrínseca relação com a cidade, construída através do teatro.

O teatro tem isso de admirável. Nos faz erguer pontes espontâneas onde nenhum outro instrumento de engenharia consegue erigir. Somos levados pela força do seu desacato, e vamos rompendo barreiras, ramificando sonhos, reconhecendo identidades, revendo amigos; porém, a principal virtude do seu vigor contraventor é nos fazer confrontar a estática, desafiar a inércia, combater a letargia, sempre na expectativa de um novo ou surpreendente porto – porque o novo pode vir da surpresa de nos levar novamente a um lugar querido.

Agora, pelo poder da palavra escrita, meu encontro com pessoas que desejam dialogar sobre formas, metodologias e ferramentas dramatológicas; sempre na torcida de construir novas pontes, fazer novos enlaces, tecer novas teias; pois, a mais potente prova da natureza profícua do teatro é que provavelmente não encontre nenhum amigo ou parceiro antigo participando da atividade. Claro que abraçarei todos nos momentos de folga, mas o teatro não só promove reencontros, como auspicia novos encontros, com pessoas que não se conhecem, mas se reúnem em torno de um objetivo comum, neste caso, escrever para teatro.

Se você tiver curiosidade, já versei muito sobre minha experiência nesta empreitada dramatúrgica, basta clicar aqui para aprofundar a leitura; mas um ponto que pouco abordei nas postagens anteriores diz respeito a esse frescor presente em cada encontro; essa curiosa química que faz com que diferentes se juntem para tratar de algo que os atrai. Logo, o teatro tem um poder de socialização incomum, promovido pelo tête-à-tête, pelo corpo-a-corpo, pelo enredamento de seres díspares em torno de desejos comuns.

Não fosse o teatro eu seria um anacoreta. O meu leque de relações sociais se resumiria a um entorno tão restrito que não sei se poderia ser enquadrado como um estado de sociabilidade. A reserva promovida pelo meu fastio em lidar com pessoas teria me transformado em um homem das cavernas – homem que minha querida amiga Tony Silva costuma contar que eu era quando nos conhecemos. O teatro socializando a besta, ou o besta. De besta, mesmo; metido, antipático, presunçoso, pernóstico, arrogante.

Ah, o teatro! Somente nesta ação, a oficina Do narrativo ao dramático: a transposição de gêneros como instrumento de confecção de dramaturgias, promovida pelo SESC, conheci mais de cinquenta pessoas; e dessas tantas com as quais mantive um intenso diálogo e frutuoso aprendizado, algumas reverberam até hoje; não mais no campo de um grupo de pessoas que participaram de uma atividade formativa, mas de companheiros de dúvidas, parceiros de conversas, colegas de ruína, consortes para a vida.

É o teatro aproximando as pessoas e nos lembrando que precisamos do contato presencial entre as gentes para que o próprio teatro sobreviva. Teresina, aqui vou eu!

domingo, 27 de agosto de 2017

Se no teatro servissem mocotó, meu mundo estaria completo


Teatro é como mocotó: se você gosta, você sabe onde encontrar. Não precisa de propaganda, endereço, dia, agenda, clima; se gosta, acha. Toda vez que ouço as frases: “não fiquei sabendo”, “não achei o endereço”, “faltou divulgação”, lembro de mocotó. E se você é especialista, não só acha, como conhece todos os lugares que servem a iguaria, e sabe dizer sem pestanejar qual é o melhor mocotó da cidade. É uma questão de gosto, conhecimento e hábito. Acontece igual com o teatro.

O problema do teatro não é divulgação, é hábito. A forma que a sociedade desenvolveu para camuflar a fissura na sua formação cultural atende pelo nome de divulgação – ou outras tantas desculpas esfarrapadas que se ouvem quando há a necessidade de se mostrar antenado e esconder a falta de hábito de ir ao teatro. Hábito, tal qual o hábito de ler, ir ao estádio, fazer exercícios; são hábitos culturais que prescindem de desculpas mercadológicas, marketológicas, comercialógicas, economicológicas. Você tem ou não tem. Em toda a minha vida acho que nunca vi uma propaganda de mocotó... talvez uma ou duas.

O que esse diagnóstico revela é que são elas. Qual a possibilidade de um cidadão ter o hábito de ir ao teatro se durante toda a sua formação não soube o que é, nunca frequentou, e tampouco acompanhou qualquer gesto dos pais na menção dessa prática? Nenhuma. Tiro por mim: é muito provável que eu tenha assistido a minha primeira peça de teatro já adulto – a virtude que o envelhecimento traz são os balanceios da memória, os disparates das lembranças e cronologias, facilitando a minha escrita ao construir a ficção que preciso no momento, transformando-a na mais pura verdade sem a necessidade despudorada de ter que inventar a história, pois imagino estar tirando-a do mais profundo recanto da minha lembrança.

Com uma realidade social como a nossa, é muito pouco provável que ações de formação de plateia surtam efeito a curto ou médio prazo. Gratuidade, divulgação massiva, estratégias de marketing, são ações que favorecem a fruição do espetáculo que é objeto da campanha, do projeto, da ação, mas não necessariamente estarão formando um espectador de teatro. Espectador de teatro não se forma, se torna, a partir da formação “de mundo” que recebeu, do entendimento concreto do sentido de cidadania; e não através de ações concentradas na linguagem, como as necessárias aulas de teatro nas escolas e demais instrumentos que se tem visto por aí para tentar melhorar a relação do cidadão com o teatro. É muito mais do que isso. É entender que a fruição do teatro não é firula, favorece o cidadão na compreensão da sua origem, no entendimento da sua identidade, no assentamento da sua brasilidade.

É aí que entra a famigerada função do estado. Grande parte da formação do cidadão fica a cargo da qualidade das políticas públicas, e nesse caso, a multiplicidade de exemplos mundiais não nos deixa mentir. O hábito de ir ao teatro é um exemplo de civilidade, pois os códigos de linguagem que ali são operados demonstram a qualidade na formação do cidadão que frequenta, não sendo possível atribuir essa fissura no hábito somente à educação familiar. É o estado que se omite e falha na construção de cidadania. Por isso sempre nos surpreendemos com países onde o povo tem o hábito de ir ao teatro, e ficamos maravilhados com a sua civilidade. Essas comunidades certamente tiveram acesso a políticas públicas culturais de qualidade por séculos seguidos. Você não vê, mas o estado está lá, responsável pela parte que lhe compete na formação do cidadão. Não é da noite para o dia.

E de que maneira o cidadão que não faz teatro pode contribuir para a formação desse hábito? Tentando entender a sua falta de hábito, penso eu. Tentando entender que preguiça é essa que assola seu corpo no momento de se levantar do sofá. Não inventando desculpas esfarrapadas por não ter assistido a um espetáculo que ficou semanas seguidas em cartaz. Escrevendo na linha do tempo das suas redes sociais o quão significativa foi a sua experiência ao prestigiar o espetáculo da vez. Arrastando junto para a experiência o letárgico amigo que não larga o Game of Thrones.  Conhecendo os teatros da cidade para não ficar comentando “onde é?” na postagem que estampa o endereço, a localização e ainda traz um mapinha desenhado. Chegando pontualmente, para auxiliar a assimilar que ver teatro é diferente que ver televisão ou cinema. Enfim, se você quer ajudar para que o hábito de ir ao teatro no Brasil se torne um dia uma realidade, você pode ajudar de muitas formas, mas a principal é assistindo, e tornando esse seu exercício um hábito.

É possível. Em sete anos adquiri o hábito de escrever para você semanalmente através desse exercício. Claro que tudo o que escrevo, e principalmente o que este texto concentra, é permeado de superficialidades, simplismos e chacotas, mas não podia ser diferente. Se já não existe o hábito de ver teatro, que dirá de escrever sobre? Faço a minha parte, expondo periodicamente minhas falências como escritor, na esperança de que você se torne um espectador.

Hábito. Escrever, ir à praia, soltar pipa, dormir de bruços, tomar chimarrão, ir ao teatro. É tudo uma questão de hábito. Agora, se a peça de teatro coincidir com a minha vontade de comer mocotó, vá ao teatro, mas não me chame... chegue logo sexta-feira! Não vejo a hora de comer um belo prato de mocotó!

P.S. – Zerei a vida. As fotos são do mocotó que comemos ontem no encerramento da temporada do espetáculo “Atenas: mutucas, boi e Body”. Para minha surpresa, pois havia acabado de escrever a postagem quando o Lauande mencionou o cardápio.

domingo, 13 de agosto de 2017

Como nossos pais


Não somos os mesmos, nem vivemos como os nossos pais. Culpa do teatro. Se existe algo neste quase meio século de vida que me faz sentir orgulho é isso. Ressalvas à vida que meus pais levaram? Não, apenas a viva constatação de ter traçado o meu caminho, e por consequência, vivido a trama que o teatro e seus quiproquós prepararam para mim. Uma vida pautada pelo abrir e fechar de cortinas, mesmo quando as cortinas estão ausentes, e o balanço do tempo é dado pela espera da próxima apresentação.

Essa opção não trouxe uma vida mais amena, nem farta, nem segura, nem tranquila; trouxe a vida da incerteza, da provocação permanente, do chacoalho constante, do estado de alerta, da destituição da zona de conforto, do descompasso entre realidade e ficção; aparelhos para a surdez humana, que favorecem a audição das marcas deixadas pelas tiranias que massacram o homem, e que meus pais não conseguiram ouvir, pois eram aturdidos pelo sistema.

Nossos ídolos tampouco são os mesmos. Meu pai adora dinheiro. Pelo teatro abandonei o caminho do capital, e carreguei os senões de boa-vida, idealista, ingênuo, irresponsável. O teatro fez com que o dinheiro se tornasse para mim o que penso que é: papel que os adultos usam para brincar de troca-troca em um jogo onde se troca papel por coisas, e ganha aquele que tiver mais coisas ou mais papel, sem questionar se a coisa é mais valiosa que o papel; o que se sabe é que nesse jogo, um papel de dinheiro sempre valerá mais do que o papel que carrega um poema.

A opção do teatro me distanciou do destino traçado pela sociedade – um destino que seria lindo, contudo, não necessariamente meu. Outro caminho, para além das coisas que se aprendem nos livros. Não fui engenheiro civil, nem nada do que é necessário ser para ser alguém na vida. Fui o que meus passos trilharam sem saber o que trilhavam, flutuando no abismo da existência, guiado pelo ideal da transformação, do novo, da vida na terceira margem, da esperança de um mundo melhor para todos, mesmo sabendo que não tinha capacidade nem para organizar meu próprio mundo.

A essa altura você deve estar me achando um sonhador, e sabemos que viver é melhor que sonhar, sim. Mas seria possível viver e sonhar ao mesmo tempo? É essa a opção do artista. Enquanto a vida vai se consolidando como injusta posso sonhá-la justa, motor para que meus atos tentem transformá-la em justiça. É uma equação tola, mas todo artista é um tolo. Tolo é aquele que resolve viver além do posto, e não transigir com as sedutoras artimanhas do estabelecido. O que está posto, posto está. O que há além do posto, diz muito mais da vida do que a gasolina que gastamos para chegar até lá.

Não quero lhe falar do meu grande amor, porém, não fosse o teatro, não teria conhecido a Katia, minha esposa, minha produtora, minha companheira de grupo; a parceira improvável que merecia o engenheiro, o fazendeiro rico, o empresário de sucesso. Improvável porque é pouco provável suportar um Marcelo por mais de um ano, portanto, suportar um Marcelo artista por mais de vinte é tão improvável quanto ganhar na Mega-Sena. Logo, a opção que fiz pela vida que tenho conseguiu a façanha de me fazer ganhar na Mega-Sena.

A intenção desta postagem não é lhe contar como eu vivi, apenas pontuar o quanto as nossas opções na vida dizem de nós mesmos. O quanto estamos carregados de ancestralidade e o quanto podemos alterar do nosso futuro. O quanto somos ditados por forças sociais e o quão cordeirinhos inocentes somos ao acharmo-nos artistas que podemos mudar o mundo. A intenção é perceber que por termos feito tudo o que fizemos, podemos ser nós mesmos, e não necessariamente viver como os nossos pais.

Mesmo no que se refere ao sentido de descendência, tudo pode ser diferente. Eu nunca quis ter filhos biológicos, nem fiz pela Morgana – essa moça linda que enfeita a foto acima – trinta por cento do que um pai faria por uma filha, e mesmo assim, ela me considera como um pai. Em termos de paternidade, não posso me queixar, o teatro deu um nó na minha existência e tive a filha que não planejei e o amor que não mereço.

Tudo pelo avesso. Tudo atravessado. Uma trilha na contramão. Uma íngreme, sinuosa, argilosa trilha construída além dos preceitos sociais, sistêmicos, econômicos; e sou tolo ao ponto de achar que isso é verdade. E é o descompromisso com o ridículo, o destemor da burla, a imunidade à chacota que me permite ser eu mesmo, o não planejado, o desgovernado, o idiota. Portanto, hoje, do alto da minha tolice, e atravessada a maior parte do caminho, posso afirmar, sem receio: eles não venceram, nem vencerão, jamais.

domingo, 30 de julho de 2017

Afetos como antenas de comunicação


Desde ontem aportamos em Mossoró, após concluirmos a ocupação do Centro Cultural BNB de Fortaleza, durante as últimas duas semanas. A partir de agora cumpriremos uma jornada afetiva, que preambulei na postagem Antenas para os afetos e que agora desenvolvo. Estamos com a oficina sobre o  Quadro de Antagônicos, ontem e hoje; apresentaremos Velhos caem do céu como canivetes, na terça, 19h30, no Teatro Municipal Dix-Huit Rosado, e na quinta, 20h, nos apresentaremos em Natal, no barracão dos Clowns.
Como venho ressaltando em quase todas as últimas postagens deste blog, o futuro do teatro de grupo no país está fadado a retroceder trinta anos, capitaneado por um desmonte estrutural e um desmanche sistemático de tudo aquilo que o Ministério da Cultura se tornou na última década; obrigando os grupos a desenvolver estratégias outras para garantir a sua produção artística, fundamental para a sobrevivência do pensamento autônomo brasileiro.
Uma das apostas da Pequena Companhia de Teatro para confrontar essa perversa realidades são os afetos. Explico: nossa ocupação em Fortaleza foi patrocinada pelo BNB, por consequência, o maior custo de produção já está pago, que compreende o deslocamento da equipe e cenário, e na atual conjuntura, a possibilidade desse mesmo espetáculo se apresentar em Mossoró e Natal é mínima. Como temos uma enorme relação com essas cidades, e achamos fundamental que conheçam esse trabalho, resolvemos abrir mão de um cachê mínimo por apresentação e estender nossa jornada até as duas cidades, no peito e na raça, sabendo que, por logística de espaço e número de apresentações, não teremos nenhum tipo de retorno financeiro, a não ser para pagar os custos; vamos porque queremos que essas cidades vejam o espetáculo; faremos isso por afeto.
Da mesma maneira, e principalmente, quem nos recebe aporta com uma parcela incomensurável de afeto, concentrada na Cia. A Máscara de Teatro – com o apoio da prefeitura, e diversos outros parceiros –, em Mossoró, e nos Clowns de Shakespeare, Arlindo Bezerra e Chrystian Saboya, em Natal. Ou seja, uma soma de afetos provindos dos mais recônditos labirintos das nossas amizades possibilitará que as comunidades de Mossoró e Natal assistam a um espetáculo que não chegaria a elas se dependesse de políticas públicas para a circulação do pensamento dos grupos de teatro de pesquisa pelo país – instrumento basilar para a formação de cidadania e para a materialização identitária do ser brasileiro. 

São estratégias heterodoxas, táticas de guerrilha, maluquice de artista, nada ideal, nada leves, mas necessárias para confrontar uma realidade que busca aniquilar o nosso pensamento e as nossas ações. Enquanto um pensamento comum que contemple o teatro de grupo de todo o país não emergir, vamos executando pequena ações, trilhando novos caminhos, pensando em como marcar nossa realidade com a resistência que nos identifica; e o nosso primeiro e principal instrumento para isso é o afeto.
Ver o esforço descomunal da Cia. A Máscara de Teatro para que a empreitada seja possível faz valer cada gota de suor do nosso esforço e cada centavo perdido, pois é bom que se enfatize que tanto nós quanto cada um dos nossos parceiros nesta maluca campanha estão trabalhando praticamente de graça – e uso a Máscara como exemplo de todos os outros queridos amigos que tornaram viável a nossa ida. Fazemos porque acreditamos que o rastro deixado por nossas ações fertiliza o solo árido de hoje, preparando uma colheita digna para os que virão. 

São essas lógicas excêntricas que precisam ser praticadas pelos grupos do país na busca de formatar estratégias fora da curva, que possibilitem a nossa caminhada até atravessar o tenebroso inverno que o país vive. Os longos papos com o Nelson, do Pavilhão da Magnólia – grupo querido que não mediu esforços e nos brindou com um caminhão de afetividade em Fortaleza, tornando nossa estada viva e pulsante – convergiram para esse pensamento: precisamos uns dos outros, muito além das estruturas mercadológicas que o sistema tenta impor para um setor tão efêmero e imaterial quanto o teatro. 
Afetos. Antenas para os afetos. Vale a pena carregar o peso dos cases, enlonar o reboque e dirigir por horas a fio se nos recebem os braços abertos dos nossos queridos amigos. Vale o esforço, vale o cansaço, vale o foco na desambição; vale a pena saber que estamos fazendo a nossa parte, contribuindo com um grãozinho de areia para que este país seja um pouco menos capital e um pouco mais humano.

domingo, 23 de julho de 2017

O indelével efeito da invisibilidade


Depois dos mil quilômetros de estrada, e da alegria singular com que o Grupo Pavilhão da Magnólia nos recebeu, já se passaram seis dias e chegamos à metade da nossa ocupação do Centro Cultural BNB de Fortaleza, concluindo a oficina de dramaturgia, três apresentações de Velhos caem do céu como canivetes e seus respectivos debates, a exposição do figurino que o Chico Coimbra fez para a performance Literatura Viva e o lançamento do meu livro.
Nosso projeto de ocupação dialoga diretamente com a atual conjuntura cultural brasileira, no que tange a dificuldades, desafios, superações, e a urgente necessidade de desenvolver estratégias de gestão e sustentabilidade. Prova disso foi o nosso deslocamento por via terrestre – de carro e reboque –; a assimilação progressiva da aridez do espaço de apresentação, pouco propício para espetáculos de teatro; o ajuste no orçamento, procurando realizar o maior número de atividades no menor espaço de tempo; e a extensão da jornada para outras paragens, tema da postagem de domingo que vem.
O momento é de observância, prontidão e diálogo. E é no diálogo que percebemos o escárnio com que os poderes públicos estadual e municipal tratam os grupos de teatro de pesquisa do Maranhão e de São Luís – não vou falar do poder público federal porque, além de não mais existir, venho reiterando esse desmonte constantemente nas postagens anteriores. Em diálogo com os queridos amigos do Pavilhão, fiquei estupefato com o número de instrumentos de políticas públicas estaduais e municipais que contemplam os grupos de teatro do estado: editais de ocupação de espaços, de manutenção de grupos, de pesquisa continuada; são tantos e tão variados que não conseguiria quantificar nem qualificar, pois me foi impossível reter em uma conversa a diversidade de opções e ofertas que protegem o pensamento teatral e sua difusão no estado do Ceará. O curioso é que a classe continua a reivindicar e exige uma atenção permanente, certos de que o que está posto ainda não é o suficiente para garantir uma política pública cultural de qualidade para o teatro de grupo.
Fiquei assombrado. Levando em consideração que a Pequena Companhia de Teatro, nos seus 11 anos de trajetória, nunca recebeu do governo estadual ou municipal um único aceno, seja ele por qualquer instrumento de democratização de políticas culturais que não sejam as famigeradas leis de incentivo – que bem sabemos são um equívoco, e vêm sendo questionadas em todo o país há mais de duas décadas – me fez enxergar o óbvio: o quanto estamos distantes de um mínimo de dignidade. Lembrado que falo de dentro de um grupo que já circulou por 67 cidades de 25 estados, participou dos principais projetos de circulação do país, montou 4 espetáculos, ganhou 4 prêmios Myriam Muniz de Teatro e tem sede própria viável com os mais diversos projetos de formação e difusão; o que dirá um grupo jovem que pretende se firmar no seu fazer? Por essa década passaram prefeitos e governadores de todos os tipos e a receita sempre foi a mesma, ignorar, como já falei aqui.
É lamentável. Confesso a vocês que preferia não ter tido a conversa com o pessoal do Pavilhão. Preferia continuar achando que os outros estados estão tão lascados quanto nós, no que se refere a garantir um mínimo de dignidade para um setor que é responsável por auxiliar a manter viva a dignidade humana.
Isso reforça o nosso atual e árduo caminho: aguçar a visão estratégia, refletir sobre sustentabilidade, alargar o diálogo com o país, estabelecer parcerias, reivindicar o óbvio; pois sabemos, há mais de uma década, que no que se refere a políticas públicas municipais e estaduais, estamos sós.
Claro que não poderia deixar de fazer aqui o mea-culpa: se o estado do Ceará e Fortaleza têm esse olhar para o teatro de grupo foi por uma permanente vigilância da classe artística local, por lutas reivindicatórias constantes, por um poder de enfrentamento respeitável, por uma disposição para o confronto, por uma consciência de união entre os diferentes quando necessário, por uma classe que entende que se não for na bruta, o respeito para com a arte não acontece.
Nesse sentido, pouco fiz. Sempre acreditei que se estabelecêssemos um trabalho sério, honesto, comprometido, bastaria para que o poder público percebesse que a nossa invisibilidade corrobora significativamente para a formação de cidadania, e, por consequência, para o próprio governo, mesmo que a nossa intenção seja apenas contribuir para o desenvolvimento do nosso estado. Doce ilusão. A história prova que o caminho das conquistas são o confronto e a reivindicação.
A única vantagem é que nada muda. Como nunca tivemos políticas públicas culturais, tudo continua como sempre foi, e como era quando decidi que viveria de teatro, nem que fosse na marra, quase trinta anos atrás, independentemente do político da vez. Só faço teatro porque não entendo o mundo.

domingo, 16 de julho de 2017

Acordei de bom humor após sonhos intranquilos


Hoje faço um bate-e-volta para o Rio de Janeiro, participar de um debate sobre o SESC Dramaturgias, que será transmitido amanhã, às 14h30, por videoconferência para todo o país, pois na terça, bem cedinho, pego o volante da Pequena Móvel, e rumaremos para Fortaleza cumprir com a nossa agenda de ocupação do CCBNB destrinchada nesta postagem aqui.
Como vamos bater um papo sobre a experiência em participar do projeto a partir da oficina de escrita dramatúrgica que ministrei em Caxias/MA, Vitória/ES e Maceió/AL, antecipo o meu balanço para instrumentalizar os queridos leitores que por ventura vierem a acompanhar o debate em alguma das unidades regionais do SESC para onde a videoconferência será transmitida. 
Assentarei a provocação naquilo que motivou minha proposta para o SESC e que vem sendo discutida aqui no blog: o excesso de narrativização do teatro contemporâneo. Esse assunto pontuou permanentemente o diálogo com as pessoas que participaram das oficinas, e gerou uma inquietação quanto à necessidade de discutir o fato e entender o que esse sintoma da contemporaneidade tenta nos dizer. Como penso que será necessário me debruçar em outra postagem sobre o assunto após ruminar a colheita das réplicas e tréplicas que recebi, não aprofundarei esse mote hoje; todavia, o conteúdo da problematização está escondido na palavrinha que aparece em vermelho neste parágrafo, é só clicar para abrir a Caixa de Pandora.
Debruçar-me-ei sobre quatro pontos que considero cruciais na experiência vivida, dois negativos e dois positivos. Começarei pelos negativos, para dar tempo de diluir meu azedume, fazendo com que o ledor termine a leitura com uma imagem menos ranzinza deste ranheta contumaz que tanto reclama.
O primeiro ponto negativo é que meu Henrique é sem H... Era para ser uma piada; se você não riu, é a prova patente de que você é tão ranheta quanto eu. O segundo, e aqui ressalvo abordar o tema em termos gerais, não sendo generosos com as situações que fugiram à regra, percebi uma dificuldade do SESC em conseguir adequar a clientela da oficina para o recorte mais específico sugerido pela oferta, desnivelando a possibilidade de aproveitamento por parte das pessoas atendidas pela ação; fiquei com a sensação de que pessoas outras, que respondessem mais organicamente às especificidades, pudessem ter ficado de fora não por indiferença, por desaviso.
Já os pontos positivos foram apenas confirmados, pois haviam sido levantados como suspeitas em postagens anteriores que nem vou lincar, por saber que você não se dará o trabalho de clicar. O primeiro diz respeito ao cuidado do SESC em viabilizar uma carga horária significativa, 32h – tendo em vista que uma disciplina acadêmica gira entre 40 e 60 horas, disponibilizar uma atividade formativa com essa extensão comprova o compromisso do SESC com o aprofundamento do estudo das múltiplas dramaturgias postas hoje. Não é muito comum atividades formativas receberem essa atenção quanto ao tempo necessário para que uma facilitação seja realizada largamente, possibilitando ao participante um debruçar-se efetivo, contrapondo-se a certa superficialidade que permeia projetos que incluem formação, inclusive nossos.
A segunda, e que a edição deste ano traz como novidade, é a possibilidade de a oficina ser ministrada em dois momentos, com um intervalo de tempo importante entre os dois. Esse acertado formato possibilitou o confronto entre teoria e prática. Aquilo que fora postulado no primeiro encontro, recebera um outro momento para a verificação das postulações no tête-à-tête com o postulante, arremessando oficineiros e oficinados em um delicioso jogo dialético, repleto de comprovações, antíteses, problemas, réplicas, contradições, esclarecimentos, teses, tréplicas, abraçados pelo empenho na busca da síntese, tão esquecida nas tratativas dialéticas contemporâneas, principalmente virtuais.
No trinchinchim, minha experiência aponta para algo que vem sendo pontuado por onde passo, nas quase setenta cidades que visitei nos últimos anos com diversos projetos: o fato de o SESC ser um ocupador potente da lacuna que as políticas públicas culturais do país não conseguiram preencher, e que agora, na atual conjuntura política de desmonte e desmanche, será alargada até virar uma grande vala onde será sepultada a cultura brasileira.
São apenas umas pitadas de tempero que jogo por cima, para marinar o papo que acontecerá amanhã, e que você poderá acompanhar, se tiver disposição para dar um pulinho na unidade do SESC da cidade que você habita. Como frequentemente faço jejum, chegarei para o debate com fome, e espero que as questões levantadas por você, meu intrépido leitor fantasma, saciem este faminto prosador de inutilidades.  

domingo, 9 de julho de 2017

Antenas para os afetos


Terça-feira que vem, dia 11 de julho, às 19h, estreia o espetáculo teatral “Atenas: mutucas, boi e Body”, de Lauande Aires e Igor Nascimento, na sede da Pequena Companhia de Teatro, na Rua do Giz, 295, Praia Grande. A temporada de estreia vai de terça a sábado, e a entrada é gratuita. No elenco, Dênia Correia, Nuno Lisboa e o próprio Lauande. Serão 15 apresentações ao todo, sendo que as duas outras temporadas acontecerão de 15 a 19 e 22 a 26 de agosto. Isso é o de importante que tinha para escrever hoje. Tudo o que segue é mais uma das elucubrações irrelevantes às que submeto a querida leitora e o companheiro leitor por mera necessidade de encontrar companhia para o maior prazer da minha vida, perder tempo.
As relações da Pequena Companhia de Teatro são construídas, primordialmente, pelo afeto. A própria consolidação do nosso grupo se estabeleceu a partir dele e da amizade. Até a curadoria de ocupação da nossa sede, como já falei aqui, é orientada, inicialmente, pelo afeto.
Você pode achar que é uma maluquice, eu acho um privilégio. Um dos meus maiores temores durante a minha formação foi o de ser obrigado a ter que trabalhar com gente chata. Como sempre conheci o tamanho da minha chatice, achei oportuno me abrigar em ambientes agradáveis, onde a minha ranhetice ficasse diluída na cordialidade e leveza do todo. É o prazer que me move, e o teatro é uma fonte de prazer martirizante, onde o martírio do trabalho que faço (trabalho sempre será um martírio para qualquer ser humano que entenda o indelével prazer do ócio) encontra o prazer da lida com quem ou para quem trabalho, criando uma espécie de limbo límpido, sombra iluminada, palafita luxuosa, lodaçal de chocolate.
Com a ocupação da nossa sede pelo espetáculo Atenas não é diferente. Acompanhar o sobe e desce de escadas, bater um papo entre sacadas, ouvir as batidas dos martelos, servir no que for preciso, curiar as nuances, tomar um suquinho, descobrir que têm malucos como nós; tudo isso é abraçado por um afeto que me faz cruzar os dedos diariamente na torcida para que tudo dê certo, e na terça tenhamos a estreia de um espetáculo honesto, comprometido, transformador, pois nada pode fugir desse roteiro quando se tem um grupo tão dedicado, sério e inteligente como o que tenho visto transitar feito fantasma pelas escadarias da Pequena Companhia de Teatro nestes últimos dez dias.
Essa condição de existência privilegiada está diretamente relacionada ao entendimento da necessidade de perceber onde estão os nossos pares, para onde os caminhos convergem, onde se depositam os sonhos, onde se esconde a sutil coincidência – aquela que junta os menos prováveis e os transforma em iguais, por mais diferentes que sejam. Claro que para conseguir essa condição já engoli muito sapo, vendi diversas vezes minha alma para o diabo, aguentei muito caboco mais chato do que eu e até madruguei (!); tudo para conseguir essa minha pré-velhice tranquila, meu quase fim moroso, a lenta despedida da movimentada quietude que é a vida.
Escrevo esta glosa sobre o afeto porque Atenas é a mais longa jornada de um espetáculo externo na nossa sede, desde sua inauguração, em 2013, e não poderia estar envolvida outra pessoa que não o Lauande, um dos nossos amigos mais próximos, e responsável por comandar a trupe nesta jornada trágica que se avizinha. Como tudo o que me invade vira postagem, achei que as sensações da experiência que narrei poderiam encontrar eco no coração da leitora ou leitor, e ainda fantasio que, enquanto você lê, dá uma olhadela dissimulada para a pessoa que está ao seu lado e sorri, graciosamente, por sentir a felicidade de saber que ela é a pessoa que deveria estar nesse exato momento e lugar.

domingo, 2 de julho de 2017

Entre Pasárgada e Macondo


De 18 a 29 de julho a Pequena Companhia de Teatro ocupará o Centro Cultural Banco do Nordeste em Fortaleza/CE, com grande parte do seu repertório de atividades: 06 apresentações de Velhos caem do céu como canivetes e seus respectivos debates, 02 oficinas – O Quadro de Antagônicos como instrumento de treinamento para o ator e Do narrativo ao dramático: a transposição de gêneros como instrumento de confecção de dramaturgia –, o lançamento do livro Cinco Tempos em Cinco Textos, que reúne minha produção dramatúrgica entre 2003 e 2009, a exposição dos figurinos da performance Literatura Viva, do saudoso Chico Coimbra, e a palestra Desconstrução estética de Velhos caem do céu como canivetes, que pretende aproximar cenógrafos e iluminadores das tecnologias teatrais desenvolvidas por nós durante a última década.

O projeto Teatralidades: a Pequena Companhia de Teatro ocupa Fortaleza foi contemplado pelo edital de Seleção de Projetos Culturais BNB 2016/2018 e segue o nosso conceito de ocupação, que procura passar o maior tempo possível na cidade com grande parte das nossas atividades, para que a comunidade que nos recebe tenha uma dimensão ampla dos caminhos do nosso fazer. Por duas edições consecutivas (a de 2014/2015 contemplou a ocupação do CCBNB em Sousa/PB) a Pequena consegue sensibilizar os pareceristas com uma proposta que foge à regra do trânsito rápido, e tenta extrair uma intensidade maior da ideia de intercâmbio. As cidades de Campo Grande/MS, Primavera do Leste/MT e Goiânia/GO também foram tocadas com o conceito, através do Programa Petrobras Distribuidora de Cultura, em 2016, e muitas ramificações férteis surgiram a partir dessa interlocução mais intensa com os municípios visitados.

Quem nos receberá por lá será o Pavilhão da Magnólia, que fará nossa produção local e assessoria de imprensa, já disparando o diálogo com a cidade e suas idiossincrasias, motivo principal do nosso programa de circulação que procura conseguir o desnudamento dos prazeres e agruras do fazer teatral de cada universo. Para isso, separamos quatro dias da jornada sem atividades formais, para podermos acompanhar espetáculos locais, visitar grupos, sedes, projetos teatrais e toda sorte de atividades que nos possibilitem entender a dinâmica e a lógica da produção cênica de Fortaleza – cidade em que morei por dois anos, num tempo em que teatro ainda era um bicho de sete cabeças que eu almejava conseguir domar algum dia.

Exemplo expresso do que já falei aqui, Fortaleza é uma das capitais mais próximas de São Luís, e uma das mais distantes no que se refere ao intercâmbio de pensamento entre a Pequena e grupos de teatro do país. Estivemos por lá diversas vezes, quando da nossa circulação pelo Myriam Muniz, pelo Palco Giratório e no Festival BNB de Artes Cênicas, com Pai & Filho, mas pouco contato tivemos com a classe artística, ação fundamental para a oxigenação do pensamento, o espelhamento de práticas, o abrandamento de mazelas e a encubação de soluções para a subsistência de grupos de teatro neste trágico Brasil que hoje se apresenta. Capitais menos prováveis são aliadas contumazes na tessitura da teia de que falo no link que acabei de oferecer acima, e que você não teve a gentileza de visitar para que a contextualização seja possível.

Por quê? Por que uma capital mais próxima do que muitas outras se manteve tão distante da Pequena Companhia de Teatro? Por que Piracicaba, Campo Grande, Palmas, Belém, Cuiabá, Porto Velho, Guaramiranga, Teresina, Macapá conhecem nossos últimos dois espetáculos e Fortaleza só conhece um? A principal resposta está num problema que perpasso agora, mas que me debruçarei em uma próxima postagem: com o advento da política dos editais –  esboço de fomento cultural que contribuiu para a construção de cidadania, diferentemente do desmonte atual – deixamos de ser propositivos, e passamos a ser pautados por aqueles que determinam os eixos curatoriais dos editais em questão. Se a Pequena queria ir para Pasárgada e Macondo, não necessariamente o programa da vez queria o mesmo, e acabávamos indo apenas para Macondo. Nossa ida para Macondo, por mais sensacional que fosse, não saciava nosso desejo de ir para Pasárgada, contudo, pouco fizemos para chegar até lá, mesmo sabendo que seríamos amigos do rei.

Agora, para que o projeto de ocupação do CCBNB se tornasse viável, propusemos ir de Pequena Móvel – nome dado por Fernando Yamamoto à nossa forma de deslocamento quando vamos os quatro de carro com o reboque carregando o cenário –, dirigindo os mil quilômetros que separam São Luís de Fortaleza; pincelada de esforço que confirma o desejo de que a cidade conheça um pouco mais a fundo nossa produção. Então, o que nos impediu de arribar em Fortaleza em outro momento? A resposta na ponta da língua é o fator econômico, desculpa que nos acomodou em um calendário sugerido por nós, mas definido por outros. Desculpas, pois, a Pequena Móvel depende de uns litros de combustível para ser independente, e tenho absoluta certeza que não faltaria um colchão limpo e um espaço vazio esperando por nós em qualquer destino desejado.

As reflexões que aqui faço são os passos que dou rumo ao entendimento de outras diversas ações de sustentabilidade que precisamos desenvolver para que a nossa realidade continue sendo a de um grupo de teatro nordestino que apresenta um fazer teatral honesto, independente e constante. Uma dessas ações será o tema da postagem que escreverei no final deste mês, após confirmadas as tratativas. Só não digo do que se trata para não ter que usar a palavra “spoiler”.
 

domingo, 11 de junho de 2017

Teatro de grupo, IDH e um país desgovernado


Semana passada encerrei minha participação no SESC Dramaturgias, nas cidades de Caxias/MA, Vitória/ES e Maceió/AL, com uma oficina de escrita dramatúrgica, sobre a qual versei muito por aqui. Foram dois meses, entre idas e vindas, e cento e duas horas de atividade, onde facilitei a forma de adaptação aplicada pela Pequena Companhia de Teatro nos seus últimos dois espetáculos, e no próximo, que está em gestação.
Coincidentemente o projeto me levou para as Alagoas, e não menos coincidiu a conversa com um amigo sobre os índices de desenvolvimento humano do país. Dando uma pesquisada virtual, qual foi a nossa surpresa – leia um texto sobre ironia aqui – ao constatarmos que Maranhão, Piauí, Pará e Alagoas encabeçam o ranque dos piores IDHs brasileiros. A conversa nada teria de singular, não fosse o momento de reflexão em que me encontro e a dificuldade do país de se encontrar.
Como um grupo de teatro maranhense – que decidiu atuar em um país que sinaliza com o desmanche da cultura como estratégia de progresso – sobreviverá nos próximos anos estando na periferia do desenvolvimento humano, na vanguarda do atraso, no fim da fila na lembrança dos eixos hegemônicos que controlam a cultura do país?
Esse é o desafio atual da Pequena Companhia de Teatro, que atende pelo apodo de visão estratégica – a ser desenvolvida na busca de opções além do óbvio, fora da curva; alternativas que atravessem os mecanismos da nossa expertise e desemboquem em soluções menos ortodoxas.
Até aqui, a sensação é a de que são apenas palavras bonitas. Um indivíduo, um corpo, uma célula, não sobrevive sem o seu entorno, por mais visão estratégica que tente desenvolver. Qualquer lógica individual sempre será moldada, afetada ou massacrada pelo coletivo, pelo país que habita, pelo sistema que a governa, pela esfera onde circula. É impossível ser criativo se o modelo de gestão entende a cultura como mercado enquanto o criador entende como instrumento de transformação sócio-político-cultural a longo prazo.
Uma diretriz nossa, que norteou a trajetória da Pequena desde sua fundação, foi a de entender o grupo inserido na produção do país, extrapolando as fronteiras da província, pois a interlocução apenas com o nosso estado não seria suficiente para garantir a nossa sustentabilidade criativa, financeira e dialógica. É essa certeza que acentua o nosso desafio quando entendemos que estamos inseridos em um estado de origem pouco acessado como referência de produção teatral, reflexo naturalmente do contexto social que indica o índice que mencionei acima.
Essa triste realidade é comprovada pela nossa própria trajetória, quando fomos o primeiro grupo maranhense a participar de diversos projetos, chamamentos, festivais e editais – inclusive agora, quando finalizo o SESC Dramaturgias como o primeiro maranhense a participar do projeto como facilitador –, fato que devia nos orgulhar, mas que na verdade aponta para a dificuldade de penetração da produção teatral e do pensamento artístico maranhense na cena brasileira.
Exponho essa condição por saber que há inúmeros grupos de teatro pelo país tentando resolver a mesma equação e achando ser o único que está pensando nisso. O que talvez difira da nossa condição seja a posição que ocupa o estado desses grupos no ranque do IDH. Quando o índice de desenvolvimento humano é tão precário, a possibilidade de um olhar mais atento, mais inteligente, mais delicado para com as artes é quase inexistente, pois, as prioridades se acavalam galopantes diante da nossa miséria. Por consequência, conseguir os holofotes do Brasil além de degolas, lagoas, capitanias hereditárias e bumba-meu-boi é uma tarefa hercúlea.
O problemático é saber que dependemos disso. A Pequena Companhia de Teatro não sobrevive sem o Brasil, e o Brasil de hoje está encarregado de exterminar a Pequena Companhia de Teatro e todo e qualquer grupo de teatro do país. O que dá maior ou menor resistência a esses grupos é o índice de desenvolvimento humano do estado de origem. As dificuldades são as mesmas, mas um coletivo que opera em um estado mais desenvolvido e, por consequência, com maior poder hegemônico, naturalmente estará mais próximo do foco daquele holofote, sobrando para nós a penumbra, e a esperança de que os responsáveis pela direção do olhar o ajustem para a sombra, como aconteceu na última década.
Nada trago de novo que não haja vivido nestes quase trinta anos de fazer teatral. A diferença é que durante essas três décadas transitei pela impossibilidade de viver de teatro, pela esperança de que fosse possível, até desembarca na realidade de viver do ofício sem a necessidade de forjar outro ofício complementar que legitimasse o primeiro. Agora, enquanto espremo meu juízo na busca de alternativas estratégias, fórmulas escalafobéticas, mirabolâncias engenhóticas, suspeito ter caído no conto do vigário. Os onze anos de trajetória ininterrupta da Pequena Companhia de Teatro se contrapõem a essa suspeita.

domingo, 21 de maio de 2017

Uma pequena volta por Campo Grande


Na próxima terça-feira a Pequena Companhia de Teatro retorna a Campo Grande, cidade ocupada com nossas atividades artísticas em 2016, através do Programa Petrobras Distribuidora de Cultura. Fomos convidados para participar do Projeto Boca de Cena – Mostra Sul-Mato-Grossense de Teatro e Circo e passaremos toda a semana em terras campo-grandenses. Ministraremos a oficina O Quadro de Antagônicos como instrumento de treinamento para o ator, participarei de uma mesa redonda sobre resistência teatral em tempos de crise e encerraremos nossa participação com uma apresentação do espetáculo Velhos caem do céu como canivetes.
Nosso trabalho no decorrer da última década se pautou no compromisso com o fortalecimento do teatro de grupo, na seriedade com que encaramos nossos projetos artísticos, e na honestidade que apresentaram nossos resultados. O curioso do convite é que saímos de Campo Grande com a certeza de que tínhamos feito um trabalho significativo e contribuído, de alguma maneira, para o fortalecimento da cena teatral local. Foi uma sensação coletiva, pois, ao deixar a cidade, os quatro sentiram que se efetivara a troca; e tudo o que o teatro opera, naquele momento, fazia muito sentido para nós. Mas, como toda certeza é uma dúvida em forma de esperança, o chamado da Fundação de Cultura do Mato Grosso do Sul serviu para confirmar o efeito da nossa passagem, e para propiciar um novo momento para a troca de experiências.
Dos encontros improváveis que a arte proporciona, Campo Grande receberá, em menos de um ano, os dois espetáculos do nosso repertório, as duas oficinas basilares da nossa construção cênica, e pílulas das reflexões que o blog da Pequena Companhia de Teatro procura provocar (assim como a oficina que facilitarei em Natal, a mesa redonda citada acima é outra atividade provocada pelo teimoso exercício de ancorar o pensamento aqui), criando o ambiente oportuno para que a comunidade local estabeleça um contato direto com a formatação do nosso grupo, os mecanismos de encenação, nosso posicionamento político, os meios de financiamento, nossas opções estéticas, os métodos para suportar a fome, os caminhos de treinamento para o ator etc. Apesar do permanente e profícuo atravessamento geográfico que os grupos de teatro brasileiros efetivam anualmente, não é comum uma cidade ter contato pleno com todo o fazer teatral de um coletivo, por isso defendemos e aplicamos, quando possível, o conceito de ocupação alargada, já realizado em Sousa/PB, Goiânia/GO, Primavera do Leste/MT, Campo Grande/MS e, em julho próximo, Fortaleza/CE, quando ocuparemos o CCBNB durante duas semanas com a maioria das nossas atividades artísticas.
Claro que a atual conjuntura político-brasileira, e o conceito derivado dessa para as políticas público-culturais – que atende pela alcunha de desmonte – compromete, significativamente, nosso projeto artístico, pois, sem um olhar sensível do poder público, qualquer iniciativa passa a ser regida pelo canibalismo do mercado e nessa seara somo meros cordeirinhos. Portanto, inciativas como a da prefeitura de Campo Grande, focada em propiciar a fruição teatral para sua comunidade, também contribui para a resistência do teatro de grupo, ao promover uma mostra teatral, quando a nova ordem sugere que artistas devem pensar em arrumar trabalho – leia o contraponto que fiz aqui a esse chiste de mau gosto.
A atenta leitora, o cuidadoso leitor, já devem ter percebido o quanto a palavra resistência tem se repetido neste nosso muro das revoluções. Essa reiteração ocorre porque – mesmo que você não saiba, e que nenhum meio de comunicação divulgue – o teatro de grupo do país, e a arte de um modo geral, vem sofrendo uma profunda desconstrução estrutural, surda, capciosa, corrosiva, e a principal arma de que dispomos para o enfrentamento é a resistência. Resistindo vamos, teatralizando, de volta a Campo Grande.

domingo, 14 de maio de 2017

Caneta e papel: a resistência da escrita

Na última quinta-feira encerramos o 1º encontro do SESC Dramaturgias, em Maceió/AL, depois de ter passado por Caxias/MA e Vitória/ES. Foram 16h de atividade em cada uma das cidades, instrumentalizando o participante para a produção de escrita dramatúrgica, a partir da profunda análise de gêneros literários, do mergulho nas características do gênero dramático, da democratização do processo de transposição de gêneros da Pequena Companhia de Teatro, e da problematização sobre a preponderância da narrativização no teatro contemporâneo.
Coincidentemente, já havia passado com espetáculos e oficinas nas três cidades que visitei; isso me proporcionou o confronto das realidades, produções e problemas, em um intervalo aproximado de cinco anos, com exceção de Caxias, que visitei com maior frequência. É difícil não observar que, pese aos esforços pontuais de iniciativas que resistem, os problemas perduram, e meia década depois, assim como a realidade ludovicense, não posso afirmar que houve avanços significativos entre o que havia e o que hoje está posto. Nas discussões que perpassaram todas as horas de atividade, foram recorrentes as queixas quanto à minguada produção teatral, a desestruturação de políticas públicas culturais, a dificuldade de conseguir financiamento artístico, a carência de oferta de atividades formativas, e a recorrência de se enxergar o SESC como um ator importante mas não suficiente para sanar as demandas emergenciais de uma classe teatral que tende a definhar ainda mais com a nova ordem estabelecida nacionalmente no que se refere a arte: o desmonte.
Ainda assim, foi gratificante perceber que os que ali estavam para dialogar, cerca de cinquenta dedicados interlocutores, conservavam a força oriunda da resistência cultural – condição presente no DNA de qualquer artista que seja forjado em um país que desconsidera, permanentemente, o poder de transformação sociopolítica da cultura. Esses queridos companheiros de jornada dramatúrgica mantiveram acesa a chama do diálogo, e provocaram seus conhecimentos, ao permitir-se horas de intenso estudo, sem negligenciar o necessário estado de atenção frente ao mundo que nos cerca.
Após esse nosso primeiro momento, onde foram facilitadas as informações e técnicas necessárias para o avanço da atividade, todos os participantes encontram-se agora no processo de escritura de uma peça teatral a partir de uma obra de outro gênero literário; e a oficina pretende que, ao fim, todos os participantes tenham desenvolvido um texto de curta, média ou longa extensão. No decorrer dessa produção, vou acompanhando virtualmente o desenvolvimento de cada um dos projetos dramatúrgicos, verificando os caminhos e os descaminhos que se apresentarem durante a trajetória. Isso continuará até o nosso próximo encontro, pois, como versei aqui, o SESC Dramaturgias prevê o retorno do oficineiro à cidade visitada. Sendo assim, outras 16h, nos três municípios, pretendem possibilitar a prática com a presença do facilitador, onde acompanharei a feitura e finalização de cada um dos textos, dirimindo ruídos que tenham perdurando durante o primeiro encontro.
O projeto terá sequência nesta segunda-feira, quando parto para Caxias/MA, primeira cidade que visitei com a oficina de escrita dramatúrgica. Com a metade que me cabe do SESC Dramaturgias concluído, posso dizer que toda ação de cunho formativo tem marcante repercussão na comunidade artística onde é realizada, pois aciona dizeres e desejos muitas vezes escondidos em lugares recônditos da alma humana, e que, quando provocados, se apresentam com a potência, prontidão e espanto matriciais para a criação artística. Tomara que tudo seja, permaneça, aconteça, recomece, resista...