domingo, 26 de março de 2017

A curadoria do contemporâneo


Na contramão, enquanto o Brasil teatral se encontra em São Paulo, acompanhando o mais badalado festival internacional do país – a MITsp, estou no Rio, acompanhando o mais badalado aniversário de criança – o do meu afilhado. A coincidência apenas serve de introdutório para o comentário genérico ao qual me dedicarei nesta postagem, pois nunca acompanhei a MITsp, e invejo todos os queridos amigos que de lá me mandaram maravilhosas notícias.
Qual é a nossa autonomia criativa quando inseridos em um contexto predominante?
Tenho a impressão de que se não seguir certas tendências, uma obra de arte – e a partir de agora me concentro em peças de teatro, nosso objeto de experimentação –, por mais robusta e contundente que seja, não conseguirá estar na linha curatorial da sua contemporaneidade. Essa condição velada influencia significativamente grande parte da produção teatral, e com isso, cria-se uma espécie de retroalimentação da mesmice, multiplicação de imagem a partir de espelhos paralelos, afetando a condição espetacular do evento teatral. Nesses casos, a espetacularidade consiste na qualidade criativa das variações sobre o mesmo tema – e uso a palavra “tema” como universal, podendo ser estética, conceito, momento político, técnica etc. Avalio se não seria pouco para uma busca mais apropriada da verdade artística, essa fantasia romântica que paira sobre alguns de nós.
Se o grupo, obra ou artista tentar seguir um caminho autônomo, independente, ou descolado do atual preponderante – apesar de ser consciente que a influência do entorno é indissociável –, pagará o ônus supracitado, e terá dificuldade de penetração, provocando naturalmente uma reavaliação da própria obra, fragilizando o entendimento de suas escolhas.
Conversando com um amigo encenador, pensávamos se não seria fácil o exercício de concentrar diversos clichês de específica contemporaneidade, e reproduzir o engodo com verossimilhança. Em outro momento correu uma lista de lugares-comuns necessários para se conceber um espetáculo contemporâneo – confesso meu espanto quando identifiquei vários em espetáculos nossos. Esses pequenos momentos de espelhamento – perdoem o abuso de espelhos, é que estou adaptando Borges – denotam o descompasso que sentimos, mesmo sem perceber, ao nos depararmos com as amarras do tempo, nosso tempo, e reivindicarmos para nós uma autenticidade desgastada de tão usada.
Nem tanto ao céu, nem tanto à terra, e muito menos ao inferno – também tenho estado místico nestas últimas postagens. Não conseguiremos sair da influência do entorno, é certo, mas não precisamos ficar reféns dele, nem preconceber um diálogo que só se verificará a partir da honestidade da obra e da coincidência do diálogo desta com algumas urgências do momento em que ela é posta.
Claro que todo meu discurso é sempre carregado de certo romantismo; estruturado em ideias de originalidade, inovação, autonomia; porém, mesmo sendo conhecedor da falência dessas utopias, não me incomodo em assumi-las, tomá-las como meta, e parecer tolo e antigo perante os meus pares – sabedores de que tudo já foi feito, dito, criado, e que só nos cabe variar sobre suas formas.
Paciência. Acredito que não é possível viver artisticamente reproduzindo os mesmos caminhos apontados pelos cânones ou detentores do poder. Isso nos tornaria mais servis e menos artistas, e um teatro servil é mais nocivo que a ausência. De fato, quão servil estamos nos tornando ao forçar um diálogo como o contemporâneo? Nossa autonomia está preservada no dizer, ou penso no dizer a partir das modelações do entorno? Refaço a postagem fragmentada e a reformulo nos moldes aos que o leitor está acostumado a ler? Sou artista ou mentiroso?
Questões. Questão. Questã. Quão independente se pode ser, quando se depende da aceitação para a viabilização? Quão corrompida está a criação da Pequena Companhia de Teatro se se mantém presente no circuito da sua contemporaneidade? Quão sincero deve ser um escritor ao expor suas angústias? Minha opinião é formatada e desconfigurada dia após dia, por isso pergunto tanto.
O ideal seria que minha inquietude fosse exagerada e as perguntas fossem retóricas, pois acredito nas honestidades dos atores, conheço a maioria dos curadores do país, e me surpreendo com a generosidade de alguns amigos envolvidos nos mais diversos festivais, projetos, espaços, editais, ocupações – aqueles ambientes onde se definem os caminhos do teatro do pais. Todavia, não me canso de questionar. Quando vejo algo demasiadamente bom, que me agrada, que me entusiasma profundamente, é aí que procuro afinar o olhar, distanciar o envolvimento, e advogar para o diabo – como disse, estou místico. É o que tento fazer aqui.
Penso no quão plural é possível ser para não esterilizar iniciativas. Penso no quanto é necessária a ideia de recorte, contudo, no quanto de sangue corre a partir de um esquartejamento. Penso em sermos responsáveis pela superestimação de algumas funções e pela subestimação de outra. Penso que, como a Pequena Companhia de Teatro também é banhada pela luz desses mesmos holofotes, eu não deveria escrever nada disso. Penso na irresponsabilidade da minha postagem, ao escrever sem dados, pesquisas, estudos, levantamentos, estatísticas. Penso que se eu me levasse tão a sério não teria escrito a primeira linha deste blog. A minha única certeza é que, como diria o filósofo, todo penso é torto.

domingo, 19 de março de 2017

A cosmética do pensamento


Um amigo, curador e crítico teatral, ao se referir a mais uma das infindáveis polêmicas da semana, brincava, em uma rede social, sobre a diferença entre pensamento, autoajuda, sabedoria, reflexão e afins. O comentário, contido de deliberada despretensão, caiu sobre minha cabeça com o peso da Biblioteca de Alexandria.
O que, efetivamente, tenho escrevinhado aqui? A ideia de fazer parte de uma cosmética do pensamento atropelou meu juízo, e desde a leitura do despretensioso comentário, não consigo deixar de me ver como um fantoche a serviço da rede, elucubrando formas de externar o que penso, como se isso tivesse alguma relevância. A função do exercício, para mim, sempre foi clara, a de assentar angústias, pensamentos, reflexões que faço; mas para esse fim bastaria arrolá-las em alguma espécie de diário, caderno de cabeceira, lista de tiradas, arquivo como atalho no desktop. A pergunta que já se reiterava, e que agora assume cinquenta tons de cinza (desculpem-me o trocadilho infame) é: qual a função de tornar esse exercício público?
Como sempre levei uma vida pacata, abrigada – com indícios de sociopatia para alguns, e de egoísta reserva para outros –, vi na proposta lançada por Jorge de criar um blog, uma alternativa de conexão com o exterior, uma forma de interlocução nova, onde pudesse organizar um pensamento mais estruturado, diferentemente da fugacidade oferecida pelas redes sociais – como já versei aqui sobre tudo o que versarei a seguir, abordando outros aspectos. Nesse exercício vão-se sete longos anos de ininterrupta provocação, reflexão, confissão, análise, crítica, com a despretensão que me é cara, mas sem o fantasma de frivolidade que agora me assola. Não, não quero isso. Não era essa minha intenção. Mas, como saber se essa prática de escrita serve a deus ou ao diabo – sim, perdoem meu preconceito, mas autoajuda, para mim, é coisa do capeta –, pergunta o ateu? O que pode se produzir de sentido no limite de uma postagem? Quanto de reflexão cabe na brevidade da blogosfera? A exposição não seria apenas uma forma de revelar uma personalidade narcísica?
Penso teatro, preponderantemente. Esse pensamento busca entender melhor o nosso fazer; problematizar, na medida do possível, algumas amarras entorpecedoras; contestar máximas imutáveis, tão frágeis quanto bolhas de sabão; e tentar aferir ao contemporâneo o seu lugar, o de ser novo na medida em que o novo é um velho amigo de tudo o que já foi. Mas, tudo isso serve a mim, no máximo a nós, membros da Pequena Companhia de Teatro. Logo, como mensurar se o valor do pensamento merece extrapolar as fronteiras da Rua do Giz? Não consigo uma resposta.
Com o passar dos anos – e eles passaram até me aproximar do meio século – tenho tido menor capacidade para responder, e uma abusada necessidade de perguntar, provocando respostas que exigem um ouvido atento, fato que se contrapõe à prática que me obrigo aqui; então, para que se precipitar no abismo das considerações?
Talvez alguma resposta esteja incrustada no próprio pensamento; o de ser a expressão mais concreta do espirito humano, o que nos diferencia, o que nos torna uma massa de carne criadora do mundo que conhecemos. Quiçá, na minha bruta formação, foi no pensamento que encontrei o melhor caminho para o parco conhecimento que carrego – o “parco” é a contra modéstia da personalidade narcísica citada acima e escamoteada até aqui. Talvez seja a forma que encontrei para sobreviver, neste exagerado novo mundo de bestagens, vazios, vaidades, aberrações e banalidades; apostando na transformação da vida a partir das reflexões geradas no caminho para a morte.
Como advertido, e mais uma vez, só tenho perguntas. Talvez essa seja a real motivação. Através deste instrumento – o blog – consegui encontrar os interlocutores necessários para dar as respostas às perguntas que passaram a me acabrunhar na derradeira etapa da vida; e das formas mais variadas – o comentário no blog, nas redes, a interpelação do leitor na fila do teatro, a ressalva feita pelo amigo no sofá da sala, a mesa redonda provocada pelo assunto abordado na postagem – esse interlocutor se apresenta para amenizar a grande angústia, a que constrói o humano ser por não saber de coisa alguma.
Talvez. Não sei. Só sei que diante da possível pecha de esteticista de autoajuda lhe peço, encarecidamente, me outorgue o emblemático, pitoresco e descompromissado título de filósofo de botequim.

domingo, 5 de março de 2017

O outro passado


O passado de um artista é a sua trajetória, e dele depende o implacável presente e o incerto futuro. Materialistamente é melhor deixa-lo lá, imutável e empoeirado, porém, se nos permitíssemos um exercício metafísico, eu perguntaria: como um artista da vida, o que você mudaria do seu passado?

Para gerar a reflexão, convido a voraz leitora, o compulsivo leitor, a eliminar os famigerados clichês de “teria feito tudo igual” e “faria tudo de novo”, ou o brado, aos quatro ventos, de que repetiria cada passo. Essa postura esconde uma empáfia e um delírio de perfeição que não se afina com a sua sensibilidade. Feita a ressalva, construo meu argumento a partir do descompasso entre a realidade e o sonho.

Uma postagem anterior, perdida no limbo cibernético, provocava com a pergunta: o que você quer ser quando crescer? Da resposta a essa pergunta derivaram os fatos presentes da nossa vida, oriundos dos desejos futuros. Quanto de tudo aquilo que desejei, realizei? Quanto de tudo aquilo que projetei, executei? Quanto de tudo aquilo que sonhei, vivi? A resposta a essas perguntas vai lhe fazer admitir que sim, se pudesse, mudaria uma coisinha aqui, outra coisinha ali, do incorruptível passado, nesse exercício nefasto que, por não ter o que fazer, lhe proponho hoje.

Artisticamente falando, somos o resultado desse passado. Como artista, cada passo dado nesta longa jornada para o fim, moldou o presente – que assola ou regozija – e configura o futuro. Em qual ajuste você investiria, se a vida não fosse tão sólida como a pedra? O que teria alterado na sua vida, para melhor ou pior, aquela mudança de comportamento, decisão ou opção, que sempre esteve sufocada no âmago da sua essência simplesmente pela máxima de saber que o passado não se muda? O convite recusado? A decisão pouco pensada? A música que não deveria ser gravada? O livro não publicado a tempo, e que agora caducou? A performance que envergonhou? A genialidade fingida? A construção descuidada daquela personagem? O conhecimento simulado? A encenação não encarada por covardia? A constelação de trejeitos, rompantes, discurso e tiradas usada para camuflar o embuste?

Por tudo isso, é muito mais fácil abraçar-se aos clichês, não pensar no assunto, e sentenciar: não me arrependo de nada! Talvez – e isto é apenas a especulação de um artista inútil –, a revista ao passado, a ficcional possibilidade de mudar o que passou, possa gerar uma reflexão que afete o ser presente, e, naturalmente, altere o ser futuro, tornando-o menos pior. O que penso é que, se o passado servir para corrigir o presente, teremos um futuro melhor – claro que falo sobre o ponto de vista de outro eterno clichê inútil, o de mudar o mundo, que me é tão caro. A ideia ególatra de não alterar um passo de tudo o que foi feito não é uma armadilha que afetará consideravelmente o porvir?

Eu mudaria algumas coisinhas, sim. Talvez estudasse mais. Talvez aprofundasse a intimidade com artistas outros que conheci. Talvez seria mais militante. Talvez recusasse alguns trabalhos. Talvez construísse mais castelos na areia. Certamente venderia um pouquinho menos minha alma pro diabo. Talvez fosse menos severo comigo, mais delicado contigo. Talvez falaria menos e criaria mais. Talvez atravessasse o deserto para levar uma peça de teatro para o amigo moribundo. Talvez vivesse mais e pensasse menos. Talvez, se o passado fosse um palimpsesto onde pudéssemos escrever e apagar, indefinidamente, até cansar de peregrinar. E você?

Claro que esta reflexão é motivada pela pesquisa do nosso novo espetáculo, inspirado no conto “La otra muerte”, de Jorge Luís Borges. Enquanto você não vê o resultado artístico, lhe perturbo com o processo – essa coisa que não é nada, confunde todo o mundo, e alimenta o ego do artista que tenta garantir o holofote antes mesmo que o espetáculo veja a luz. Quem sabe você não colabora para conseguirmos realizar outro dos nossos retumbantes fracassos?

domingo, 19 de fevereiro de 2017

Parto sem dor, ou o dia em que um diretor de teatro decidiu tentar se divertir em vez de ficar medindo os centímetros entre o nada e coisa nenhuma



O melhor amigo do encenador é a cena, do ator a ação, do dramaturgo o drama, do figurinista a figura, do cenógrafo a cênica, do sonoplasta o sonido, do iluminador a luz. Quando esses se tornam um peso, há algum problema.

Há dias que um grande amigo insistiu em que devo me divertir mais. Não sei muito bem qual é o fundamento dessa opinião, mas devo admitir que a arte, para mim, nunca foi prazerosa. Como tudo o que emerge através dela vem de uma profunda insatisfação existencial com a forma como construímos o mundo e suas relações, é natural que a prática artística pese em mim como pedra. Contudo, de que maneira entender o crítico entorno, questioná-lo, e ainda assim extrair o prazer necessário para que o exercício artístico não seja um martírio? É o que venho me perguntando enquanto norteio os fundamentos do próximo espetáculo. Pretendo que entremos de cabeça nele quando, definitivamente, eu tenha conseguido solucionar essa equação.

Os caminhos parecem simples, se imaginarmos que o teatro não passa de uma grande aventura ilógica, jocosa e efêmera. O principal deles, que venho praticando desde a criação da Pequena, é a despretensão, por absoluta consciência da inutilidade da arte, e da certeza do pouco poder de transformação que dela emana. O problema é que atualmente isso já não basta. Como já falei aqui, num momento como o que vivemos é necessário imaginar, ou mesmo se iludir com a hipótese de que alguma coisa dita através do teatro seja transformadora ao ponto de fazer sentido. Mas, tudo isso é filosofia de botequim, e penso que o que meu amigo tentou tocar vai muito aquém da existência, e se refere aos pequenos prazeres da cena, do gesto, do movimento preciso, do vaivém dos objetos, das luzes, do suspiro no fim do ensaio.

Nesse caso, o problema consiste em não saber onde está o problema, ou se há um. A concepção e confecção de um espetáculo me é cara, me é prazerosa, mas devo admitir que, dirigida por mim, é sisuda. Sou demasiadamente sério para algo que no discurso é carregado de despretensão. Porém, desconfio que haja um caminho, e minha condição artística malfeita a me manter como permanente aprendiz, me possibilitaria o sopro da suspeita, se eu decidisse que sempre há tempo para se aventurar.

Precisaria aprender a me desprender. Exercitar o desapego. Esforçar-me em perceber que desenvolvi um sentido de posse sobre a obra artística na qual me envolvo que afeta o pleno sentido da arte; o de pairar livremente pela vida transformando aquele desprevenido que se defronta com sua força. O aprisionamento da obra imposto por mim – perdoem o dramático exagero – sufoca a sua trajetória e me confere a sisudez habitual à qual a abnegada leitora e o despegado leitor estão acostumados. Desapego. Diversão. Despretensão. Conferir à obra uma das suas principais funções: a de dançar com os seus criadores a fluida e divertida dança da concepção e confecção.

Como a transformação ocorrida em mim a partir de cada espetáculo criado é percebida pelos meus pares a olho nu, espero que a experiência desta nova aventura que se avizinha me devolva ao mundo leve e solto. Livre já seria um exagero.


domingo, 18 de dezembro de 2016

Dando número aos bois


O ano começa a acabar e 2016 leva consigo a marca dos dez anos de existência da Pequena Companhia de Teatro. Atravessamos uma década fazendo teatro e vivendo dele, em um mesmo grupo, com os mesmos integrantes, desenvolvendo pesquisa, montando espetáculos, circulando, ministrando oficinas, promovendo festivais, participando de debates, palestras, seminários, fóruns, sem fazer concessões de ordem estética, política, investigativa, financeira ou intelectual. Esse posicionamento nos custou sangue, suor e lágrimas, mas posso assegurar que nada pingou sem a devida dose de satisfação por saber que construíamos uma trajetória regular, honesta, progressiva e permanente.

Primeiro com César Boaes enredando Jorge Choairy no labirinto de “O Acompanhamento”; depois com o fraternal enlace de Lio Ribeiro e Cláudio Marconcine, em “Entre Laços”; em 2010, Jorge e Cláudio se unem num rito patriarcal, em Pai & Filho, para logo depois saírem da órbita com Velhos caem do céu como canivetes, em 2013. Quatro espetáculos em dez anos. Em dois interstícios a Pequena colabora com a Cia. A Máscara de Teatro para as montagens de “Medéia” e “Deus Danado”, em Mossoró, além de coproduzir duas edições do “Auto da Liberdade”. Pinçaria, também, as 4 edições da Semana Imperatrizense de Teatro, e a performance poético-teatral “Literatura Viva”, com mais de 200 intervenções, para as duas primeiras edições da Feira do Livro de São Luís, das quais a Pequena Companhia de Teatro foi responsável pela direção artística. Para dez anos, poderíamos dizer que se trata de uma produção econômica, mas construída na medida dos nossos anseios e das nossas condições.

Uma das principais virtudes foi que essas produções não se bastaram em São Luís. Desde a primeira circulação, com “O Acompanhamento” pelo interior do Maranhão, em 2006, até a derradeira, com “Velhos caem do céu como canivetes” pela Amazônia Legal, viajamos 67 cidades de 25 estados do país. Todos os espetáculos da Pequena Companhia de Teatro cumpriram pelo menos um projeto de circulação. Visitamos 26 cidades do Nordeste, 14 do Sul, 4 do Centro-oeste, 14 do Sudeste e 9 do Norte, ultrapassando as 250 apresentações. Participamos dos principais projetos de circulação nacional – Programa Petrobras Distribuidora de Cultura, Palco Giratório/SESC, Viagem Teatral/SESI e SESC Amazônia das Artes –, além de ocupar(e)mos os Centros Culturais BNB de Sousa e Fortaleza, através da Seleção de Projetos Culturais BNB. Viajamos de carro, de barco, de van, de avião, de ônibus, de trem, de carroça – isso mesmo que você lê.

Os 4 Prêmios FUNARTE de Teatro Myriam Muniz ganhos pela Pequena Companhia de Teatro, em 2009, 2010, 2012 e 2013, foram nosso esqueleto de sustentação, e a tábua de salvação para inúmeros grupos teatrais do Brasil, que agora padecem com a falta de entusiasmo do MINC em sinalizar uma gestão séria. Tanto os atores Cláudio e Jorge, quanto os espetáculos, direções, produções, cenários e figurinos ganharam o Prêmio SATED/MA de Artes Cênicas - 10 ao todo. Participamos de 62 festivais ou mostras de teatro locais, regionais, nacionais, internacionais e intergalácticas.

Além disso estudamos, enrolamos, aprendemos e ensinamos. Ministramos 5 oficinas – de atuação, de iniciação, de dramaturgia, de leituras dramáticas e de cenografia –  para mais de 50 turmas, em 30 cidades de 18 estados deste brasilzão, e publicamos, lançamos e vendemos/distribuímos 1.000 exemplares de um livro, minha dramaturgia reunida. Parte dessas atividades promovidas pelo Programa BNB de Cultura, outro inestimável investimento cultural que a classe artística perdeu e não se apercebeu.

Adquirimos a sede, que foi nosso grito de independência criativa. Aqui montamos e estreamos o espetáculo “Velhos caem do céu como canivetes”, mantivemos nosso repertório em temporada regular, ofertamos diversas oficinas, debates, visitas guiadas e um seminário com Gilberto Freire de Santana, Dyl Pires e André Lisboa. Ainda abrimos as portas para produções externas, e recebemos os espetáculos “Para uma avenca partindo”, “A escrita do Deus”, “As 3 fiandeiras”, a performance “Ocupa Árvore”, a palestra “Ser indígena hoje em contexto urbano”, a roda de conversa com Gero Camilo, a Mostra SESC Guajajara de Artes, a Conexão Teatro, a Semana do Teatro no Maranhão, o Festival Ponto de Vista/UFMA, A Feira do Livro de São Luís, o lançamento da revista Palavra, os intercâmbios com o Coletivo Alfenim, a Cia. A Máscara, os Clowns de Shakespeare, o Patuanú, o Tibanaré, a Cia. Pão Doce, A Outra Cia. de Teatro (na verdade, esta nos deve a visita, nós é que fomos lá), a oficina literária de Marcelino Freire, e tudo aquilo que por aqui passou e você não viu.

Também aqui, neste blog, a história da Pequena Companhia de Teatro foi sendo construída; foram 525 publicações, 1283 comentários de assíduos ausentes leitores, e milhares de visualizações, em mais de 6 anos de ininterrupta reflexão sobre o teatro e seu entorno, o mundo. Você, confidente leitor, atenta leitora, foram testemunhas das dores e dos sabores dessa jornada hercúlea, a de se fazer teatro no Maranhão e fazê-lo reverberar além das suas fronteiras.   

Para mim, sem sombra de dúvida, foram os melhores dez anos da minha vida. Katia, Jorge e Cláudio, obrigado. No agradecimento aos três sintetizo minha gratidão a todos os atores que ajudaram a consolidar a nossa caminhada, apoiando, assistindo, comemorando, participando, criticando, patrocinando, aplaudindo, conversando, ignorando, refletindo, jantando, ensinando, torcendo, brigando, convivendo, saboreando. Obrigado!

domingo, 4 de dezembro de 2016

Ler sem entender – uma curiosa equação


João Ubaldo Ribeiro, na propaganda de uma entrevista dada a Fernanda Torres que ainda não vi, falava sobre ler sem entender. É o que tenho feito durante mais de quarenta anos: ler sem entender. Vou lendo, deixando que as palavras façam seu genioso trânsito pelo cérebro, esperando que essa experiência repercuta de alguma maneira em tudo o que meu ser procura, sonha, contesta, provoca, pratica. Mas entender, entender mesmo, nunca entendi. Creio que cerca de oitenta por cento de tudo o que li na vida me deixou com aquela incessante sensação do incompreendido; aquela eterna pergunta que por vezes me deixa contrafeito: será que é isso? Agora mesmo, enquanto leio algum clássico que me devo, fico me perguntando: o que está assentado nessas páginas que jamais chegarei a entender?

Enquanto essa sensação perdura, vou me deliciando com o hábito de confrontar as páginas, vou deslizando os olhos sobre as frases e seus mistérios, deixando a leitura fluir como queira, sem constrangimento. Quantas vezes atravessei laudas inteiras esperando que os miolos concluíssem o raciocínio provocado pela escritura,e padeci, em silêncio profundo, com os olhos cravados no ponto final, perante a certeza de não ter entendido nada? De Nietzsche a Derrida, de Borges a Vallejo, de Suassuna a Saussure, de Raymond Williams a William Shakespeare, de Macedonio Fernandez a Roland Barthes, centenas de páginas livres; uma chuva de papel em forma de sentido desafiando minha paciência, e eu, com a persistência que me é peculiar, lendo, sem pressão, sem pretensão, aguardando o destino que o pensamento dará para a sentença; esperando encontrar na cabeça um lugarzinho útil para aquele capítulo inteiro que me pareceu inútil.

Minha irmã lê e entende. Entende com uma precisão assustadora. Uma leitura profunda, que permite a reprodução milimétrica de todo o sentido, por mais complexo que seja. Quando me explica algo que acabou de ler, fico olhado para ela como um jumento olhando para um castelo. Na maioria das vezes não consigo acompanhar plenamente o raciocínio, mas separo um tempinho no meu juízo para ficar apenas contemplando a cena, seus gestos e compassos, admirado com a clareza que ela consegue ter do que acabou de ler, enquanto extraio da explicação algo do que ali estava escrito. Sempre invejei essa inteligência, e encontrei na boa e descompromissada prática de ler sem entender a forma de acompanhar tudo aquilo que eu imaginava existir em cada uma das obras que se me apresentaram no decorrer da vida.

O leitor deve pensar que faço galhofa, mas sou franco. Falando profissionalmente, o que existe em mim de Grotowski, Artaud, Barba, Stanislavisk, Kantor, Chekhov, Brecht, Brook, é o manifesto estado do ler sem entender. Em mim, esses autores são uma massa fértil e confusa de ideias, estudos, postulações, indagações, métodos, tratados e teses impregnadas, assimiladas de maneira particular, pessoal e peculiar, através da passagem das páginas desses livros pelos olhos de alguém que lê, deseja entender, e continua lendo à espera de que o fenômeno aconteça, sem se assombrar com o fracasso. Assim construí meu pensamento por falta de mediação, como outrora comentei aqui.

Hoje, já cambaleando no tempo reservado ao homem para fazer o resumo da sua história, não tenho mais pretensões. Imagino que chegarei ao fim como um ser que leu mais do que devia, menos do que queria, entendeu um pouco do que lia, e se divertiu com o hábito de ler, mesmo sem entender. Por isso continuo. Lendo sem parar para pensar se entendo. Mesmo agora, quando me espera o presente da querida Flávia Teixeira, tentando provocar meu juízo com a Sociedade do Cansaço, de Byung-Chul Han. Tomara que eu entenda.

domingo, 20 de novembro de 2016

Da arte de não dizer nada sobre coisa alguma


O blog tem sido a conexão do meu pensamento com o exterior, a minha relação com o mundo outro que o meu mundo mesmo de sempre. Este instrumento conecta os conhecidos íntimos e os poucos amigos com alguma opinião minha mais organizada, um pensamento meu mais extravagante, uma reflexão um pouco mais desenvolvida, e me brinda com a saborosa interlocução dos mais atenciosos e delicados, com seus comentários escassos e provocativos. Pessoalmente, apenas dois ou três amigos íntimos me visitam para trocar uma ideia nesta masmorra construída por Katia para me isolar do mundo, e que atende pela alcunha de Residência Lopes Flecha para momentos privados, e de Pequena Companhia de Teatro para temas de ofício. Sorte a minha, porque nem de gente eu gosto.

Por outro lado, tenho recebido convites que reforçaram o que exercito no blog, quando convidado para uma sorte de encontros, aulas, palestras, mesas redondas e retangulares. Essa prática tem me provocado imensamente, e servido para me relacionar de maneira mais presencial com o pensamento teatral e seus provocadores, que em grande parte, são queridos e generosos amigos. As mais recentes jornadas de pensamento foram no FestLuso – Festival de Teatro Lusófono, em Teresina/PI, e no Festival O Mundo Inteiro é um Palco, em Natal/RN. Não pude ir para o Festival de Teatro Velha Joana, em Primavera do Leste/MT, mas pagarei a dívida na próxima edição. Todos esses encontros acabam se tornando espaços para reverberar as reflexões que já faço aqui.

Estou enrolando para ver se você percebe que estou há dois domingos sem postar, pois, preciso dessa constatação para fundamentar a pergunta que perpassará o desenvolvimento desta postagem. A sensação de alívio de passar quinze dias sem escrever não abranda minha culpa, sem saber direito com quem firmei este compromisso. Como todo e qualquer fato insignificante gera aqui uma inútil reflexão, foi inevitável que o silêncio das teclas durante duas semanas me provocasse a pergunta que se reitera com certa frequência durante os últimos seis anos em que decidi compartilhar minhas opiniões, seja virtual ou pessoalmente: qual o motivo disso? E as outras: o que valora um pensamento ao ponto de torná-lo útil ao público? O que sobrevive de uma reflexão, a não ser a vaidade do autor de sentir-se tão importante ao ponto de achar que sua ideia merece alçar horizontes além do seu banheiro? Por que a autoafirmação contemporânea passa por expormos nossa opinião publicamente sobre qualquer assunto, polêmica, notícia, sem nem saber ao certo quem é o nosso interlocutor? Por que tememos tanto a nossa insignificância, e evitamos nos confrontar com o fato de que nossa opinião não tem a menor relevância perante a magnitude da crueldade dos assuntos que assolam e carcomem nossa sociedade?

Não sei. Os fóruns específicos, como os encontros e mesas que citei acima, ainda me parecem menos estéreis, e consigo voltar de cada um deles com a sensação de ter contribuído para coisa alguma, de estar em contato com a opinião de muitos que respeito, mas, sobretudo, das gargalhadas entre os pares, das ironias ao constatar nossa pretensão de achar que estamos mudando algo. Já as reflexões virtuais, essas onde somos seduzidos a falar de tudo e todos, ainda me despertam do sono – nada me tira o sono; por isso me esforço há anos para utilizar o teatro como epicentro provocador do meu pensamento e das consequentes reflexões.

Tenho percebido – é apenas uma suspeita – que no meu caso se estabelece uma necessidade de dizer, e está diretamente relacionada com o fazer teatral da Pequena Companhia de Teatro. Meu caminho de expressão desse dizer sempre foi o teatro. Como nós montamos, em média, um espetáculo a cada três anos e meio, a lacuna deixada pelo tempo de silêncio atentou meu juízo, levando-o a assentar minhas ponderações em outros veículos, e o blog, os encontros e as escassas visitas canalizaram essas elucubrações. Como a ideia agora é tentar reduzir esse tempo, fazer um esforço para montar um espetáculo a cada ano e meio ou dois anos, pela urgência de dizeres que o momento atual exige, eu me pergunto: essas reflexões devem minguar? Deveriam? Se o artista se expressa a partir da sua obra, é necessária a exposição do seu pensamento através de outros meios? Ou seria o momento de repensar a frase do prólogo de Oscar Wilde para o Retrato de Dorian Gray, quando diz que “revelar a arte e ocultar o artista é a finalidade da arte”? Não sei. Hoje o dia foi de perguntas. Espero não estar falando com as paredes, pois, nesse caso, bastaria entrar no banheiro.

domingo, 30 de outubro de 2016

Da epicização do teatro


Há alguns anos venho percebendo uma acentuada epicização do teatro brasileiro atual. Se eu tomasse como exemplo minha recente trajetória como espectador, diria, sem receio, que oitenta por cento do teatro que assisti nos últimos anos constrói sua narrativa substituindo a ação como fundamento de constituição do dizer, consolidando sua dramaturgia através da contação, da narração, da utilização do discurso indireto, da presença do narrador, elementos basilares da escrita épica, mesmo que a intenção esteja distante de qualquer relação com o teatro épico, que tem como referência o dramaturgo Bertold Brecht. Isso porque o que proponho discutir é sobre o ponto de vista de uma epicização ocorrente a partir dos gêneros literários e não teatrais. A tese que levanto não procura fazer juízo de valor, apenas busca problematizar a pronunciada desproporção entre as características épicas/narrativas e as dramáticas na construção teatral contemporânea, sua gênese e possíveis consequências.

Inicialmente valeria apontar algumas características de ambas estruturas, e tentar, a partir da forma, problematizar seu conteúdo. Ao tomar a palavra drama no sentido de ação, podemos dizer, rasteiramente, que uma peça teatral dramática consolida sua escrita cênica através da ação das personagens. É a ação entre as personagens que conta a história, basicamente, através do discurso direto. O bom e velho Aristóteles, no livro III da sua Poética, diz: (...) “seja deixando as personagens imitadas tudo fazer, agindo”. E ainda: (...) “pois ambos [Sófocles e Aristófanes] representam pessoas fazendo, agindo. Essa, segundo alguns, a razão do nome drama, o representá-las em ação”. Por outro lado, a epicização que aqui problematizo, apresenta a figura de algum tipo de narrador contando a história, com personagens formais menos robustas, atores intercalando funções narrativas e dramáticas, e grande parte da dramaturgia construída em discurso indireto.

Feito esta contextualização para a querida leitora e o caro leitor pouco afeito a chatices tecnicistas de quem faz teatro ou literatura, e mais acostumado ao provocativo exercício de ser espectador ou leitor – e você pensava que o blog só tinha leitores artistas –, desenvolvo o problema, e apresento minha tese. Para mim, o problema está no desequilíbrio – mesmo problema percebido na postagem anterior, apesar de tratar de outro tema. Não vejo maiores consequência em qualquer uma das formas estruturantes de uma peça teatral, apenas me preocupa o desequilibro numérico entre as partes, suspeitando que uma desproporção de magnitude proeminente como a que suponho, seja, de alguma maneira, comprometedora da lucidez que o conjunto de produção teatral de uma época deve ter para confrontar sua realidade e ser instrumento de balizamento desta.

Diferentemente da maioria das minhas postagens, que busca a reflexão através da negação de uma escritura conclusiva, apresentando perguntas e especulando com as imaginárias respostas do leitor, hoje apresento minhas suspeitas quando à origem da desproporção entre uma cênica mais dramática e outra mais epicizada.

Com frequência ressalto que o ser humano ocidental é forjado pela sociedade como um narrador. Desde a infância somos provocados a contar histórias, seja na redação de como foi o nosso fim de semana, seja na mesa de jantar, contando como foi o nosso dia. Raramente, para não sentenciar um nunca, na nossa formação escolar, somo provocados a construir personagens e a contar histórias através da ação dessas personagens. As personagens aparecem, contudo, contadas por nós, narradores das nossas redações, contos, histórias, fantasias, conversas. O paciente leitor estará se perguntando onde quero chegar, o impaciente, calculando o momento de abandonar o texto, e eu apresentando, no próximo parágrafo, a segunda informação fundamental para embasar minha teoria.

Outra particularidade recorrente da recente estruturação do teatro brasileiro contemporâneo se dá na mudança na construção do texto teatral. Se tradicionalmente o texto era escrito por um dramaturgo de gabinete, atualmente grande parte da multiforme e polissêmica dramaturgia contemporânea substituiu o dramaturgo por construções coletivas, colaborativas, presenciais, onde a principal fonte de produção do dizer é o ator, um ator criador, pesquisador, um ator robusto de formação e entendimento, mas, na maioria das vezes, sem um conhecimento técnico formal de dramaturgia. No entanto, o ator, como cidadão, recebeu a mesma preparação sócio-escolar que todos nós, e não está imune à epicização que defendi no parágrafo acima.

Naturalmente – e concluindo, prometo! – a influência que o ator recebe na formação social interfere, acidentalmente, nas postulações, improvisações, incursões e escrituras no momento de produzir dramaturgia. Com isso, organicamente, a produção teatral receberia uma influência de cunho mais narrativo/épico que dramático, e passaria a preponderar essa forma em detrimento marcante da outra. Penso que esse seria apenas um dos fatores do sintoma que apresento e que convido a discutir, pois acredito que outros são igualmente responsáveis pelo desequilíbrio aqui problematizado, entretanto, a extensão já obscena desta postagem me impede de aprofundar.

É uma tese. Absurda, botequinesca, mas tese, enfim. Como advertido em toda a postagem, a experiência de qualquer forma teatral jamais será problema, ao contrário, oxigena, desestabiliza, provoca, sustenta o teatro que fazemos. Contudo, se confirmado o saliente desequilibro que aqui apresento como suspeita, creio que uma reflexão profunda e aguda seria pertinente para não sermos conhecidos pela história como a turma que epicizou o teatro, ou aqueles que destruíram o drama – do verbo grego “draomai”, que significa agir, levado por uma causa visando uma consequência, segundo um bom e velho professor de latim, nas minhas eternas e fugazes experiências acadêmicas. Aguardo sua antítese pós-dramática.

domingo, 23 de outubro de 2016

Quando a internet consumiu o cérebro


Convenhamos, conteúdo? No que se refere a conhecimento, a rede mundial de computadores cumpre a função que as bibliotecas cumpriam antes do advento da internet: estavam lá, mas ninguém se destacava até elas para ler um livro. A facilidade de acesso a qualquer tipo de conhecimento não redunda na sua assimilação, muito pelo contrário, a garantia da acessibilidade muitas vezes amortiza o navegante, pelo simples fato de saber que o conteúdo estará lá, a qualquer hora, submisso e disponível como o livro na estante que nunca nos dignamos a abrir.

O universo que se mostra perante o internauta é tão emblemático quanto as primeiras cinquenta páginas do livro “Grande Sertão: Veredas”; se você não conseguir superá-las, não conhecerá a verdade. Da mesma forma, a maioria dos navegadores não ultrapassa o óbvio, e acaba num círculo vicioso de redes sociais, portais de notícias, jogos, músicas e vídeos engraçados. É um enredamento de frivolidades que subjuga nosso discernimento, nossa atenção, nossa objetividade, nossa intenção.

Com uma frequência assustadora, a opção online nos encaminha para a mais improvável polêmica da semana – tanto discussões pertinentes, de cunho sócio-político-cultural, quanto fastidiosas, como da santificação à satanização, em menos de vinte e quatro horas, do hipster da Polícia Federal –, antepondo-se ao acesso daquela informação importante e necessária que buscávamos no momento em que entramos na internet.

Me causa espanto nossa falta de inteligência ao explorar um dos instrumentos mais democráticos que o ser humano criou, e o quanto essa falta de inteligência transforma a vida virtual em uma espécie de zona morta, morada de zumbis, exercício de catatonia. Das horas que ocupamos nos desocupando na internet, não recebemos sequer minutos de uma boa pesquisa, de uma urgente significação, de uma prometida análise, daquela fonte de conhecimento que sempre desejamos aceder, mas que requer uma sequência de cliques tão intrincada que forja a justificativa necessária para cairmos na rede social mais acorde com o nosso humor.

Se você, cara leitora, desconfiado leitor, suspeita do meu argumento, façamos o cálculo. Calculemos o tempo demandado pelo combo citado acima (redes, portais, vídeos, jogos) e o tempo que dedicamos à maior fonte de conhecimento de que se tem notícia desde a Biblioteca de Alexandria. A conta será traumática, e correremos para a rede social mais polêmica para vomitar nosso descontentamento com a constatação.

Se o assunto é teatro, das experiências cênicas de Tadeusz Kantor à obra completa de Shakespeare, tudo está ali, pedindo uma atenção desesperada, porém, o dedo é rapidamente conduzido para o humorístico da moda. História do teatro, clássicos, teses, projetos cenográficos, cartografias, tudo ali. A um clique está o acesso aos espetáculos dos amigos, dos distantes, dos malditos, mesmo entendendo que a experiência teatral não é transponível. Contudo, através da pesquisa, podemos contextualizar, investigar, perceber, reconhecer, aprofundar. Estudar. Sim, por mais óbvio que pareça, é bom ressaltar que a internet pode ser uma inesgotável fonte de estudo.

O que tento nesta postagem, me divertindo com a pretensão, é entender qual foi a falha na criação deste instrumento chamado internet. Que tipo de fantasma binário entravou a lógica da rede, fazendo com que o usuário tenha dificuldade de penetrar além da primeira camada. Algo aconteceu. De alguma maneira a eletrônica substituiu a mecânica, e a nossa lógica física de procurar o que queremos foi substituída pela absorção da primeira coisa que aparecer; sendo que, na maioria dos casos, essa coisa está relacionada com os recursos financeiros que o interessado tenha para garantir a visibilidade da coisa em questão. É muita coisa.

Essa lógica nos tornou tolos, manipuláveis, consumistas, redundantes; filósofos de botequim. Descompassamos os ritos sociais, onde qualquer reunião se tornou um encontro entre telas, ou, diretamente, trocamos realidade por virtualidade; mas, principalmente, confundimos conhecimento com informação, e passamos a absorver tudo aquilo que se apresenta à nossa frente, curvando nossa fronte, sem chegar ao conhecimento que fingimos procurar. Quando uma leitura exige um pouco mais de paciência, atenção, complexidade, análise, chamamos de “textão”. Quando o link se abre, corremos o cursor para verificar a extensão da possível caixa de Pandora, que, por valoração do nosso precioso tempo, preferimos não abrir – como fez o leitor que não chegou a este ponto da postagem, e se livrou desta inútil reflexão que não abre caixa alguma.

Talvez esteja no equilíbrio a medida para evitar todos os tombos contemporâneos. Conseguir equilibrar-se entre tempo real e tempo virtual. Equilibrar-se entre informação e diversão, conhecimento e nugacidade. Entender que uma pesquisa vai muito além do Google, que rede social não é fonte, que pode haver ordem no caos das nuvens. Equilibrar é o verbo. Equilibrar-se é o que evita o tombo. Como rede, a teia deixada pela internet exige equilíbro. Como malabaristas do todo, precisamos estudar cada passo, equacionar cada movimento, sob pena de perdermos um tempo precioso que jamais poderemos recuperar. Claro que, apesar de falar na primeira pessoa do plural, sei que estou falando apenas de mim. Sorte a sua.

sábado, 8 de outubro de 2016

Sonhando com a realidade sem sonho


Sonhei que o ser humano sofria uma grave mutação na garganta. Sutil e gradualmente, perdia a capacidade de gritar e desenvolvia a capacidade de engolir. Como o grito caíra em desuso antes do fenômeno que o sonho anunciava, pouco se percebia a gravidade da mutação, e a sociedade caminhava aliviada, em silêncio e engolindo tudo.
Bizarro. Engolia-se tudo, sem gritar. A garganta se tornara um bueiro, uma fossa, alargada pela quantidade de matéria e miséria que por ela passava, e a deglutição aumentava, impossibilitando a saída do grito que tentava trafegar em sentido contrário, sem sucesso. Tudo era engolir, tragar, ingerir. A falta de grito gerava uma falsa ideia de tranquilidade, de controle do caos, de encaixotamento sistêmico, de domação da anarquia, de ressignificação da utopia.
Engolia-se professor de teatro, filosofia, educação física e sociologia em uma mesma tragada. Mesmo que esses quisessem gritar não adiantava, porque o sistema já os tinha engolido, e agora faziam parte do grande bolo alimentar que levava o nome de reforma. A privatização era engolida com o tempero da concessão, e por essa garganta passavam parques, autódromos, petroleiras. Engolia-se PEC, CLT, USA, em uma grande sopa de letrinhas.
A garganta tornava-se tão profunda que chegava a ser obscena. No sonho, engolia-se homofobia, racismo, tortura, pedofilia, machismo. Onde antes sopravam gritos anticorrupção agora engolia-se pactuação. Também, por essa mesma garganta, passavam os goles de whisky, enquanto as varandas gourmet cozinhavam direitos sociais, trabalhistas e culturais para degustação; o grito da delação dava lugar ao gole de negociação; o grito de fúria virava fuagrá; engolia-se voto, vitória, maioria; engoliam-se as minorias.
O novo sistema digestivo era tão perfeito que ministérios engoliam ministérios, secretarias engoliam secretarias, turismo engolia cultura, restituição de posse engolia ocupação. Em alguns casos, a secretariofagia acontecia sem se ouvir um grito, porque os cargos, contracheques e contratos engoliam a ética, a decência, a transparência, a moral.
Nem mesmo o teatro, que figurava como instrumento de confronto, sustentava o grito. Era tragado pelo mercado, pelo sucesso, pelo público a qualquer preço, pela necessidade de dialogar com o capital, com o vil metal, com o material. O teatro deixava de ser o contraponto, o contrassenso, o contrabando; o teatro virava a cereja do bolo pronta para se degustar.
A autofagia foi tamanha que a garganta engoliu o próprio grito, e ninguém mais protestou. Ao acordar, sobressaltado, me perguntei: qual é o mundo que quero para os meus não-filhos? Intrigado com a falta de nexo entre a pergunta que me afligia e o sonho antropofágico que me acordava, respirei fundo, dei um grito mudo, e voltei a dormir, em silêncio.

domingo, 25 de setembro de 2016

Sobre uma nova montagem – confissão inaugural


O processo de montagem de um novo espetáculo é sempre o momento mais agudo da minha vida. Sempre que o momento urge, inicia-se em mim uma espécie de desconstrução criativa, pasmo abissal, escândalo informativo, colapso temporal, caos dramático. Tudo o que penso, imagino, estudo, pesquiso, desenvolvo, projeto, cobre-se de uma acentuada insignificância, irrelevância; a mais absoluta comprovação da verdadeira inutilidade da arte, do teatro, do artista. Tudo apodrece, tudo é falência, tudo é angústia, tudo é miséria, tudo é desencanto, tudo é descontentamento. Só me reconheço inútil, medíocre, embusteiro.

Então, para que isso tudo? O que me motiva? O que me provoca? O que me faz ser o encenador da próxima montagem da Pequena Companhia de Teatro? A utopia. Eu acredito piamente que, depois de pronto, o futuro espetáculo da Pequena será capaz de transformar o mundo. Sim. Transformar o mundo: acabar com a fome, resolver o problema dos refugiados, reduzir os índices de analfabetismo, suspender o aquecimento global, derrubar o governo Temer. A insistente leitora, o resistente leitor, devem espantar-se com o tamanho da minha pretensão nesta última sentença, mas é isso que eu pretendo quando se inicia uma nova jornada teatral. No momento da criação de um novo espetáculo, a exigência que me faço é que a montagem tenha a potência necessária para mudar o mundo. Claro que a realidade chegará, e a estreia confirmará outro dos tantos fracassos que colecionei durante toda minha vida. Mas, agora, com toda a dor da insegurança, acredito nisso.

Não sei bem como meus companheiros de grupo lidam com o início de um processo. Nunca sentamos, Katia, Jorge, Cláudio e eu, para falar das nossas aflições no momento de iniciar uma nova montagem. Como também é ofício, sempre nos concentramos no desenvolvimento do espetáculo, com seus ensaios, discussões, pesquisas, recursos; mas raramente externamos angústias íntimas, dúvidas existenciais, agonias criativas. Fazemos isso paralelamente, amigos que somos, um com outro, outros sem um, dois entre dois, e as configurações que o número quatro permite. Tampouco sei como outras pessoas lidam com isso. Raramente ouço de um amigo em processo de montagem quais são os seus fantasmas; divagamos sobre técnica, caminhos, leituras, treinamento, temática, mas raramente o âmago, a víscera, a chaga, a dor.

Dói. Dói em mim tudo o que há para dizer, tudo o que há para fazer, tudo ao mesmo tempo agora, e nunca, e sempre, e de repente. Sustento, apunhalada às minhas costas, a bandeira da transformação, e para alcançar o feito tento me transformar em um delirante, em um demente, em um infame; buscar o dito na palavra muda, conseguir o grito que acorde o mundo, desferir o golpe que vença a injustiça; e me deparo com a falha, a falência, a derrota, o problema, o dilema.

Utopia. Começar um novo espetáculo é reafirmar o poder da utopia, é relembrar a importância da luta inútil, é iniciar a luta da batalha perdida. É o único e singelo momento em que se vive a epifania de compreender a subversiva inutilidade da arte. Por isso minha dor, meu descalabro, meu desatino, meu desalento. Claro que o leitor insensível perguntará, com o escarnio que lhe é peculiar quando encontra o momento de achincalhar este dedicado escritor, – e o teatro é isso tudo? – É necessário esse drama todo? – É preciso essa choradeira infinda? – Se é tão ruim, não para por quê?

Respondo que só sei fazer assim. Foi assim que a vida me levou para este caminho. Foi assim que as mazelas do mundo me fizeram desembarcar no teatro. Nunca decidi fazer teatro, eu me percebi fazendo teatro. O teatro foi se transformando no meu grito. O teatro foi se transformando no meu solo. O teatro foi quem me deu colo. Por isso tem que ser assim. Por isso não pode ser diferente. Por isso não posso parar. Por isso não posso abandonar a utopia. Porque sem acreditar que podemos mudar o mundo minha vida não faria o menor sentido, e de inútil basta a arte.


domingo, 18 de setembro de 2016

A vitória da vaidade


O que está acontecendo com a sensatez humana? A pergunta, que será a provocadora da série de postagens que começo hoje, surge da espantosa capacidade de me surpreender que a sociedade contemporânea vem desenvolvendo, e que me transforma, cada vez mais, neste vetusto e incorrigível homem das cavernas.

Hoje ajusto o foco na vaidade, no autorretrato, na autopromoção, no autoelogio, na visibilidade a qualquer preço. Como chegamos a isso? Se fizermos um pouco de memória, não muito tempo atrás, tudo o que englobava esse tipo de comportamento era defeito grave digno de rejeição social e, em alguns casos, motivo de chacota, galhofa, pilhéria, caçoada, zombaria, troça, que atualmente recebe o nome de bullying – como se palavras como assédio, intimidação, tirania, opressão, ameaça não existissem no nosso vernáculo.

Quando foi que isso mudou? Em que momento a vaidade deixou de ser um defeito, um famigerado pecado capital, e se transmutou em qualidade? Que curiosa transformação colocou a humanidade nessa disputa despudorada e explícita para ver quem é o mais vaidoso? Como não preciso mais de provas, transformarei as minhas suspeitas em convicções, e tentarei lançar um olhar sobre a desumanização da humildade e o (in)consequente envaidecimento da vaidade.

Suspeito que a transformação ocorreu quando a lente da máquina fotográfica, que era a tradutora do nosso olhar perante o mundo – um olhar particular, único, que mostrava, através do meu enquadramento, das minhas opções de cores, das minhas escolhas, como eu enxergava o universo à minha volta –, foi rotando, sutilmente, em direção ao nosso próprio rosto, à nossa cara, à nossa maquiagem carregada, à nossa barba bem-feita, à nossa sobrancelha desenhada, ao nosso lifting, ao nosso Botox, à nossa necessidade de escancarar nossa belíssima perfeição estética, promovendo a cultura do autorretrato, do auto-almoço, da auto-paisagem, do auto-eu-mesmo-de-tudo-o-que-seja-de-mim, que hoje atende pela alcunha de selfie. Vaidade. Ao virarmos a câmara para nós, deixamos de entender a importância do nosso olhar particular perante o mundo, e transformamos o mundo na vitrine onde exponho o meu eu para uma infindável cachoeira de curtidas catatônicas.

 
Com a mesma sutileza, a humildade passou a ser defeito, uma característica a ser ocultada, mascarada, sob o risco de apresentar-se como uma pessoa com baixa autoestima. A humildade passou a ser conhecida como falsa modéstia, como se a modéstia fosse uma qualidade impossível de existir na atualidade. A humildade chegou ao ponto de ser a própria vaidade, se o humilde não se descuidar ao defender seu comportamento. Ouçam o meu brado retumbante: humildade não é defeito! A humildade precisa ser preservada, exercitada, ou viveremos a amargura de trocar uma mesa com velhos amigos por velhos em uma mesa com retratos antigos.
 

No início deste século dediquei um ano inteiro a um dos meus inúmeros fracassos poéticos, um livro que se chamava “O Calvário da Vaidade”, onde eu decidia enfrentar um dos meus mais temidos fantasmas, tentando dissecar esse pesado capital, na inútil tentativa de me tornar um homem melhor. Claro que fracassei, poeticamente, humanamente. Contudo, a experiência me acurralou, e ao terminar minha hercúlea jornada me deparei com um dilema matricial: a publicação do conteúdo do livro não seria um exercício de vaidade? Se tudo o que eu queria com a experiência era exercitar a humildade, o pavoneio da exposição comprometeria minha empreitada. Fracassei no exercício. A humanidade jamais viu os escritos, não por minha decisão de não publicar o livro, e sim pela mediocridade do seu conteúdo. Insisti, inscrevi, enviei, implorei, mas nunca consegui publicar. Todavia, inescrupulosamente, tentei. A tosca anedota demostra que, apesar do meu esforço em extirpá-la, a vaidade me venceu. Aviso aos navegantes que se regozijam ao saber do meu fracasso: não está morto quem peleja, e continuo meu exercício cotidiano.
 
Se eu procurei, sem sucesso, expurgar a vaidade através da literatura, a literatura tornou-se uma das grandes responsáveis pelas consequências que bradejo hoje, através de um gênero textual chamando de autoajuda. Os livros deste gênero são insufladores de autoestima, vaidade, autoafirmação, egolatria. Para estes, um ser humano humilde é um ser menor, com autoestima baixa, precisando de ajuda, mergulhado no abismo da sua insignificância. Para que ler o Dom Quixote, e se angustiar com a mediocridade do Cavaleiro da Triste Figura e sua derrocada perante a vida, se posso enriquecer meu repertório de ostentação qualitativa com a leitura de livros que vão direto ao ponto: seja um vencedor?
 
É isso o que este momento histórico pretende: camuflar nossa insignificância. Esconder o grande paradoxo da existência, nascer para morrer. Com essa investida, o sistema ameniza as angustias do humano ser, enquanto se alimenta com o consumo de processadores de selfies, cosmeticomilagres, app’aradores de falhas, gerando o consumismo predatório que hoje nos assola (tema de uma próxima postagem). Não lembro se Narciso se afogou, mergulhando atrás da sua imagem, se definhou contemplando sua beleza, ou se abriu um perfil em uma rede social. Só sei que sua experiência pouco tem contribuído para que as máquinas fotográficas recuperem seu objetivo original.  
 
 


domingo, 4 de setembro de 2016

Sobre festivais, festas, FestLuso e festejos

De 22 a 28 de agosto passado acompanhei a totalidade do FestLuso – Festival de Teatro Lusófono, em Teresina/PI, e participei da 5ª edição do NORTEA – Núcleo de Laboratórios Teatrais do Nordeste como expositor na mesa redonda “Teatro brasileiro de expressão nordestina: realidades, desafios e perspectivas”, além de dialogar através de demonstrações técnicas, encontro de diretores lusófonos, colóquios, conferências etc. Foi uma semana intensa, provocativa, afetiva.

A querida leitora, o caro leitor, sabem que toda experiência artística me provoca reflexões. No caso, lanço o olhar sobre os festivais, seus objetivos, desafios e padeceres, a partir de um exemplo singular, um encontro que se propõe a reunir todos os países de língua lusófona através do teatro – no caso da edição 2016, Brasil (Piauí, Bahia, Ceará e Rio de Janeiro), Portugal, Cabo Verde, Angola, Moçambique e São Tomé e Príncipe.

A primeira angústia emerge do enlace da realidade do FestLuso com a grande maioria dos festivais de teatro brasileiros: a falta de apoio continuado, tornando a edição seguinte uma mescla de sonho, desafio e abnegação. Com raríssimas exceções, todo festival brasileiro que se finda vive o dilema de não fazer ideia de como promoverá o vindouro, fator de comprometimento agudo no que tange à qualidade da programação, ao recorte curatorial, aos provocadores convidados, e a todo o entretecido que forma um festival de qualidade. É fácil colocar o olhar crítico durante, quando não se conhece o período de pré-produção dispensado possível, tendo em vista que algumas experiências chegam ao lançamento com promessas políticas e conta vazia.

Outro apontamento é quanto ao principal equipamento teatral da cidade, o Teatro 4 de Setembro, palco central da mostra lusófona e que, por coincidência, nos recebeu na semana anterior para a apresentação de Velhos caem do céu como canivetes, pelo SESC Amazônia das Artes. É urgente remediar o problema acústico provocado pela instalação de um número inimaginável de spliters em substituição à central de ar-condicionado anterior. Se a casa já não era de uma acústica impecável – apresentamos “Ramanda e Rudá”, em 1999 – agora transformou-se em um sumidouro de vozes, e nada que seja dito no palco consegue se ouvir se você estiver a partir da quinta fileira da plateia.

Observados esses dois problemas que perpassaram toda a mostra, ressalvo alguns pontos que valem a reflexão crítica, e me provocam como convidado e permanente colaborador deste querido festival. Quanto à necessidade de haver um recorte curatorial específico – neste ano versou sobre a negritude e suas ramificações – o comentário atento de Jorge Choairy ao ouvir meus relatos deu o tom da provocação: o ser lusófono já não é um recorte significativo como para somar recortes específicos? É uma questão que penso que valha ser analisada, sob pena de inviabilizar uma produção potente.

Certamente, a diferença mais significativa em relação às edições anteriores que acompanhei, foi a realização do NORTEA, deslocada sua 5ª edição do FILTE Bahia – Festival Latino-americano de Teatro da Bahia para o FestLuso. Se nos anos anteriores era reservada uma manhã para o encontro de diretores lusófonos, este ano todo o período matutino do festival dedicou importante espaço para a problematização do teatro, seu fazer e dizeres. Um diálogo intenso foi travado durante toda a jornada, oxigenando a mostra e ampliando seu alcance reflexivo. Penso que uma maior presença deveria ser cobrada dos grupos participantes em todas as atividades formativas e reflexivas, como contrapartida ao esforço da organização em viabilizar o intercâmbio. Essa participação auxiliaria no mapeamento dos grupos, suas estruturas e formas de manutenção artística.

Quanto à mostra propriamente dita, o recorte lusofônico promove um desnivelamento qualitativo significativo, fazendo o espectador transitar por estéticas e linguagens atípicas, ora seja por contingenciamento econômico evidente, ora pela peculiaridade da construção desenvolvida naquele país. No geral, percebe-se que há um esforço conjunto, por parte da produção e dos grupos convidados, para conseguir manter de pé uma proposta tão autêntica e tão na contramão do mercado cultural; e estendê-la para todo o estado, pois a mostra se ramifica por outros municípios do Piauí, alargando o alcance dos recursos públicos envolvidos.

O encerramento da programação de cada dia acontecia no espaço Trilhos. O encontro dava o tom afetivo que o festival propõe. Toda noite, músicos dos mais diversos estilos, desfilavam seus sons para uma plateia feita de pessoas de todas as artes. Movimentos, conversas, performances espontâneas, discursos, improvisos, integravam realidades de países tão distintos ligados pela língua, em alguns casos, literalmente.

Foi uma experiência deliciosa e exaustiva (me propus acompanhar todos os espetáculos da mostra e todas as atividades reflexivas, tornando a rotina diária uma jornada que começava às 9h e terminava às 3h.), e em cada momento, em cada canto, em cada diálogo a certeza da potência que encontros artísticos dessa natureza têm para ajudar a confrontar momentos tão duros como os que estamos enfrentando atualmente. Os afetos envolvidos também me tornam suspeito, mas quero acreditar que, ao enfrentar um desafio tão instigante quanto o FestLuso oferece, todos os envolvidos – organizadores, artistas e voluntários – estão empenhados em superar-se, ano após ano, na busca de produzir o melhor festival possível para a comunidade piauiense.  

domingo, 28 de agosto de 2016

As tolas palavras de um charlatão


A falta de reflexão crítica é o principal fator que amarra o desenvolvimento da cena teatral maranhense. Falo da nossa aldeia por não possuir nenhum fundamento para alargar a análise além das fronteiras do nosso umbigo. Nossa produção só adquirirá uma potência que extrapole as fronteiras do nosso estado quando tivermos condições de enxergar a nossa mediocridade e, a partir desse exercício, provocar nossa criatividade na busca da excelência que o teatro exige, pois, arte não admite meio-termo.

Nossa dificuldade em lidar com a crítica (tomo o termo em sentido único, pois não acredito em crítica destrutiva, por menos favorável que ela seja) vem entorpecendo a análise de nossa produção. E assim, fomos nos tornando uma classe corporativa, onde elogios superficiais abundam e tudo o que vemos é genial – mesmo que uma simples virada de costas desconstrua a opinião inicial, e retornemos para o nosso ego vociferando a real opinião.

Se você precisar de um companheiro para admitir, eu ajudo. Desde minha adolescência venho lutando com a dificuldade de assimilar as críticas no que se refere ao meu fazer teatral, e, frequentemente, me observo estruturando um discurso de compreensão para abafar minha dolorosa labuta com esse exercício. Por quê? Porque alguns artistas (estou lhe dando a chance de se isentar) lidam com o fantasma da mediocridade, a pretensão da genialidade, com a vontade de estar fazendo algo relevante, com a utopia de mudar o mundo. Só consegui começar a entender a função das críticas quando comecei a admitir os meus fracassos. Ainda estou tentando.

Nós temos a liberdade de fazer uma reflexão crítica sobre o trabalho de algum colega e expô-la sem constrangimento? Estamos preparados para ouvir uma reflexão crítica do nosso colega e recebê-la sem constrangimento? Arrisco a dizer que não, e, por isso, ouvimos, repetimos e institucionalizamos os acenos de parabéns, bravos e uhus. Maravilhoso, genial e fantástico também são adjetivações comuns. Menos. Enxerguemos o lugar do teatro maranhense na cena teatral brasileira dos últimos trinta anos e perceberemos que nosso autoelogio não contribuiu em nada para o amadurecimento do nosso fazer.

Hoje escrevo no contexto do FestLuso – Festival de Teatro Lusófono, em Teresina, dentro do NORTEA – Núcleo de Pesquisadores Teatrais do Nordeste, fórum propício para oxigenar o pensamento, para exercitar a humildade, para identificar nossas falências, para tentar entender nosso lugar na cena, para perceber a nocividade da vaidade artística – tema da minha próxima postagem. Aqui, o exercício da reflexão permanente se estabeleceu, propiciando-me o tempo e a distância necessária para enxergar o óbvio.

Não saberia diagnosticar por que nos tornamos essa fonte inesgotável de hipocrisias. Só tenho suspeitas. A primeira passa pelo afeto. Ao não estar preparado para sofrer críticas (a utilização do verbo sofrer não é gratuita) nos precavemos elogiando os nossos pares, por receio de que o efeito desta seja o mesmo que sentimos quando criticados, e com isso, deixamos de estabelecer parâmetros reflexivos para o artista que espera (ou deveria esperar) a verdade do nosso olhar perante a obra apresentada.

Precisamos admitir isto, sobre pena de cairmos no ostracismo artístico, retroalimentando nosso egocentrismo. Quem de nós já teve a coragem de dar, sem receio, uma opinião verdadeira perante o olhar afetuoso, fraterno e esperançoso do artista amigo que a espera, como se esta fosse a sentença definitiva para a obra em questão? Reflexão crítica, opinião, ponto de vista, impressão: é apenas isso. O meu olhar não refletirá a verdade, mas a negação de um olhar verdadeiro refletirá na trajetória do espetáculo, pois, o silêncio esconderá o contraponto necessário para os vivas, aplausos e loas.

Precisamos ser mais amigos. Mais sinceros. Mais delicados. Mais dedicados. Precisamos entender que a arte não resiste sem verdade, e que a verdade é fundamental para a análise de qualquer obra, pois os diversos e múltiplos olhares ajudam a reorganizá-la. Não é possível que sejamos assim com nossos amigos. Digamos a verdade, ou admitamos que não estamos em condições de dizê-la pelo envolvimento afetivo com o interlocutor. Desconfiemos se só ouvimos elogios. Cobremos a honestidade dos próximos, dos pares.

Mesclo a condição de artista e espectador propositadamente, pois em um estado onde não há reflexão crítica formal, onde os meios de comunicação só se dedicam a reproduzir releases, nós cumprimos essa dupla função, mesmo que a contragosto. A recente passagem de Beth Néspoli e Kil Abreu pela Semana do Teatro no Maranhão foi fundamental para sinalizar os caminhos de uma reflexão crítica delicada, produtiva, atenta, dedicada; contudo, conseguimos perceber a importância e reavaliamos nosso posicionamento quanto à forma de receber diferentes opiniões? Espero que sim. Espero que eu esteja totalmente errado, que seja o único que tenha dificuldade em lidar com críticas, que seja o único que omita sua real opinião, que a realidade da cena maranhense seja apenas um problema sócio-político-cultural, e não tenha nada a ver com falta de autocrítica. Tomara. Dessa maneira, bastaria me banir e todos viveriam felizes para sempre.