domingo, 11 de junho de 2017

Teatro de grupo, IDH e um país desgovernado


Semana passada encerrei minha participação no SESC Dramaturgias, nas cidades de Caxias/MA, Vitória/ES e Maceió/AL, com uma oficina de escrita dramatúrgica, sobre a qual versei muito por aqui. Foram dois meses, entre idas e vindas, e cento e duas horas de atividade, onde facilitei a forma de adaptação aplicada pela Pequena Companhia de Teatro nos seus últimos dois espetáculos, e no próximo, que está em gestação.
Coincidentemente o projeto me levou para as Alagoas, e não menos coincidiu a conversa com um amigo sobre os índices de desenvolvimento humano do país. Dando uma pesquisada virtual, qual foi a nossa surpresa – leia um texto sobre ironia aqui – ao constatarmos que Maranhão, Piauí, Pará e Alagoas encabeçam o ranque dos piores IDHs brasileiros. A conversa nada teria de singular, não fosse o momento de reflexão em que me encontro e a dificuldade do país de se encontrar.
Como um grupo de teatro maranhense – que decidiu atuar em um país que sinaliza com o desmanche da cultura como estratégia de progresso – sobreviverá nos próximos anos estando na periferia do desenvolvimento humano, na vanguarda do atraso, no fim da fila na lembrança dos eixos hegemônicos que controlam a cultura do país?
Esse é o desafio atual da Pequena Companhia de Teatro, que atende pelo apodo de visão estratégica – a ser desenvolvida na busca de opções além do óbvio, fora da curva; alternativas que atravessem os mecanismos da nossa expertise e desemboquem em soluções menos ortodoxas.
Até aqui, a sensação é a de que são apenas palavras bonitas. Um indivíduo, um corpo, uma célula, não sobrevive sem o seu entorno, por mais visão estratégica que tente desenvolver. Qualquer lógica individual sempre será moldada, afetada ou massacrada pelo coletivo, pelo país que habita, pelo sistema que a governa, pela esfera onde circula. É impossível ser criativo se o modelo de gestão entende a cultura como mercado enquanto o criador entende como instrumento de transformação sócio-político-cultural a longo prazo.
Uma diretriz nossa, que norteou a trajetória da Pequena desde sua fundação, foi a de entender o grupo inserido na produção do país, extrapolando as fronteiras da província, pois a interlocução apenas com o nosso estado não seria suficiente para garantir a nossa sustentabilidade criativa, financeira e dialógica. É essa certeza que acentua o nosso desafio quando entendemos que estamos inseridos em um estado de origem pouco acessado como referência de produção teatral, reflexo naturalmente do contexto social que indica o índice que mencionei acima.
Essa triste realidade é comprovada pela nossa própria trajetória, quando fomos o primeiro grupo maranhense a participar de diversos projetos, chamamentos, festivais e editais – inclusive agora, quando finalizo o SESC Dramaturgias como o primeiro maranhense a participar do projeto como facilitador –, fato que devia nos orgulhar, mas que na verdade aponta para a dificuldade de penetração da produção teatral e do pensamento artístico maranhense na cena brasileira.
Exponho essa condição por saber que há inúmeros grupos de teatro pelo país tentando resolver a mesma equação e achando ser o único que está pensando nisso. O que talvez difira da nossa condição seja a posição que ocupa o estado desses grupos no ranque do IDH. Quando o índice de desenvolvimento humano é tão precário, a possibilidade de um olhar mais atento, mais inteligente, mais delicado para com as artes é quase inexistente, pois, as prioridades se acavalam galopantes diante da nossa miséria. Por consequência, conseguir os holofotes do Brasil além de degolas, lagoas, capitanias hereditárias e bumba-meu-boi é uma tarefa hercúlea.
O problemático é saber que dependemos disso. A Pequena Companhia de Teatro não sobrevive sem o Brasil, e o Brasil de hoje está encarregado de exterminar a Pequena Companhia de Teatro e todo e qualquer grupo de teatro do país. O que dá maior ou menor resistência a esses grupos é o índice de desenvolvimento humano do estado de origem. As dificuldades são as mesmas, mas um coletivo que opera em um estado mais desenvolvido e, por consequência, com maior poder hegemônico, naturalmente estará mais próximo do foco daquele holofote, sobrando para nós a penumbra, e a esperança de que os responsáveis pela direção do olhar o ajustem para a sombra, como aconteceu na última década.
Nada trago de novo que não haja vivido nestes quase trinta anos de fazer teatral. A diferença é que durante essas três décadas transitei pela impossibilidade de viver de teatro, pela esperança de que fosse possível, até desembarca na realidade de viver do ofício sem a necessidade de forjar outro ofício complementar que legitimasse o primeiro. Agora, enquanto espremo meu juízo na busca de alternativas estratégias, fórmulas escalafobéticas, mirabolâncias engenhóticas, suspeito ter caído no conto do vigário. Os onze anos de trajetória ininterrupta da Pequena Companhia de Teatro se contrapõem a essa suspeita.

domingo, 21 de maio de 2017

Uma pequena volta por Campo Grande


Na próxima terça-feira a Pequena Companhia de Teatro retorna a Campo Grande, cidade ocupada com nossas atividades artísticas em 2016, através do Programa Petrobras Distribuidora de Cultura. Fomos convidados para participar do Projeto Boca de Cena – Mostra Sul-Mato-Grossense de Teatro e Circo e passaremos toda a semana em terras campo-grandenses. Ministraremos a oficina O Quadro de Antagônicos como instrumento de treinamento para o ator, participarei de uma mesa redonda sobre resistência teatral em tempos de crise e encerraremos nossa participação com uma apresentação do espetáculo Velhos caem do céu como canivetes.
Nosso trabalho no decorrer da última década se pautou no compromisso com o fortalecimento do teatro de grupo, na seriedade com que encaramos nossos projetos artísticos, e na honestidade que apresentaram nossos resultados. O curioso do convite é que saímos de Campo Grande com a certeza de que tínhamos feito um trabalho significativo e contribuído, de alguma maneira, para o fortalecimento da cena teatral local. Foi uma sensação coletiva, pois, ao deixar a cidade, os quatro sentiram que se efetivara a troca; e tudo o que o teatro opera, naquele momento, fazia muito sentido para nós. Mas, como toda certeza é uma dúvida em forma de esperança, o chamado da Fundação de Cultura do Mato Grosso do Sul serviu para confirmar o efeito da nossa passagem, e para propiciar um novo momento para a troca de experiências.
Dos encontros improváveis que a arte proporciona, Campo Grande receberá, em menos de um ano, os dois espetáculos do nosso repertório, as duas oficinas basilares da nossa construção cênica, e pílulas das reflexões que o blog da Pequena Companhia de Teatro procura provocar (assim como a oficina que facilitarei em Natal, a mesa redonda citada acima é outra atividade provocada pelo teimoso exercício de ancorar o pensamento aqui), criando o ambiente oportuno para que a comunidade local estabeleça um contato direto com a formatação do nosso grupo, os mecanismos de encenação, nosso posicionamento político, os meios de financiamento, nossas opções estéticas, os métodos para suportar a fome, os caminhos de treinamento para o ator etc. Apesar do permanente e profícuo atravessamento geográfico que os grupos de teatro brasileiros efetivam anualmente, não é comum uma cidade ter contato pleno com todo o fazer teatral de um coletivo, por isso defendemos e aplicamos, quando possível, o conceito de ocupação alargada, já realizado em Sousa/PB, Goiânia/GO, Primavera do Leste/MT, Campo Grande/MS e, em julho próximo, Fortaleza/CE, quando ocuparemos o CCBNB durante duas semanas com a maioria das nossas atividades artísticas.
Claro que a atual conjuntura político-brasileira, e o conceito derivado dessa para as políticas público-culturais – que atende pela alcunha de desmonte – compromete, significativamente, nosso projeto artístico, pois, sem um olhar sensível do poder público, qualquer iniciativa passa a ser regida pelo canibalismo do mercado e nessa seara somo meros cordeirinhos. Portanto, inciativas como a da prefeitura de Campo Grande, focada em propiciar a fruição teatral para sua comunidade, também contribui para a resistência do teatro de grupo, ao promover uma mostra teatral, quando a nova ordem sugere que artistas devem pensar em arrumar trabalho – leia o contraponto que fiz aqui a esse chiste de mau gosto.
A atenta leitora, o cuidadoso leitor, já devem ter percebido o quanto a palavra resistência tem se repetido neste nosso muro das revoluções. Essa reiteração ocorre porque – mesmo que você não saiba, e que nenhum meio de comunicação divulgue – o teatro de grupo do país, e a arte de um modo geral, vem sofrendo uma profunda desconstrução estrutural, surda, capciosa, corrosiva, e a principal arma de que dispomos para o enfrentamento é a resistência. Resistindo vamos, teatralizando, de volta a Campo Grande.

domingo, 14 de maio de 2017

Caneta e papel: a resistência da escrita

Na última quinta-feira encerramos o 1º encontro do SESC Dramaturgias, em Maceió/AL, depois de ter passado por Caxias/MA e Vitória/ES. Foram 16h de atividade em cada uma das cidades, instrumentalizando o participante para a produção de escrita dramatúrgica, a partir da profunda análise de gêneros literários, do mergulho nas características do gênero dramático, da democratização do processo de transposição de gêneros da Pequena Companhia de Teatro, e da problematização sobre a preponderância da narrativização no teatro contemporâneo.
Coincidentemente, já havia passado com espetáculos e oficinas nas três cidades que visitei; isso me proporcionou o confronto das realidades, produções e problemas, em um intervalo aproximado de cinco anos, com exceção de Caxias, que visitei com maior frequência. É difícil não observar que, pese aos esforços pontuais de iniciativas que resistem, os problemas perduram, e meia década depois, assim como a realidade ludovicense, não posso afirmar que houve avanços significativos entre o que havia e o que hoje está posto. Nas discussões que perpassaram todas as horas de atividade, foram recorrentes as queixas quanto à minguada produção teatral, a desestruturação de políticas públicas culturais, a dificuldade de conseguir financiamento artístico, a carência de oferta de atividades formativas, e a recorrência de se enxergar o SESC como um ator importante mas não suficiente para sanar as demandas emergenciais de uma classe teatral que tende a definhar ainda mais com a nova ordem estabelecida nacionalmente no que se refere a arte: o desmonte.
Ainda assim, foi gratificante perceber que os que ali estavam para dialogar, cerca de cinquenta dedicados interlocutores, conservavam a força oriunda da resistência cultural – condição presente no DNA de qualquer artista que seja forjado em um país que desconsidera, permanentemente, o poder de transformação sociopolítica da cultura. Esses queridos companheiros de jornada dramatúrgica mantiveram acesa a chama do diálogo, e provocaram seus conhecimentos, ao permitir-se horas de intenso estudo, sem negligenciar o necessário estado de atenção frente ao mundo que nos cerca.
Após esse nosso primeiro momento, onde foram facilitadas as informações e técnicas necessárias para o avanço da atividade, todos os participantes encontram-se agora no processo de escritura de uma peça teatral a partir de uma obra de outro gênero literário; e a oficina pretende que, ao fim, todos os participantes tenham desenvolvido um texto de curta, média ou longa extensão. No decorrer dessa produção, vou acompanhando virtualmente o desenvolvimento de cada um dos projetos dramatúrgicos, verificando os caminhos e os descaminhos que se apresentarem durante a trajetória. Isso continuará até o nosso próximo encontro, pois, como versei aqui, o SESC Dramaturgias prevê o retorno do oficineiro à cidade visitada. Sendo assim, outras 16h, nos três municípios, pretendem possibilitar a prática com a presença do facilitador, onde acompanharei a feitura e finalização de cada um dos textos, dirimindo ruídos que tenham perdurando durante o primeiro encontro.
O projeto terá sequência nesta segunda-feira, quando parto para Caxias/MA, primeira cidade que visitei com a oficina de escrita dramatúrgica. Com a metade que me cabe do SESC Dramaturgias concluído, posso dizer que toda ação de cunho formativo tem marcante repercussão na comunidade artística onde é realizada, pois aciona dizeres e desejos muitas vezes escondidos em lugares recônditos da alma humana, e que, quando provocados, se apresentam com a potência, prontidão e espanto matriciais para a criação artística. Tomara que tudo seja, permaneça, aconteça, recomece, resista...  

domingo, 7 de maio de 2017

Dram Act Urge


Queria ter a clareza das grandes certezas: a morte, a vida, o sabor irretocável do presunto cru. Queria o amigo da sentença absoluta; queria saber sem duvidar; queria que alguém me dissesse, com absoluta certeza, quem nasceu primeiro, se o ovo ou a galinha; alguém que sentenciasse o sexo dos anjos; queria a resposta para a pergunta de alguns anos atrás: com quantos paus se faz uma canoa? Mas não. Tudo na vida é dúvida, incerteza, cambaleio, titubeio.
Sempre que embarco em uma jornada dialética como a que me propuseram para estes dias, com o SESC Dramaturgias, me deparo com a fragilidade das minhas certezas, com a pretensão dos meus saberes, com o embaraço dos meus pavoneios, com a vaidade camuflada e suas idiossincrasias. Como sou encenador por ofício, as poucas certezas que carrego estão relacionadas a essa prática, o mais é penumbra, desassossego.
Essa sensação faz como que a exposição provocada por uma atividade formativa faça emergir um torvelinho de inquietações que servem para temperar o pensamento, conduzir o procedimento, equilibrar o diálogo, domar os excessos e transformar o encontro em troca e o exercício em aprendizado.
O tempo que me trouxe até estas paragens – longos anos em busca de um fazer teatral honesto e orgânico – me fez constatar o quanto o conhecimento pode ser um perigoso instrumento de poder, e como esse poder é muitas vezes utilizado como mecanismo de opressão. Minha luta sempre se estabeleceu na tentativa de jamais cortejar esse poder, nem ciceronear aqueles que entendem o conhecimento como propriedade. Se a alma não é generosa, a exploração que o poder pode provocar é nefasta.
Por isso a experiência artística é tão provocadora. Os enlaces que ocorrem em uma oficina de cunho artístico como a que estou facilitando vão muito além das estruturas formais organizadas, e transitam por um ambiente muito mais amável, franco, desafiador, gerando o terreno oportuno para a troca desinteressada, o fortalecimento do diálogo, a amabilidade dos pares; diluindo graciosamente todas as dúvidas que apresentei no prólogo, e reforçando a suspeita de que este é o lugar onde eu deveria estar hoje, ontem, e onde se apresente a oportunidade de desenvolver uma boa conversa.
Já ministrei oficinas em 27 cidade de 14 estados, acredite. E em todos esses encontros a sensação primária de abismo perdurou pelo tempo que separa o convite do encontro. Quando o encontro acontece, emerge o cálido palpite de estarmos, juntos, construindo algo novo, fora da curva; provocando as estruturas, transformando o inequívoco, idealizando um mundo novo, outro, que o da realidade que hoje nos oprime e aflige – principalmente quando o presente do país que habitamos é tão dilacerantemente medonho. Uma personagem de um texto de Wilson Coêlho – querido amigo que este projeto possibilitou reencontrar –, cujo título roubei para titular esta postagem, diz; “me parece que os equívocos somente existem para os idealistas”. Talvez eu esteja totalmente equivocado, idealista que sou, e nossas ações, encontros, discussões, não reponham uma única mordida deste abocanhado Brasil. Mas, pelo menos, tenho o privilégio de saber que os equívocos existem – parafraseando a personagem Dram –, e que de tanto errar, quem sabe um dia, possamos acertar a mão e construir um lugar ideal. São só dúvidas, suspeitas, palpites, desejos.  A única certeza que perdura, encontro a encontro, é a de que sempre aprendi mais do que ensinei.

sábado, 29 de abril de 2017

Ilhas de encontros em um mar de desencontros

 
O primeiro encontro de 16h com os participantes do SESC Dramaturgias em Caxias/MA – serão dois, conforme expliquei aqui – encerrou na quinta, e enquanto me preparo para seguir viagem rumo a Vitória/ES e Maceió/AL, depois de amanhã, repasso na cabeça as marcas deixadas pela experiência e as indagações provindas dessa jornada.  
Toda atividade formativa, seja oficina, curso, vivência, imersão, minicurso, workshop (sic), propõe um repasse de práticas, teorizações, metodologias, experimentos, postulações e pulsações de alguém que se pressupõe cumprir os pré-requisitos para atender as demandas da clientela que o espera – aplicado vertical ou horizontalmente, dependendo da proposta do facilitador –, e as consequências dessa natural troca são avaliadas de diversas maneiras pela comunidade que o recebe; no decorrer da atividade, em bate-papos informais ou na cordial conversa de encerramento, mas, principalmente, depois da partida do dito cujo; quando a volta à rotina da classe artística local faz com que se efetive, no tête-à-tête, a real e implacável avaliação do bardo. Porém, raramente temos acesso aos resultados, transformações, devaneios, daquele que promove o repasse, e quando existem, ficam confinados em formais relatórios de conclusão, arquivados nos anais da desmemoria.


Por esse motivo me proponho a mostrar o outro lado, e revelar o que se passa pela cabeça daquele que vai e carrega consigo as marcas da experiência, a carga do forasteiro, o desafio de ter invadido uma realidade que não é a sua e ser o ilustre desconhecido apresentado por algumas laudas de currículo.
A primeira sensação que me toma é a de que todo encontro é uma ilha em um oceano de desencontros. Toda atividade formativa, quando realizada fora da comunidade onde o ministrante atua – e já passei por essa situação inúmeras vezes –, expressa em sua gênese a minúscula probabilidade de que esse encontro se repita, e esse que vai, carrega sempre consigo o desejo de retornar e a certeza da improbabilidade.
Essa é a marca inaugural deixada em mim com a primeira experiência no SESC Dramaturgias. Como o projeto agora propõe o retorno do ministrante, depois de mais ou menos um mês, para um novo encontro de 16h, a sensação da partida foi particularmente diferente de todos os experimentos formativos que me propus realizar durante os últimos vinte anos. Poder retornar, prontamente, para perceber ruídos, poder acompanhar se efetivamente se verifica alguma contribuição significativa na formação do participante, poder receber impressões presenciais dos problemas, me fez transitar pelos 362km que separam Caxias de São Luís, com um singelo contentamento substituindo a escamoteada angústia, pois sei que voltarei.
Aquele olhar de dúvida que não percebi terá uma segunda chance. Aquela certeza de entendimento que se esvai em uma prática mais aprofundada terá uma segunda chance. Aquela confidência de incompreensão que foi calada terá uma segunda chance. Aquela atenção que não dei, por descuido, terá uma segunda chance.
Claro que muitas vezes retornei à mesma cidade depois de visitá-la com algum projeto artístico, e criei laços profundos que se sustentam até hoje – inclusive em Caxias, onde apresentamos os dois últimos espetáculos da Pequena Companhia de Teatro –, mas em todos esses casos as motivações do retorno foram fortuitas, afetivas, desavisadas. Aqui, não. O projeto tem o cuidado formal e a delicadeza de garantir esse privilégio para oficinados e oficineiros, sem que eles tenham que contar com a sorte de que esse oceano de desencontros se abra para que passe um novo encontro.
Começou agora. Mas, a primeira marca já está cravada na pele deste pelejador teatral, forjado a cada encontro, a cada abraço, a cada papo, a cada troca, a cada partida, a cada retorno... Agradeço ao SESC por essa singela marca. E para os vinte e quatro consortes que participaram da oficina, e tanto discutiram sobre gêneros literários, perdoem o excesso de lirismo que tomou conta desta narrativa. Nos vemos em breve!

domingo, 23 de abril de 2017

A Pequena no SESC Dramaturgias

 
Amanhã parto para Caxias/MA. Fui convidado para participar do SESC Dramaturgias, um dos principais projetos de pensamento e difusão das plurais dramaturgias pesquisadas atualmente. Visitarei ainda neste primeiro semestre as cidades de Vitória/ES e Maceió/AL, com a oficina Do narrativo ao dramático: a transposição de gêneros como instrumento de confecção de dramaturgia, metodologia criada pela Pequena Companhia de Teatro para a produção de dramaturgia quando o conteúdo de dizeres para a encenação teatral encontra-se disponível em um texto que não é do gênero dramático, seja ele de qualquer outro gênero literário ou textual.   
O projeto me é caro, pois, ao expandir o conceito de dramaturgia, vai de encontro ao pensamento do Teatro Polidramático que a Pequena vem desenvolvendo há alguns anos, e que se sustenta na ideia de que todo aquele organismo cênico que for capaz de construir uma narrativa poderá ser instrumento de dramaturgia, seja ela basilar ou estruturalmente auxiliar a uma dramaturgia principal.
O diferencial expressivo deste projeto em relação a outros que a Pequena Companhia participou ou promoveu, é se tratar de uma atividade formativa com carga horária extensa, de 32 horas/aula. Esse alargamento do tempo de troca retumbará significativamente no aprofundamento de todo e qualquer conteúdo que os diferentes artistas convidados do SESC Dramaturgias proponham, possibilitando uma colheita muito mais pujante que a conseguida com atividades de menor carga horária. Ainda, o participante que se propõe ao intercâmbio, tem a oportunidade de acentuar o estudo e intensificar a prática metodológica da vez, confrontando experiências anteriores e expandindo sua vivência.
Outra virtude é que o projeto prevê dois encontros de 16h, com um intervalo de várias semanas entre um e outro. Essa ideia me é singularmente provocativa, pois promove um tempo de maturação do conteúdo e de prática real para o artista que participa da oficina, oferecendo o tempo e a empiria necessária para os contraditos, as ressalvas, as antíteses; colocando o facilitador frente a frente com possíveis falências reveladas no encontro anterior – diferentemente de  atividades de tiro único, quando o participante fica sem a possibilidade de esclarecer dúvidas provocadas pela tentativa de aplicar o conteúdo sem o acompanhamento necessário de que o preconiza. O conceito exige robustez do oficineiro, sendo que é confrontado com qualquer descaminho que suas proposições não tenham previsto, possibilitando a permanente revisão, tão necessária para a plena consolidação de qualquer postulação.
O SESC Dramaturgias foca investigação em escrita dramatúrgica, dramaturgia do ator, da dança, do circo, da iluminação, afora leituras em cena; e o convite que me foi feito concentrará seu conteúdo na escrita dramatúrgica através da transposição de gêneros literários, experiência que alguns leitores deste blog já vivenciaram em diferentes momentos do nosso calendário de atividades formativas. O que diferirá de experiências anteriores – além do tempo que oportunizará um aprofundamento muito mais significativo – é que somo à atividade a provocação/problematização que tenho feito em palestras e convites para conversas e mesas redondas, assentada na postagem recente que fiz aqui, sobre o excesso de narrativização do teatro contemporâneo.
Como primeiro maranhense a participar do projeto como facilitador, em todos esses anos de SESC Dramaturgias, entendo que o diálogo fortalecerá a capilarização de uma série de escritas cênicas que estão sendo desenvolvidas no Maranhão, e que, por periféricas geograficamente, não conseguem transpor as barreiras impostas pelas regiões detentoras da agenda cultural do país – repare você, arguciosa leitora, astuto leitor, que falo apenas de agenda cultural, pois, a cultura brasileira é tão plural e rica que não admite centros. Mais uma vez o SESC assume um papel capital em favor da descentralização do pensamento, da democratização dos múltiplos fazeres, do intercâmbio nacional e do abrandamento dos eixos hegemônicos.
Claro que o que aqui escrevo são meras impressões do porvir, porque amanhã apenas inicio minha jornada de encontros, aprendizados, desafios, provocações, registros, conversas, trocas, revezes, discussões e estudos. A única certeza é que você poderá acompanhar o desenvolvimento da empreitada no mesmo endereço de sempre – um blog que acumula 541 textos, 1.309 comentários e 7 anos de extensa inutilidade.

domingo, 16 de abril de 2017

H(á) poesia na rua do Giz


Um querido amigo – prosista de estimada destreza –, em uma das nossas intermináveis conversas, queixava-se da falta de poesia do mundo contemporâneo. De fato, o mundo vem perdendo sua capacidade poética, além de naufragar em incompreensões de metáforas, ironias, paródias, hipérboles...
No momento em que o mundo anda tão polarizado, não há espaço para sutilezas, e tudo é preto ou branco, macho ou fêmea, esquerda ou direita, conhecimento ou ignorância, virtude ou defeito – um Quadro de Antagônicos Social, se me permitem a propaganda. Essa realidade cristaliza uma contemporaneidade repleta de cruezas, escancaramentos e obviedades, embrutecendo e emburrecendo o interlocutor e conduzindo-o a uma incapacidade de ler além do óbvio, de perceber as transversalidades, de elucidar um discurso metafórico, de alargar o diálogo além da dureza de verdades e mentiras.
Naturalmente, e como deve ser, a arte também padece desse sintoma, e o teatro não é a exceção que confirmaria a regra, como eu gostaria que fosse. Essa constatação provoca meu pensamento e atenta ao fato de encontrarmos hoje no teatro um lugar de rigidez, sobriedade, objetivismo e sequidão jamais vista. Esse presente cruel afoga a possibilidade de construir um fazer teatral mais intrincado, abstruso, complexo, sofisticado (atualmente usar essa palavra é quase uma obscenidade), e ao não dialogar com o entorno corre-se o risco de receber a pecha de anacrônico.
O que estamos perdendo ao transformar uma arte que se valia do símbolo, da ironia, das camadas de leitura, da transversalidade, em uma arte de discurso direto (o trocadilho que faço com a principal característica do gênero dramático é proposital)? O teatro sempre exigiu do espectador uma prontidão maior do que a do dia-a-dia, e todo frequentador sabia que o encontro teatral desafiaria sua percepção ao construir um universo repleto de metáforas, ironias, escamoteações, acidezes, quiproquós – uso uma palavra como essa e ainda não quero pagar de arcaico. Ao tornarmo-nos replicadores de uma realidade nua e crua não estaremos reduzindo o poder transformador social do teatro? É necessário perder a ternura? O mundo não acaba ficando enfadonho sem poesia?
Toda onda deve servir de alerta, principalmente para nós, artistas de teatro, que temos como única arma o emparelhamento e espelhamento – distorcido ou real – da vida. Penso que quanto maior a crueza contemporânea, maior devia ser a nossa exigência em nos desafiarmos na construção de um discurso menos óbvio, pois, o que é dito com destreza perdura, e o que é dito com simplismo se dilui com a mesma potência com que se projetou. Não me canso de acreditar que ainda há lugar para um dizer desafiador, carregado de significados, provocativo, incendiado pelo poder de afrontamento e confronto que ele possui, pois sabemos que o discurso robustecido já dobrou reis, generais e presidentes.
Falta poesia. Tudo está muito frio, cru, direto, seco, óbvio, concreto, real. Não deixemos que o teatro perca seu quê de lúdico, lírico, lúcido. Acreditemos que é possível contestar, provocar, refletir, indagar, renegar com a faca nos dentes, porém, montados em um unicórnio azul. Todas as atrocidades do mundo não bastam para acabar com uma única poesia. Todos os palavrões do mundo não têm o poder de uma única metáfora. Todas as leis do universo se esvaem perante uma simples ironia. Toda certeza se curva diante da primeira pergunta.
A Pequena Companhia de Teatro segue fiel a esse compromisso. Ao trabalharmos na adaptação do conto “A outra morte”, de Borges, sabemos que nossa intenção é provocar uma reflexão além do pequeno horizonte, e também sabemos o preço que pagamos nos últimos dez anos por esse exercício. Claro que não estamos isentos, e todo início de processo nos apresenta uma série de caminhos engajados, antenados, contemporâneos, para, durante a depuração do todo, se chegar ao que realmente nos interessa. Nem sempre é o que interessa ao novo. Nem sempre é o que interessa ao mercado. Nem sempre é o que interessa à espetacularização. Mas, sempre acreditamos que seja o que interessa ao espectador, único motor dessa máquina chamada teatro.
Os mais severos poderão argumentar que advogo em causa própria. Nesse caso, para salvaguardar meus argumentos, volto-me para o amigo espectador que motivou esta postagem: há quem ache que falta poesia no mundo contemporâneo. Tratando-se da Pequena Companhia de Teatro, não há o que temer, pois, não pode faltar poesia em uma companhia cujo endereço seja: Rua do Giz.
 

domingo, 9 de abril de 2017

Sede, ou não ter? Eis a questão.


Sábado retrasado, dia primeiro de abril, completamos quatro anos de sede própria – sim, esta era a postagem da semana passada que a preguiça não me deixou concluir. Exatamente nesse dia, em 2013, iniciávamos os ensaios do espetáculo Velhos caem do céu como canivetes, e fruíamos pela primeira vez de uma independência espacial almejada há anos.
Sempre suspeitamos que ter sede própria não garantiria uma fonte de renda direta, e sim, indireta. Desde muito antes de adquirirmos o casarão, entendíamos que pensar o teatro como espaço de locação – imaginando ser possível usufruir financeiramente dessa vantagem – era um dos graves equívocos que cometiam os grupos que almejavam ter um lugar seu, pois são raríssimos os exemplos em que espaços se auto sustentam ao ponto de superar as próprias despesas de manutenção.
O que sim entendíamos como uma grande fonte de renda indireta era a autonomia que o grupo ganharia ao dispor de um ambiente próprio para a experimentação artística, potencializando o nosso fazer, alargando a produção, e como isso, aumentando nossos ganhos indiretamente – partindo do princípio de que, quanto maior a qualidade artística desenvolvida, maior o número de convites e contratos firmando no decorrer do ano.
Quatro anos depois, todas essas suspeitas se confirmaram. A grande virtude de ter sede própria é, sem dúvida, a autonomia criativa, a independente espacialidade, a possibilidade de experimentação ilimitada, e a certeza de poder oferecer essa experimentação descolada da situação sócio-político-cultural da cidade que nos habita – como agora, quando iniciamos o processo de montagem do novo espetáculo e a grande maioria dos teatros de São Luís estão fechados. Nós não precisamos pensar na data de estreia, nem na extensão da temporada, nem no valor das pautas, nem na quantidade de ensaios gerais possíveis. Nós não dependemos de espaço para estabelecer um cronograma de ensaios. Nós não esperamos os ensaios prévios à estreia para as experimentações cenográficas ou de luz. Nada. A partir do momento que adquirimos a nossa casa, todos os entraves referentes ao condicionamento gerado pela locação do espaço para ensaio e apresentações foram eliminados. Esse é o grande ganho.
Também confirmamos o equívoco de imaginar o espaço como fonte de renda direta, não apenas a partir da nossa experiência, mas pela luta inglória de diversos grupos parceiros que enfrentam a barra de dividir o tempo entre a produção artística e a gestão do teatro, tendo que inventar um sem fim de atividades para garantir a sustentabilidade do lugar quando ele não é próprio e exige um faturamento mínimo para garantir o pagamento do aluguel.
Essa sempre foi a única certeza nossa: só valeria a pena ter uma sede se fosse própria. Nunca pensamos em alugar um espaço nem para depositar a tralha que já ocupava sala e corredor da antiga residência. Essa condição é fundamental para o conforto ao que me refiro nesta postagem. Se o grupo não depende do espaço para garantir o pagamento do aluguel do próprio espaço, a pressão  quanto à necessidade de locar, promover, movimentar, divulgar, otimizar, desaparece, e não se corre o risco de ter a sala ocupada no memento em que se precisa dela para as atividades artísticas, e nem há necessidade de forjar-se cozinheiro, garçom, promotor, bilheteiro – apesar de ser voto vencido, pois, a depender dos meus pares, já teriam me colocado na frete de um forno de pizza, pois há rumores de que sou melhor pizzaiolo que diretor.
Por mais criativo que tentemos ser na pluralização de atividades, temporadas, projetos, feijoadas, a conta não fecha. Mesmo a ideia de atividades formativas, em uma cidade onde a classe artística é pequena, o fôlego da oferta de oficinas pagas não excede o primeiro ano de ocupação – por mais inventivo que seja o grupo na arte de descobrir relevâncias significativas no seu fazer a ponto de serem democratizadas. E quanto do tempo necessário para a criação artística é demandado por essa busca constante da viabilidade econômica da casa? Quanto do artista deve ficar para depois pela necessidade de garantir o aluguel do mês?
Hoje, a locação da Pequena Companhia de Teatro se dá especificamente a partir da afinidade artística ou afetiva para com a proposta que busca se apresentar na nossa casa, pois sabemos que, mesmo que conseguíssemos locar a sede na sua capacidade máxima durante todo o ano, o valor arrecadado não chegaria a 10% do valor garantido com a nossa produção artística, conseguida a partir da disponibilidade do espaço para a criação dos nossos espetáculos, oficinas e afins.
Reitero: não imagine uma sede própria como fonte de renda direta. Se o projeto for ter uma sede, pense nela como o principal instrumento de transformação, evolução e alçamento da produção artística produzida, o que, consequentemente, trará o retorno financeiro compatível com o empenho – sempre e quando você seja melhor artista que bilheteiro.
Sei que a postagem de hoje serve de alerta para alguns, de confirmação para outros, de desilusão para muitos. A ideia era essa. Procurei ser o mais pragmático possível para não alimentar as diversas fantasias geradas por qualquer coletivo teatral que tenha como foco a conquista do espaço próprio. Também sei que falo de uma posição privilegiada, pois somos proprietários da nossa sede e independentes social e politicamente. Contudo, seria desonesto da minha parte não apresentar nossa experiência e deixar pairar a dúvida de que um artista pode, um dia, imaginar viver de renda – era só o que faltava.

domingo, 26 de março de 2017

A curadoria do contemporâneo


Na contramão, enquanto o Brasil teatral se encontra em São Paulo, acompanhando o mais badalado festival internacional do país – a MITsp, estou no Rio, acompanhando o mais badalado aniversário de criança – o do meu afilhado. A coincidência apenas serve de introdutório para o comentário genérico ao qual me dedicarei nesta postagem, pois nunca acompanhei a MITsp, e invejo todos os queridos amigos que de lá me mandaram maravilhosas notícias.
Qual é a nossa autonomia criativa quando inseridos em um contexto predominante?
Tenho a impressão de que se não seguir certas tendências, uma obra de arte – e a partir de agora me concentro em peças de teatro, nosso objeto de experimentação –, por mais robusta e contundente que seja, não conseguirá estar na linha curatorial da sua contemporaneidade. Essa condição velada influencia significativamente grande parte da produção teatral, e com isso, cria-se uma espécie de retroalimentação da mesmice, multiplicação de imagem a partir de espelhos paralelos, afetando a condição espetacular do evento teatral. Nesses casos, a espetacularidade consiste na qualidade criativa das variações sobre o mesmo tema – e uso a palavra “tema” como universal, podendo ser estética, conceito, momento político, técnica etc. Avalio se não seria pouco para uma busca mais apropriada da verdade artística, essa fantasia romântica que paira sobre alguns de nós.
Se o grupo, obra ou artista tentar seguir um caminho autônomo, independente, ou descolado do atual preponderante – apesar de ser consciente que a influência do entorno é indissociável –, pagará o ônus supracitado, e terá dificuldade de penetração, provocando naturalmente uma reavaliação da própria obra, fragilizando o entendimento de suas escolhas.
Conversando com um amigo encenador, pensávamos se não seria fácil o exercício de concentrar diversos clichês de específica contemporaneidade, e reproduzir o engodo com verossimilhança. Em outro momento correu uma lista de lugares-comuns necessários para se conceber um espetáculo contemporâneo – confesso meu espanto quando identifiquei vários em espetáculos nossos. Esses pequenos momentos de espelhamento – perdoem o abuso de espelhos, é que estou adaptando Borges – denotam o descompasso que sentimos, mesmo sem perceber, ao nos depararmos com as amarras do tempo, nosso tempo, e reivindicarmos para nós uma autenticidade desgastada de tão usada.
Nem tanto ao céu, nem tanto à terra, e muito menos ao inferno – também tenho estado místico nestas últimas postagens. Não conseguiremos sair da influência do entorno, é certo, mas não precisamos ficar reféns dele, nem preconceber um diálogo que só se verificará a partir da honestidade da obra e da coincidência do diálogo desta com algumas urgências do momento em que ela é posta.
Claro que todo meu discurso é sempre carregado de certo romantismo; estruturado em ideias de originalidade, inovação, autonomia; porém, mesmo sendo conhecedor da falência dessas utopias, não me incomodo em assumi-las, tomá-las como meta, e parecer tolo e antigo perante os meus pares – sabedores de que tudo já foi feito, dito, criado, e que só nos cabe variar sobre suas formas.
Paciência. Acredito que não é possível viver artisticamente reproduzindo os mesmos caminhos apontados pelos cânones ou detentores do poder. Isso nos tornaria mais servis e menos artistas, e um teatro servil é mais nocivo que a ausência. De fato, quão servil estamos nos tornando ao forçar um diálogo como o contemporâneo? Nossa autonomia está preservada no dizer, ou penso no dizer a partir das modelações do entorno? Refaço a postagem fragmentada e a reformulo nos moldes aos que o leitor está acostumado a ler? Sou artista ou mentiroso?
Questões. Questão. Questã. Quão independente se pode ser, quando se depende da aceitação para a viabilização? Quão corrompida está a criação da Pequena Companhia de Teatro se se mantém presente no circuito da sua contemporaneidade? Quão sincero deve ser um escritor ao expor suas angústias? Minha opinião é formatada e desconfigurada dia após dia, por isso pergunto tanto.
O ideal seria que minha inquietude fosse exagerada e as perguntas fossem retóricas, pois acredito nas honestidades dos atores, conheço a maioria dos curadores do país, e me surpreendo com a generosidade de alguns amigos envolvidos nos mais diversos festivais, projetos, espaços, editais, ocupações – aqueles ambientes onde se definem os caminhos do teatro do pais. Todavia, não me canso de questionar. Quando vejo algo demasiadamente bom, que me agrada, que me entusiasma profundamente, é aí que procuro afinar o olhar, distanciar o envolvimento, e advogar para o diabo – como disse, estou místico. É o que tento fazer aqui.
Penso no quão plural é possível ser para não esterilizar iniciativas. Penso no quanto é necessária a ideia de recorte, contudo, no quanto de sangue corre a partir de um esquartejamento. Penso em sermos responsáveis pela superestimação de algumas funções e pela subestimação de outra. Penso que, como a Pequena Companhia de Teatro também é banhada pela luz desses mesmos holofotes, eu não deveria escrever nada disso. Penso na irresponsabilidade da minha postagem, ao escrever sem dados, pesquisas, estudos, levantamentos, estatísticas. Penso que se eu me levasse tão a sério não teria escrito a primeira linha deste blog. A minha única certeza é que, como diria o filósofo, todo penso é torto.

domingo, 19 de março de 2017

A cosmética do pensamento


Um amigo, curador e crítico teatral, ao se referir a mais uma das infindáveis polêmicas da semana, brincava, em uma rede social, sobre a diferença entre pensamento, autoajuda, sabedoria, reflexão e afins. O comentário, contido de deliberada despretensão, caiu sobre minha cabeça com o peso da Biblioteca de Alexandria.
O que, efetivamente, tenho escrevinhado aqui? A ideia de fazer parte de uma cosmética do pensamento atropelou meu juízo, e desde a leitura do despretensioso comentário, não consigo deixar de me ver como um fantoche a serviço da rede, elucubrando formas de externar o que penso, como se isso tivesse alguma relevância. A função do exercício, para mim, sempre foi clara, a de assentar angústias, pensamentos, reflexões que faço; mas para esse fim bastaria arrolá-las em alguma espécie de diário, caderno de cabeceira, lista de tiradas, arquivo como atalho no desktop. A pergunta que já se reiterava, e que agora assume cinquenta tons de cinza (desculpem-me o trocadilho infame) é: qual a função de tornar esse exercício público?
Como sempre levei uma vida pacata, abrigada – com indícios de sociopatia para alguns, e de egoísta reserva para outros –, vi na proposta lançada por Jorge de criar um blog, uma alternativa de conexão com o exterior, uma forma de interlocução nova, onde pudesse organizar um pensamento mais estruturado, diferentemente da fugacidade oferecida pelas redes sociais – como já versei aqui sobre tudo o que versarei a seguir, abordando outros aspectos. Nesse exercício vão-se sete longos anos de ininterrupta provocação, reflexão, confissão, análise, crítica, com a despretensão que me é cara, mas sem o fantasma de frivolidade que agora me assola. Não, não quero isso. Não era essa minha intenção. Mas, como saber se essa prática de escrita serve a deus ou ao diabo – sim, perdoem meu preconceito, mas autoajuda, para mim, é coisa do capeta –, pergunta o ateu? O que pode se produzir de sentido no limite de uma postagem? Quanto de reflexão cabe na brevidade da blogosfera? A exposição não seria apenas uma forma de revelar uma personalidade narcísica?
Penso teatro, preponderantemente. Esse pensamento busca entender melhor o nosso fazer; problematizar, na medida do possível, algumas amarras entorpecedoras; contestar máximas imutáveis, tão frágeis quanto bolhas de sabão; e tentar aferir ao contemporâneo o seu lugar, o de ser novo na medida em que o novo é um velho amigo de tudo o que já foi. Mas, tudo isso serve a mim, no máximo a nós, membros da Pequena Companhia de Teatro. Logo, como mensurar se o valor do pensamento merece extrapolar as fronteiras da Rua do Giz? Não consigo uma resposta.
Com o passar dos anos – e eles passaram até me aproximar do meio século – tenho tido menor capacidade para responder, e uma abusada necessidade de perguntar, provocando respostas que exigem um ouvido atento, fato que se contrapõe à prática que me obrigo aqui; então, para que se precipitar no abismo das considerações?
Talvez alguma resposta esteja incrustada no próprio pensamento; o de ser a expressão mais concreta do espirito humano, o que nos diferencia, o que nos torna uma massa de carne criadora do mundo que conhecemos. Quiçá, na minha bruta formação, foi no pensamento que encontrei o melhor caminho para o parco conhecimento que carrego – o “parco” é a contra modéstia da personalidade narcísica citada acima e escamoteada até aqui. Talvez seja a forma que encontrei para sobreviver, neste exagerado novo mundo de bestagens, vazios, vaidades, aberrações e banalidades; apostando na transformação da vida a partir das reflexões geradas no caminho para a morte.
Como advertido, e mais uma vez, só tenho perguntas. Talvez essa seja a real motivação. Através deste instrumento – o blog – consegui encontrar os interlocutores necessários para dar as respostas às perguntas que passaram a me acabrunhar na derradeira etapa da vida; e das formas mais variadas – o comentário no blog, nas redes, a interpelação do leitor na fila do teatro, a ressalva feita pelo amigo no sofá da sala, a mesa redonda provocada pelo assunto abordado na postagem – esse interlocutor se apresenta para amenizar a grande angústia, a que constrói o humano ser por não saber de coisa alguma.
Talvez. Não sei. Só sei que diante da possível pecha de esteticista de autoajuda lhe peço, encarecidamente, me outorgue o emblemático, pitoresco e descompromissado título de filósofo de botequim.

domingo, 5 de março de 2017

O outro passado


O passado de um artista é a sua trajetória, e dele depende o implacável presente e o incerto futuro. Materialistamente é melhor deixa-lo lá, imutável e empoeirado, porém, se nos permitíssemos um exercício metafísico, eu perguntaria: como um artista da vida, o que você mudaria do seu passado?

Para gerar a reflexão, convido a voraz leitora, o compulsivo leitor, a eliminar os famigerados clichês de “teria feito tudo igual” e “faria tudo de novo”, ou o brado, aos quatro ventos, de que repetiria cada passo. Essa postura esconde uma empáfia e um delírio de perfeição que não se afina com a sua sensibilidade. Feita a ressalva, construo meu argumento a partir do descompasso entre a realidade e o sonho.

Uma postagem anterior, perdida no limbo cibernético, provocava com a pergunta: o que você quer ser quando crescer? Da resposta a essa pergunta derivaram os fatos presentes da nossa vida, oriundos dos desejos futuros. Quanto de tudo aquilo que desejei, realizei? Quanto de tudo aquilo que projetei, executei? Quanto de tudo aquilo que sonhei, vivi? A resposta a essas perguntas vai lhe fazer admitir que sim, se pudesse, mudaria uma coisinha aqui, outra coisinha ali, do incorruptível passado, nesse exercício nefasto que, por não ter o que fazer, lhe proponho hoje.

Artisticamente falando, somos o resultado desse passado. Como artista, cada passo dado nesta longa jornada para o fim, moldou o presente – que assola ou regozija – e configura o futuro. Em qual ajuste você investiria, se a vida não fosse tão sólida como a pedra? O que teria alterado na sua vida, para melhor ou pior, aquela mudança de comportamento, decisão ou opção, que sempre esteve sufocada no âmago da sua essência simplesmente pela máxima de saber que o passado não se muda? O convite recusado? A decisão pouco pensada? A música que não deveria ser gravada? O livro não publicado a tempo, e que agora caducou? A performance que envergonhou? A genialidade fingida? A construção descuidada daquela personagem? O conhecimento simulado? A encenação não encarada por covardia? A constelação de trejeitos, rompantes, discurso e tiradas usada para camuflar o embuste?

Por tudo isso, é muito mais fácil abraçar-se aos clichês, não pensar no assunto, e sentenciar: não me arrependo de nada! Talvez – e isto é apenas a especulação de um artista inútil –, a revista ao passado, a ficcional possibilidade de mudar o que passou, possa gerar uma reflexão que afete o ser presente, e, naturalmente, altere o ser futuro, tornando-o menos pior. O que penso é que, se o passado servir para corrigir o presente, teremos um futuro melhor – claro que falo sobre o ponto de vista de outro eterno clichê inútil, o de mudar o mundo, que me é tão caro. A ideia ególatra de não alterar um passo de tudo o que foi feito não é uma armadilha que afetará consideravelmente o porvir?

Eu mudaria algumas coisinhas, sim. Talvez estudasse mais. Talvez aprofundasse a intimidade com artistas outros que conheci. Talvez seria mais militante. Talvez recusasse alguns trabalhos. Talvez construísse mais castelos na areia. Certamente venderia um pouquinho menos minha alma pro diabo. Talvez fosse menos severo comigo, mais delicado contigo. Talvez falaria menos e criaria mais. Talvez atravessasse o deserto para levar uma peça de teatro para o amigo moribundo. Talvez vivesse mais e pensasse menos. Talvez, se o passado fosse um palimpsesto onde pudéssemos escrever e apagar, indefinidamente, até cansar de peregrinar. E você?

Claro que esta reflexão é motivada pela pesquisa do nosso novo espetáculo, inspirado no conto “La otra muerte”, de Jorge Luís Borges. Enquanto você não vê o resultado artístico, lhe perturbo com o processo – essa coisa que não é nada, confunde todo o mundo, e alimenta o ego do artista que tenta garantir o holofote antes mesmo que o espetáculo veja a luz. Quem sabe você não colabora para conseguirmos realizar outro dos nossos retumbantes fracassos?

domingo, 19 de fevereiro de 2017

Parto sem dor, ou o dia em que um diretor de teatro decidiu tentar se divertir em vez de ficar medindo os centímetros entre o nada e coisa nenhuma



O melhor amigo do encenador é a cena, do ator a ação, do dramaturgo o drama, do figurinista a figura, do cenógrafo a cênica, do sonoplasta o sonido, do iluminador a luz. Quando esses se tornam um peso, há algum problema.

Há dias que um grande amigo insistiu em que devo me divertir mais. Não sei muito bem qual é o fundamento dessa opinião, mas devo admitir que a arte, para mim, nunca foi prazerosa. Como tudo o que emerge através dela vem de uma profunda insatisfação existencial com a forma como construímos o mundo e suas relações, é natural que a prática artística pese em mim como pedra. Contudo, de que maneira entender o crítico entorno, questioná-lo, e ainda assim extrair o prazer necessário para que o exercício artístico não seja um martírio? É o que venho me perguntando enquanto norteio os fundamentos do próximo espetáculo. Pretendo que entremos de cabeça nele quando, definitivamente, eu tenha conseguido solucionar essa equação.

Os caminhos parecem simples, se imaginarmos que o teatro não passa de uma grande aventura ilógica, jocosa e efêmera. O principal deles, que venho praticando desde a criação da Pequena, é a despretensão, por absoluta consciência da inutilidade da arte, e da certeza do pouco poder de transformação que dela emana. O problema é que atualmente isso já não basta. Como já falei aqui, num momento como o que vivemos é necessário imaginar, ou mesmo se iludir com a hipótese de que alguma coisa dita através do teatro seja transformadora ao ponto de fazer sentido. Mas, tudo isso é filosofia de botequim, e penso que o que meu amigo tentou tocar vai muito aquém da existência, e se refere aos pequenos prazeres da cena, do gesto, do movimento preciso, do vaivém dos objetos, das luzes, do suspiro no fim do ensaio.

Nesse caso, o problema consiste em não saber onde está o problema, ou se há um. A concepção e confecção de um espetáculo me é cara, me é prazerosa, mas devo admitir que, dirigida por mim, é sisuda. Sou demasiadamente sério para algo que no discurso é carregado de despretensão. Porém, desconfio que haja um caminho, e minha condição artística malfeita a me manter como permanente aprendiz, me possibilitaria o sopro da suspeita, se eu decidisse que sempre há tempo para se aventurar.

Precisaria aprender a me desprender. Exercitar o desapego. Esforçar-me em perceber que desenvolvi um sentido de posse sobre a obra artística na qual me envolvo que afeta o pleno sentido da arte; o de pairar livremente pela vida transformando aquele desprevenido que se defronta com sua força. O aprisionamento da obra imposto por mim – perdoem o dramático exagero – sufoca a sua trajetória e me confere a sisudez habitual à qual a abnegada leitora e o despegado leitor estão acostumados. Desapego. Diversão. Despretensão. Conferir à obra uma das suas principais funções: a de dançar com os seus criadores a fluida e divertida dança da concepção e confecção.

Como a transformação ocorrida em mim a partir de cada espetáculo criado é percebida pelos meus pares a olho nu, espero que a experiência desta nova aventura que se avizinha me devolva ao mundo leve e solto. Livre já seria um exagero.


domingo, 18 de dezembro de 2016

Dando número aos bois


O ano começa a acabar e 2016 leva consigo a marca dos dez anos de existência da Pequena Companhia de Teatro. Atravessamos uma década fazendo teatro e vivendo dele, em um mesmo grupo, com os mesmos integrantes, desenvolvendo pesquisa, montando espetáculos, circulando, ministrando oficinas, promovendo festivais, participando de debates, palestras, seminários, fóruns, sem fazer concessões de ordem estética, política, investigativa, financeira ou intelectual. Esse posicionamento nos custou sangue, suor e lágrimas, mas posso assegurar que nada pingou sem a devida dose de satisfação por saber que construíamos uma trajetória regular, honesta, progressiva e permanente.

Primeiro com César Boaes enredando Jorge Choairy no labirinto de “O Acompanhamento”; depois com o fraternal enlace de Lio Ribeiro e Cláudio Marconcine, em “Entre Laços”; em 2010, Jorge e Cláudio se unem num rito patriarcal, em Pai & Filho, para logo depois saírem da órbita com Velhos caem do céu como canivetes, em 2013. Quatro espetáculos em dez anos. Em dois interstícios a Pequena colabora com a Cia. A Máscara de Teatro para as montagens de “Medéia” e “Deus Danado”, em Mossoró, além de coproduzir duas edições do “Auto da Liberdade”. Pinçaria, também, as 4 edições da Semana Imperatrizense de Teatro, e a performance poético-teatral “Literatura Viva”, com mais de 200 intervenções, para as duas primeiras edições da Feira do Livro de São Luís, das quais a Pequena Companhia de Teatro foi responsável pela direção artística. Para dez anos, poderíamos dizer que se trata de uma produção econômica, mas construída na medida dos nossos anseios e das nossas condições.

Uma das principais virtudes foi que essas produções não se bastaram em São Luís. Desde a primeira circulação, com “O Acompanhamento” pelo interior do Maranhão, em 2006, até a derradeira, com “Velhos caem do céu como canivetes” pela Amazônia Legal, viajamos 67 cidades de 25 estados do país. Todos os espetáculos da Pequena Companhia de Teatro cumpriram pelo menos um projeto de circulação. Visitamos 26 cidades do Nordeste, 14 do Sul, 4 do Centro-oeste, 14 do Sudeste e 9 do Norte, ultrapassando as 250 apresentações. Participamos dos principais projetos de circulação nacional – Programa Petrobras Distribuidora de Cultura, Palco Giratório/SESC, Viagem Teatral/SESI e SESC Amazônia das Artes –, além de ocupar(e)mos os Centros Culturais BNB de Sousa e Fortaleza, através da Seleção de Projetos Culturais BNB. Viajamos de carro, de barco, de van, de avião, de ônibus, de trem, de carroça – isso mesmo que você lê.

Os 4 Prêmios FUNARTE de Teatro Myriam Muniz ganhos pela Pequena Companhia de Teatro, em 2009, 2010, 2012 e 2013, foram nosso esqueleto de sustentação, e a tábua de salvação para inúmeros grupos teatrais do Brasil, que agora padecem com a falta de entusiasmo do MINC em sinalizar uma gestão séria. Tanto os atores Cláudio e Jorge, quanto os espetáculos, direções, produções, cenários e figurinos ganharam o Prêmio SATED/MA de Artes Cênicas - 10 ao todo. Participamos de 62 festivais ou mostras de teatro locais, regionais, nacionais, internacionais e intergalácticas.

Além disso estudamos, enrolamos, aprendemos e ensinamos. Ministramos 5 oficinas – de atuação, de iniciação, de dramaturgia, de leituras dramáticas e de cenografia –  para mais de 50 turmas, em 30 cidades de 18 estados deste brasilzão, e publicamos, lançamos e vendemos/distribuímos 1.000 exemplares de um livro, minha dramaturgia reunida. Parte dessas atividades promovidas pelo Programa BNB de Cultura, outro inestimável investimento cultural que a classe artística perdeu e não se apercebeu.

Adquirimos a sede, que foi nosso grito de independência criativa. Aqui montamos e estreamos o espetáculo “Velhos caem do céu como canivetes”, mantivemos nosso repertório em temporada regular, ofertamos diversas oficinas, debates, visitas guiadas e um seminário com Gilberto Freire de Santana, Dyl Pires e André Lisboa. Ainda abrimos as portas para produções externas, e recebemos os espetáculos “Para uma avenca partindo”, “A escrita do Deus”, “As 3 fiandeiras”, a performance “Ocupa Árvore”, a palestra “Ser indígena hoje em contexto urbano”, a roda de conversa com Gero Camilo, a Mostra SESC Guajajara de Artes, a Conexão Teatro, a Semana do Teatro no Maranhão, o Festival Ponto de Vista/UFMA, A Feira do Livro de São Luís, o lançamento da revista Palavra, os intercâmbios com o Coletivo Alfenim, a Cia. A Máscara, os Clowns de Shakespeare, o Patuanú, o Tibanaré, a Cia. Pão Doce, A Outra Cia. de Teatro (na verdade, esta nos deve a visita, nós é que fomos lá), a oficina literária de Marcelino Freire, e tudo aquilo que por aqui passou e você não viu.

Também aqui, neste blog, a história da Pequena Companhia de Teatro foi sendo construída; foram 525 publicações, 1283 comentários de assíduos ausentes leitores, e milhares de visualizações, em mais de 6 anos de ininterrupta reflexão sobre o teatro e seu entorno, o mundo. Você, confidente leitor, atenta leitora, foram testemunhas das dores e dos sabores dessa jornada hercúlea, a de se fazer teatro no Maranhão e fazê-lo reverberar além das suas fronteiras.   

Para mim, sem sombra de dúvida, foram os melhores dez anos da minha vida. Katia, Jorge e Cláudio, obrigado. No agradecimento aos três sintetizo minha gratidão a todos os atores que ajudaram a consolidar a nossa caminhada, apoiando, assistindo, comemorando, participando, criticando, patrocinando, aplaudindo, conversando, ignorando, refletindo, jantando, ensinando, torcendo, brigando, convivendo, saboreando. Obrigado!

domingo, 4 de dezembro de 2016

Ler sem entender – uma curiosa equação


João Ubaldo Ribeiro, na propaganda de uma entrevista dada a Fernanda Torres que ainda não vi, falava sobre ler sem entender. É o que tenho feito durante mais de quarenta anos: ler sem entender. Vou lendo, deixando que as palavras façam seu genioso trânsito pelo cérebro, esperando que essa experiência repercuta de alguma maneira em tudo o que meu ser procura, sonha, contesta, provoca, pratica. Mas entender, entender mesmo, nunca entendi. Creio que cerca de oitenta por cento de tudo o que li na vida me deixou com aquela incessante sensação do incompreendido; aquela eterna pergunta que por vezes me deixa contrafeito: será que é isso? Agora mesmo, enquanto leio algum clássico que me devo, fico me perguntando: o que está assentado nessas páginas que jamais chegarei a entender?

Enquanto essa sensação perdura, vou me deliciando com o hábito de confrontar as páginas, vou deslizando os olhos sobre as frases e seus mistérios, deixando a leitura fluir como queira, sem constrangimento. Quantas vezes atravessei laudas inteiras esperando que os miolos concluíssem o raciocínio provocado pela escritura,e padeci, em silêncio profundo, com os olhos cravados no ponto final, perante a certeza de não ter entendido nada? De Nietzsche a Derrida, de Borges a Vallejo, de Suassuna a Saussure, de Raymond Williams a William Shakespeare, de Macedonio Fernandez a Roland Barthes, centenas de páginas livres; uma chuva de papel em forma de sentido desafiando minha paciência, e eu, com a persistência que me é peculiar, lendo, sem pressão, sem pretensão, aguardando o destino que o pensamento dará para a sentença; esperando encontrar na cabeça um lugarzinho útil para aquele capítulo inteiro que me pareceu inútil.

Minha irmã lê e entende. Entende com uma precisão assustadora. Uma leitura profunda, que permite a reprodução milimétrica de todo o sentido, por mais complexo que seja. Quando me explica algo que acabou de ler, fico olhado para ela como um jumento olhando para um castelo. Na maioria das vezes não consigo acompanhar plenamente o raciocínio, mas separo um tempinho no meu juízo para ficar apenas contemplando a cena, seus gestos e compassos, admirado com a clareza que ela consegue ter do que acabou de ler, enquanto extraio da explicação algo do que ali estava escrito. Sempre invejei essa inteligência, e encontrei na boa e descompromissada prática de ler sem entender a forma de acompanhar tudo aquilo que eu imaginava existir em cada uma das obras que se me apresentaram no decorrer da vida.

O leitor deve pensar que faço galhofa, mas sou franco. Falando profissionalmente, o que existe em mim de Grotowski, Artaud, Barba, Stanislavisk, Kantor, Chekhov, Brecht, Brook, é o manifesto estado do ler sem entender. Em mim, esses autores são uma massa fértil e confusa de ideias, estudos, postulações, indagações, métodos, tratados e teses impregnadas, assimiladas de maneira particular, pessoal e peculiar, através da passagem das páginas desses livros pelos olhos de alguém que lê, deseja entender, e continua lendo à espera de que o fenômeno aconteça, sem se assombrar com o fracasso. Assim construí meu pensamento por falta de mediação, como outrora comentei aqui.

Hoje, já cambaleando no tempo reservado ao homem para fazer o resumo da sua história, não tenho mais pretensões. Imagino que chegarei ao fim como um ser que leu mais do que devia, menos do que queria, entendeu um pouco do que lia, e se divertiu com o hábito de ler, mesmo sem entender. Por isso continuo. Lendo sem parar para pensar se entendo. Mesmo agora, quando me espera o presente da querida Flávia Teixeira, tentando provocar meu juízo com a Sociedade do Cansaço, de Byung-Chul Han. Tomara que eu entenda.

domingo, 20 de novembro de 2016

Da arte de não dizer nada sobre coisa alguma


O blog tem sido a conexão do meu pensamento com o exterior, a minha relação com o mundo outro que o meu mundo mesmo de sempre. Este instrumento conecta os conhecidos íntimos e os poucos amigos com alguma opinião minha mais organizada, um pensamento meu mais extravagante, uma reflexão um pouco mais desenvolvida, e me brinda com a saborosa interlocução dos mais atenciosos e delicados, com seus comentários escassos e provocativos. Pessoalmente, apenas dois ou três amigos íntimos me visitam para trocar uma ideia nesta masmorra construída por Katia para me isolar do mundo, e que atende pela alcunha de Residência Lopes Flecha para momentos privados, e de Pequena Companhia de Teatro para temas de ofício. Sorte a minha, porque nem de gente eu gosto.

Por outro lado, tenho recebido convites que reforçaram o que exercito no blog, quando convidado para uma sorte de encontros, aulas, palestras, mesas redondas e retangulares. Essa prática tem me provocado imensamente, e servido para me relacionar de maneira mais presencial com o pensamento teatral e seus provocadores, que em grande parte, são queridos e generosos amigos. As mais recentes jornadas de pensamento foram no FestLuso – Festival de Teatro Lusófono, em Teresina/PI, e no Festival O Mundo Inteiro é um Palco, em Natal/RN. Não pude ir para o Festival de Teatro Velha Joana, em Primavera do Leste/MT, mas pagarei a dívida na próxima edição. Todos esses encontros acabam se tornando espaços para reverberar as reflexões que já faço aqui.

Estou enrolando para ver se você percebe que estou há dois domingos sem postar, pois, preciso dessa constatação para fundamentar a pergunta que perpassará o desenvolvimento desta postagem. A sensação de alívio de passar quinze dias sem escrever não abranda minha culpa, sem saber direito com quem firmei este compromisso. Como todo e qualquer fato insignificante gera aqui uma inútil reflexão, foi inevitável que o silêncio das teclas durante duas semanas me provocasse a pergunta que se reitera com certa frequência durante os últimos seis anos em que decidi compartilhar minhas opiniões, seja virtual ou pessoalmente: qual o motivo disso? E as outras: o que valora um pensamento ao ponto de torná-lo útil ao público? O que sobrevive de uma reflexão, a não ser a vaidade do autor de sentir-se tão importante ao ponto de achar que sua ideia merece alçar horizontes além do seu banheiro? Por que a autoafirmação contemporânea passa por expormos nossa opinião publicamente sobre qualquer assunto, polêmica, notícia, sem nem saber ao certo quem é o nosso interlocutor? Por que tememos tanto a nossa insignificância, e evitamos nos confrontar com o fato de que nossa opinião não tem a menor relevância perante a magnitude da crueldade dos assuntos que assolam e carcomem nossa sociedade?

Não sei. Os fóruns específicos, como os encontros e mesas que citei acima, ainda me parecem menos estéreis, e consigo voltar de cada um deles com a sensação de ter contribuído para coisa alguma, de estar em contato com a opinião de muitos que respeito, mas, sobretudo, das gargalhadas entre os pares, das ironias ao constatar nossa pretensão de achar que estamos mudando algo. Já as reflexões virtuais, essas onde somos seduzidos a falar de tudo e todos, ainda me despertam do sono – nada me tira o sono; por isso me esforço há anos para utilizar o teatro como epicentro provocador do meu pensamento e das consequentes reflexões.

Tenho percebido – é apenas uma suspeita – que no meu caso se estabelece uma necessidade de dizer, e está diretamente relacionada com o fazer teatral da Pequena Companhia de Teatro. Meu caminho de expressão desse dizer sempre foi o teatro. Como nós montamos, em média, um espetáculo a cada três anos e meio, a lacuna deixada pelo tempo de silêncio atentou meu juízo, levando-o a assentar minhas ponderações em outros veículos, e o blog, os encontros e as escassas visitas canalizaram essas elucubrações. Como a ideia agora é tentar reduzir esse tempo, fazer um esforço para montar um espetáculo a cada ano e meio ou dois anos, pela urgência de dizeres que o momento atual exige, eu me pergunto: essas reflexões devem minguar? Deveriam? Se o artista se expressa a partir da sua obra, é necessária a exposição do seu pensamento através de outros meios? Ou seria o momento de repensar a frase do prólogo de Oscar Wilde para o Retrato de Dorian Gray, quando diz que “revelar a arte e ocultar o artista é a finalidade da arte”? Não sei. Hoje o dia foi de perguntas. Espero não estar falando com as paredes, pois, nesse caso, bastaria entrar no banheiro.