quinta-feira, 30 de julho de 2015

Adeus, ano velho!



E se inicia o ano de 2015. Antes disso, o exílio voluntário (sic), a modorrice, a angústia improdutiva, o ócio em excesso, computadores quebrados, geladeira vazia, nada de teatro, nada de dinheiro, nada de nada: desgraça!

A reflexão não cabia, como não cabiam as incursões na dança ou na performance. O sexo tomou conta. Ejaculações intermináveis para preencher o abissal de dentro e o de fora. Pensei em Camus: ah, peste!

E o inevitável: morrer por inanição. Descrer em deuses tem suas inconveniências. Pensei na fragilidade do corpo, na solidão, no deslize. Cheio de ideias, cabeça oca, bolso furado. Papai não caiu no chão: jaz morto.

O tempo das alfaces murcham terminaram? Sei que ensaiei há alguns dias e que no próximo sábado iremos ocupar o Centro Cultural do BNB, em Sousa-PB, durante 15 dias, e em outubro participaremos de nosso primeiro festival internacional, também na Paraíba.

Meu computador voltou a funcionar, diminui a frequência do sexo, retomo as postagens no blog, app para controle financeiro no tablet. Não propalo ano novo, vida nova, pois desacredito em novidades. Reafirmo que não sou um homem de novidades. Nasci para o ofício cotidiano. Mesmo sendo ator, me aproximo de Sísifo quase em gênero, quase em número e quase em grau.

E depois de 46 anos, continuo a me surpreender. Queixume? Talvez desgaste das articulações. Vou me azeitar. Feliz 2015 para mim!

domingo, 26 de julho de 2015

Conversa sobre pequenos prazeres


Tem certas coisas que me dão um prazer singular. Meu pai confeccionou nossa mesa de jantar; meu permanente contato com ela, por motivos óbvios, promove um vaivém de prazeres que se manifestam, pela beleza estética do móvel, pela história contida na confecção, pela lembrança da afetividade truculenta do sujeito; prazeres. Subo para o teatro e me deito nas tábuas onde passeiam o pai, o filho, o ser humano, o ser alado; deitado, penso, me espreguiço, rabisco, rabujo, me levanto, martelo, torno a me deitar, me deixo; prazeres. Preparar o jantar para a Katia, um vinho um beijo um queijo. Prazeres ínfimos, íntimos, despretensiosos. Escrevo uma página do romance, leio uma do livro, fabulo a justificativa do projeto, olho para o nada e me abarroto de tudo. Prazeres. A saborosa atmosfera criada quando um ensaio é bom, a cumplicidade do olhar, a completude de encenar. O amigo que aparece, um licor, um cigarro, um soneto, um abraço, um afeto. Cuidar das plantas, dormir até meio-dia.  Amanhecer, mesmo que entardeça, e escolher na estante em qual das cuias vou preparar o mate – ato de lembranças, pessoas, momentos, encontros; prazeres. Olhar para o Ulysses na estante e desprezar suas mil páginas, sabendo que ele é obrigado a me esperar. Ser o anfitrião, soltar um palavrão. Ouvir o sussurrar do colibri que insiste em procurar a flor mais difícil, aquela que se encontra no nosso pátio, no baixo de doze metros de paredes; prazeres. Não fazer nada; não ir à praia, mais saber que ela está lá. A chegada inesperada do livro comprado pela internet. Ouvir algumas pessoas me chamar pelo redutivo do meu nome, Marce, e ressurgir, sem que fosse planejada, uma prática comum da minha primeira infância. Conversar. Ouvir tango. Escolher o formato de um novo diário de montagem, catalogar ideias. A companhia de Gatita; o carro na estrada; o silêncio da madrugada; sorver o vinagre que sobra da salada; prazeres. Como o de escrever em um blog o sentido de todas as coisas que não fazem o menor sentido... Não falo de arrebatamento, de euforia, de assalto. Falo de pequenos prazeres. Fosse assim o dia derradeiro, morreria feliz.   

domingo, 19 de julho de 2015

Réquiem para os possessos


Dia 29 de novembro de 2015 iniciaremos o processo de montagem do espetáculo comemorativo aos dez anos de existência da Pequena Companhia de Teatro. Nesse mesmo dia, em 2005, estreávamos o espetáculo O Acompanhamento, de Carlos Gorostiza, que deu origem à nossa companhia. A data de estreia da nova encenação será dia 11 de julho de 2016. Nesse mesmo dia, em 2006, a Pequena Companhia de Teatro recebia seu certificado de pessoa jurídica.

Diferentemente de tudo o que fizemos até hoje, o ponto de partida para a pesquisa do novo espetáculo será a estrutura cenográfica de O Acompanhamento, que servirá, dez anos depois, de suporte investigativo, não para a remontagem do espetáculo, e sim para uma nova encenação, que ainda não possui elenco, nem texto, nem concepção, nem quase nada. Minto, depois de muita negociação de direito autoral, temos também o título do espetáculo: Réquiem para os possessos.

Claro que o título é provisório, tendo em vista que não sabemos nem do que tratará o espetáculo; tão provisório como muitos outros títulos de espetáculos que montamos e que, por afinidade, permaneceram, mesmo a contragosto da cena. O título era o de uma montagem que jamais veio à luz, dirigida por Gilberto Freire de Santana e que Cláudio Marconcine chegou a ensaiar. Nunca li o texto, nem vi ensaios, porém, como sempre achei o título magnífico, aproveito a ausência de tudo para poder usar um título do nada.

Será de onde partiremos: uma estrutura cenográfica e um título. Nossa matéria-prima humana para tal, conta, inicialmente, com dois atores (Cláudio e Jorge), uma não atriz (Katia) e um ex-ator (eu). Nossa matéria prima estética será uma estrutura que nunca saiu do Maranhão e, por falta de cnpjotismos da época, nunca participou de editais, virais, festivais, murais ou jornais fora do estado, mas que foi premiada como instalação no 2º Salão de Artes Visuais de São Luís.

A mudança de paradigma também afetará (imagino) nosso procedimento metodológico, e, apesar de mantermos a construção através do Quadro de Antagônicos, sabemos que essa metodologia também sofrerá transformações, e será uma oportunidade ímpar para problematizá-la.

Também não conhecemos nossos colaboradores. Diferentemente das encenações anteriores, como ainda não temos nem a temática, nossa discussão se dará na construção desses dizeres, e fatalmente, na necessidade de incorporar colaboradores-outros, que não os sempre-membros-da-pequena, ou não.

Tampouco temos recursos para a montagem, assim como não tínhamos quando da montagem de O Acompanhamento; fato que não nos gera maiores preocupações pelo avanço das tecnologias teatrais que fomos desenvolvendo no decorrer dessa década, fruto de importante pesquisa estética com significante otimização de custos.

Como de costume, o blog é o portador das nossas premissas e promessas, e aqui deposito o que sabemos, o que não sabemos, e os riscos que corremos. Tudo é embrião. A Pequena Companhia de Teatro comemora o seu nono aniversário com o espectro de uma programação para o decênio que se finda. Oxalá!

Post scriptum: Clique aqui para ver um ensaio fotográfico inédito da montagem do cenário, realizado por André Lucap, em 2005.

Por André Lucap, em 2005.

 

domingo, 12 de julho de 2015

Arte e sistema: uma difícil equação


Após um semestre burocrático, envolvidos em produção de planos, inscrição em festivais, aprovação de dois projetos no SALIC, catalogação de acervo, adequação de arquivo, e outros tantos males necessários para o desenvolvimento da Pequena Companhia de Teatro, eis que retomaremos nossas atividades artísticas a partir da ocupação do Centro Cultural Banco do Nordeste de Sousa/PB.

Sim, perdemos (ou ganhamos) um semestre cuidando de burocracia. Semestre atípico, mas necessário. A pluralidade e diversidade das nossas atividades impossibilitam que a Katia (nossa produtora) seja a única responsável por esses afazeres. Com isso, um tempo criativo valioso é despedido para que a máquina funcione. Por incrível que pareça, não me desagradam essas ocupações – fugindo do imaginário de que artistas são arredios a papeladas, mas não morro de amores por elas.

(Abro um parêntese para falar de um comentário sobre a minha postagem Lei Rouanet ou a diferente lógica de um artista, quando uma leitora carioca dizia não concordar que a gente fizesse de tudo, não aceitar que cada um dos membros da Pequena Companhia de Teatro tivesse várias funções, que isso não era bom porque desvalorizava o artista, que melhor seria se cada um de nós exercesse apenas uma função, que, que, que. Percebe-se que o sudeste não conhece o “resto” do Brasil, e arremato: ninguém conhece a realidade de uma companhia de teatro maranhense a não ser uma companhia de teatro maranhense. Fecho o parêntese pedindo o seu esforço para reatar o fio da meada.).

O que levanto aqui é a necessidade de projetar, a importância de programar, mas, principalmente, o fundamental que é desenvolver uma visão estratégica para além do horizonte cercano, como já falei aqui. Como artistas que somos, precisamos entender nosso entorno, para podermos projetar uma vida de arte em um mundo em que a arte não faz parte da vida.

Esse paradigma exige de nós um olhar menos romantizado (difícil para um romântico inveterado como eu) pelo menos por um quarto do ano produtivo. Afastar-se da cena, do poema, do cinema, do fonema, e ocupar-se do problema, do dilema, da Caema, do esquema; porque ninguém pode entender o que queremos com o nosso fazer artístico a não ser nós mesmos. Digo, não podemos repassar nosso futuro artístico para um tecnocrata, sob pena de encontrarmo-nos na jaula de um leão, com um banquinho e um açoite, sem ter feito a “oficina” de adestração.

Mas como dimensionar tempo artístico e tempo técnico? Como saber se não deixei de ser artista e nem percebi? Como escapar da ardilosa armadilha burocrática sem arranhões?

Penso (apesar de saber que, como diria João Grilo, todo penso é torto) que a arte não se esmaga. O artista não se rende. O sistema jamais conseguirá vergar um artista de verdade. Se a vida lhe tragou, você jamais foi artista. Se você teve que largar a arte para cuidar da produção, sua vida sempre foi produzir, e isso não é demérito, é reconhecimento. Mas, se você é artista e tem que ralar para conseguir fazer sua arte acontecer, não se aflija, você poderá penar, se lascar, se endividar, se rejuntar, mas o artista permanecerá intacto, pese ao esforço do sistema em aniquilar sua arte. Não vejo como possível o esvaziamento artístico em prol de um atarefamento burocrático. No momento exato o artista explode, retoma, inicia, professa.  Se você é artista e teme estar cambaleando pela roleta do sistema, insisto: não se aflija. O impulso artístico organiza isso para você. Do contrário, sinta-se livre, você nunca foi artista.

domingo, 5 de julho de 2015

O poder do repertório


O maior patrimônio de um grupo de teatro é o seu repertório. Ele multiplica, triplica, quadruplica o alcance das suas ações, dependendo do óbvio cálculo matemático, se um, dois, três, ou quatro espetáculos compõem o seu capital cênico.

Ano passado, enquanto estávamos na XVI Mostra SESC Cariri de Cultura, com “Pai & Filho”, o cenário de “Velhos caem do céu como canivetes” viajava para o 9º FENTEPIRA – Festival Nacional de Teatro de Piracicaba. A MITPB – Mostra Internacional de Teatro Paraíba em Cena exclui espetáculos que tenhas se apresentado no estado da Paraíba: impossibilidade para “Pai & Filho”, que ocupará o Centro Cultural BNB de Sousa/PB, em agosto, mas livre para “Velhos caem do céu como canivetes”, que participará da mostra em outubro. Et cætera.

Também, do seu repertório, surgem novas atividades formativas demandadas pelas necessidades apresentadas na construção de uma nova encenação, mesmo que a metodologia seja a mesma, pois, um novo espetáculo não se enquadra, não se enjaula, não se prende; algo novo sempre nos toma de assalto.

Palestras, oficinas, vivencias, workshops, são frutos de uma nova experiência cênica, e enlanguescem a emissão de conteúdo provindo da encenação em questão, despertando novos interesses, diferentes olhares e maior particularidade no aprofundamento de suas reflexões.

Essa pluralidade potencializa o retorno econômico, fundamental para a manutenção de uma pesquisa teatral continuada, sem a necessidade de dispersar tempo criativo com outras ocupações profissionais, tão comuns aos fazedores de teatro do Maranhão.

A gênese da solução para evitar essa equação adversa é investir no repertório. Claro que, para capitalizar esse retorno, a necessidade do grupo conter elenco estável é basilar. Também, a qualidade, versatilidade e pluralidade desse elenco. Sem um mínimo de dois desses atributos não vejo possibilidade de capitalização.

O difícil é manter o foco, não desviar a atenção, não se seduzir por resultados imediatos, não ceder a pressões externas, avaliar a empolgação, analisar se decisões intempestivas ou entusiasmadas tomadas hoje não comprometem o desenvolvimento do coletivo amanhã.

Foram as nossas decisões no decorrer dos últimos dez anos, focada nesse princípio básico, que possibilitaram a sobrevivência e subsistência dos membros da Pequena Companhia de Teatro até hoje. Não fosse assim, seria impossível ter resistido a anos de crise como o de 2009, com sua fatídica conjuntura político-financeira.

terça-feira, 30 de junho de 2015

A Pequena na Paraíba


 “Teatralidades: A Pequena Companhia de Teatro ocupa Sousa”, projeto de ocupação do Centro Cultural BNB – Sousa, na Paraíba, tem o patrocínio exclusivo do Banco do Nordeste do Brasil, através da Seleção de Projetos Culturais BNB 2014, edital viabilizado com recursos de incentivo fiscal, via Lei Rouanet.


A ocupação acontecerá de 01 a 17 de agosto, e contará com coquetel  de abertura, lançamento de livro, apresentações teatrais, debates, oficinas para atores, não atores e escritores, leituras dramáticas e intercâmbio entre a Pequena Companhia de Teatro e um grupo de teatro local.


Serão dois dias de viagem dos quatro membros da Pequena Companhia de Teatro, para percorrer os 1.161 Km que separam São Luís de Sousa, realizados de carro e reboque próprios, nos dias 01 e 02/08, com preferência para deslocamento diurno de 8h por dia.


O coquetel de lançamento do projeto e do livro “Cinco Tempos em Cinco Textos”, dramaturgia reunida de Marcelo Flecha, acontecerá no dia 04/08, e contará ainda com a leitura dramática do texto “Dois”, que, além dos atores Jorge Choairy e Cláudio Marconcine, contará com a colaboração inusitada de Katia Lopes na leitura das rubricas.


Dada as pequenas dimensões do palco do CCBNB, o espetáculo escolhido para a temporada, por sofrer menor prejuízo cênico na compressão da sua espacialidade, será Pai & Filho, com oito apresentações, nos dias 05, 06, 07, 08, 12, 13, 14 e 15/08, sempre às 20h.


Os debates, como de costume, acontecerão logo após as apresentações, e concentrarão seu foco na discussão da encenação e dos procedimentos metodológicos da Pequena Companhia de Teatro.


Apesar do curto espaço de tempo da ocupação, serão ministradas quatro oficinas, sendo, “O Quadro de Antagônicos como instrumento de treinamento para o ator” (05, 06 e 07/08) e “Do épico ao dramático: a transposição de gênero como instrumento de confecção de dramaturgia” (11 e 12/08), ministradas por Marcelo Flecha, e “O quê o meu corpo tem a dizer?” (13, 14 e 15/08), ministrada por Cláudio Marconcine.


Também acontecerá um intercâmbio entre a Pequena Companhia de Teatro e uma companhia de teatro local, que, ao participar da oficina “Leituras Dramáticas: o quê, como e por quê?”, facilitada por Cláudio Marconcine, será a responsável pela leitura dramática realizada no dia 11/08, como resultado de conclusão do intercâmbio e da oficina.


O retorno do coletivo será dia 16 e 17/08, quando iniciará as atividades de manutenção da sede da Pequena Companhia de Teatro, programadas para acontecer no último quadrimestre de 2015.

domingo, 21 de junho de 2015

Dialética patética


Faço um convite à reflexão. O Brasil se tornou um país de gritos, destemperos e boçalidades. Nós, cidadãos, perdemos a noção de civilidade e a função da cordialidade. Reflexão, argumentação, diálogo, são palavras extirpadas do dicionário cotidiano, e é o histerismo a única alternativa para nos livrar do anonimato. Como cidadão mediano, por vezes medíocre, preciso me alçar além da média, mesmo que seja através da brutalidade de uma pisada. Antes de ler, escrevo! Antes de ouvir, grito! Antes de pensar, ajo! Com esse comportamento revolu(rea)cionário busco a luz, mesmo que seja a de um trem vindo em minha direção. Meu canhestro propósito é aparecer, custe o que custar, e se me levar ao programa homônimo, tanto melhor. Se me render curtidas, aperto a ferida com mais força. Se não render, busco outro mote, outro pote, outro bote. A beleza está no olhar dos outros sobre mim, e não no olhar dos outros sobre o que vejo. Dialética patética é a que busca a síntese atropelando a tese e a antítese. Mediocrizado, vomito para todos os lados e atiro para os alvos e grito para todos os surdos, como eu. Homofobia, maioridade penal, Neymar, cota, cor e a PEC que o pariu, não importa, lá estou eu bufando, arfando, grunhindo, socando. Não discorro, atropelo. Não dialogo, duelo. Bruto, entorpecido, apostemado pela luxuriosa necessidade de aparecer, aponto o indicador como uma arma que defendo precisar para poder me defender. Pendo da direita para a esquerda qual metrônomo descompassado. Oscilo, vacilo, sem me importar em parecer Cirilo. Com Deus, sem Deus, com cruz, sem Crush, nem Fanta ou Jesus, vou atacando meu interlocutor qual gladiador enfurecido, ao som dos urros que incitam e dos olhos que contemplam a técnica da minha última punhalada. Quando eu vejo a coisa, não avalio a coisa. Não tento entender a coisa. Não analiso a coisa. Penso na coisa como minha inimiga, e o quão nefasta pode ser, se enfocada sobre o meu ponto de vista. Perdido o tempo, eu abandono a coisa, porque a coisa já não é tão coisa quanto eu preciso que seja, e, sedento, vou à busca de outra coisa que me possibilite rezingar. E assim passo as horas. Os dias. Os meses, os anos. Sentado em meus cristalizados conceitos, amarrado aos meus inseparáveis lamentos, alheio à construção do novo, porque o novo se faz andando, fazendo, e eu não me levanto para que não me surpreenda o desejo de caminhar. Não faço nada que esteja além do alcance da minha boca e dos meus dedos. Não doo sangue, não varro a calçada, não espero o sinal, não sou voluntário, nem atalho, nem galho, nem espantalho. Sou a falência da ação, a inércia por inteiro, outra voz do berreiro brasileiro.

domingo, 7 de junho de 2015

Manifesto de um morador da Praia Grande


Katia e eu somos moradores do Centro Histórico de São Luís há vinte anos, aproximadamente – ela a mais tempo do que eu. A Pequena Companhia de Teatro também é sediada aqui, na Praia Grande. Morar e estabelecer-se profissionalmente no centro da cidade é uma ação política, e uma atividade permanente.

Ouço e leio, com frequência, comentários acerca da importância de atividades com foco na ocupação do Centro Histórico de São Luís, sem ouvir por parte dos locutores e escritores a importância de que essas ações sejam permanentes.

Regularidade. Persistência. Paciência. Resistência. Permanência. Qualquer transformação só é possível a partir desses predicados. Manter um espetáculo em temporada regular possibilita ao espectador a decisão de ver uma apresentação quando ele quiser, e não quando o artista quiser que ele queira. São as ações regulares que aproximam o indivíduo de uma linguagem, de um projeto, de uma intenção, de uma apresentação, de um bairro.

Cante tango todas as terças na Praça Nauro Machado e os aficionados de tango lhe seguirão, como é de praxe, mas os menos apreciadores do gênero, sabendo da existência do empedernido cantor, saberão aonde ir quando o desejo inesperado de ouvir um tango se apresentar.

Sinto fastio ao ver meu bairro servindo de discurso promocional em esporádicos eventos, atividades, situações ou discussões e, em seguida, desqualificado pelos mesmos promotores com as tachas quase indissociáveis de sujo, perigo, decadente. Ao reforçar esse discurso não percebem que também desqualificam ações como a nossa: como assim, cara pálida? Eu moro aqui e não vejo a menor diferença entre a sujeira e a insegurança deste bairro e a de qualquer outro da cidade, inclusive os mais nobres.

Ademais, essas atividades quase nunca são acompanhadas de ações efetivas para a humanização da Praia Grande, pelo contrário, focam seus esforços em convencer o cidadão para que não deixe de aparecer durante o evento, aquele recorte de tempo necessário para o sucesso da empreitada – fator que provoca a curiosa situação de termos cidadãos ludovicenses visitando o Centro Histórico pela primeira vez. (Vale aqui a velha máxima, assunto para uma próxima postagem: cultura não é evento).

A única ação concreta que viabilizaria a humanização do Centro seria a residencial. A Praia Grande precisa de mais moradias, mais moradores, mais artistas moradores, mais reuniões de vizinhos, mais passeios com o cachorro, mais saídas para comprar pão, mais futebol na rua, mais cadeiras nas calçadas, mais zoada. Menos repartições, secretarias, instituições, burocracia. O Centro precisa de mais cheiro de gente depois das seis da tarde. Se a vida do homem só se efetiva em sociedade, um bairro só se efetiva se servir como instrumento de socialização desse homem, do contrário, vira um amontoado de prédios desusados. Portanto, se quiser ajudar, venda seu apartamento e compre um sobrado. Seria uma alegria tê-lo como vizinho, e poder lhe pedir uma xícara de açúcar emprestado.

domingo, 24 de maio de 2015

A celebrização da arte

O público, em geral, confunde artista com celebridade. Responsabilizo os meios de comunicação de massa pelo fenômeno. Também confunde fama com reconhecimento, pela ação dos mesmos responsáveis. Para esse público, menos acostumado ao convívio com as linguagens artísticas e mais próximo do padrão televisivo, se você não é célebre não é artista, e se você é artista está buscando a celebrização.

Essa situação, mais anedótica que incômoda, se ramifica com feroz alcance, ao ponto de constranger amigas docentes que, egressas do curso de Licenciatura em Teatro da UFMA, se depararam com a inocente sentença provinda de parentes e amigos: agora você já pode ir pra Globo, né?

A confusão formada, produto da visibilidade a qualquer preço, faz com que Renato Gaúcho e Dalton Trevisan se encontrem no mesmo balaio, correndo o risco de atribuírem-lhe maior fortuna crítica ao primeiro por ser possuidor de uma exposição mais acentuada. O que difere um do outro é que o vampiro de Curitiba não toma conhecimento disso, e o ex-atleta usa o conhecimento disso para forçar o seu reconhecimento. Sutil diferença.

Cabe à classe artística fazer um exercício para que o fenômeno da celebrização do artista não prospere, fazendo com que a arte volte aos holofotes e os artistas voltem para seus estúdios e estudos, deixando claro que o ganha pão da celebridade é a exposição e o ganha pão do artista é a sua obra.

Claro que, em alguns casos, a superexposição é inevitável e alguns grandes artistas provaram em vida essa notoriedade, mas, outros, submersos nas entranhas das suas elucubrações, morreram esquecidos porque sua genialidade estava acima da compreensão dos seus contemporâneos – não digo que estes últimos, também, não desejassem reconhecimento, mas asseguro que pouco se importariam com a fama.

Foi exatamente a confusão entre fama e reconhecimento que fez surgir essa recente corrida desenfreada para a luz, que turva o olhar do cidadão fazendo-o misturar a fama de quem emplacou um vídeo tosco dançando na internet com o reconhecimento de um grande bailarino.

Um artista pode ser reconhecido e respeitado em todo o país e não necessariamente dar cabida a essa famosidade predatória de paparazzi, gourmetizações, casamentos, e milhões. A bem da verdade, o conceito de fama eufórica vem mais assustando que cooptando os operários da arte que buscam, nas suas linguagens, a revisão do seu papel na antropologia cultural, apesar de falharem no momento de democratizar seus conteúdos, mantendo o povo distante da possibilidade de compreensão das diferentes realidades artísticas e seu lugar nas páginas da história.

Como consequência, o público ao que me refiro neste escrito, entende por fama o ápice da carreira – mesmo que tenha sido adquirida matando os pais, esquartejando a namorada ou alimentando seu cãozinho com foie gras – sem entender que o reconhecimento se dá através da valoração atribuída à trajetória de um agente que contribuiu de alguma maneira para a transformação do seu entorno.

Um grande passo seria dado se conseguíssemos, ao menos, fazer com que a Dona Antônia da padaria entendesse que uma Licenciada em Teatro quer ser uma ótima professora e não a mais nova célebre desconhecida da semana.
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domingo, 17 de maio de 2015

Você sabia que...


... o espetáculo Velhos caem do céu como canivetes foi selecionado para a Mostra Internacional de Teatro Paraíba Encena 2015? Foram mais de quinhentos inscritos para um recorte de oito espetáculos internacionais, oito nacionais e oito paraibanos. A curadoria dos espetáculos ficou a cargo de Valmir Santos e Marcelo Bones que indicaram a Pequena Companhia de Teatro como uma das oito representantes nacionais. Será a oitava mostra de teatro que o espetáculo participa, sendo a primeira internacional. Desde sua estreia, a encenação realizou trinta e quatro apresentações e esteve em sete cidades de três estados brasileiros. A Paraíba é um dos sete estados que a Pequena Companhia de Teatro ainda não visitou com seu repertório, e 2015 oferece essa oportunidade em dose dupla: Pai & Filho estará em Sousa/PB realizando projeto de ocupação do Centro Cultural BNB e, agora, essa agradável notícia. Aqui nossa gratidão ao MITpb-2015 pela oportunidade.

domingo, 10 de maio de 2015

Lei Rouanet ou a diferente lógica de um artista

Vinte anos da minha relação com o mecenato

Tem coisas que o mercado não entende. Coisas que não dizem respeito ao intrínseco mundo do dinheiro, do comércio, do negócio. Aqui sintetizarei todo esse conceito econômico-financeiro em um termo que será tratado como uma entidade, um fantasma, um encosto: Lei Rouanet. Ela não entende que a Pequena Companhia de Teatro não tenha um carro e que use o meu, sem dó nem piedade, e sem pagar nada por isso, por acharmos necessário otimizar os custos para podermos viabilizar nossos projetos. A lei Rouanet não entende que o motorista desse mesmo carro seja eu, e que já tenha dirigido mais de trinta mil quilômetros em projetos de circulação sem receber um único centavo a mais do que os recebidos por Katia, Jorge e Cláudio, pelo mesmo propósito anterior: otimizar, viabilizar, realizar. A lei Rouanet não entende que a Pequena Companhia de Teatro jamais teria condições de comprar uma sede como a nossa, e que eu gastei tudo o que juntei na vida e parte do que herdei do meu pai para comprar um teatro, e que o prazo de retorno do investimento é de trezentos e cinquenta anos. A lei Rouanet não entende que dirigi o espetáculo Medeia, um fragmento, para a Cia. A Máscara de Teatro, gratuitamente, por acreditar no trabalho do coletivo mossoroense. A lei Rouanet não entende que pelo cachê de direção eu também faço o cenário, a iluminação, o figurino, opero luz e som, teorizo, faço a faxina e cuido do jardim. A lei Rouanet não entende que o espetáculo O Acompanhamento só existiu graças à clandestinidade e que a clandestinidade é fundamental para a existência da arte. A lei Rouanet não entende que plateias de cinquenta pessoas são tão importantes quanto plateias de mil e quinhentas. A lei Rouanet não entende que um homem pode não ser ambicioso, ganancioso, interesseiro, mercenário. A lei Rouanet não entende que a prestação de contas é uma ação e não uma profissão. A lei Rouanet não entende que o meu maior patrimônio é o meu conhecimento. A lei Rouanet não entende que eu faça oficinas de graça, palestras de graça, treinamentos de graça, consultorias de graça, mapeamentos de graça, jantares de graça, pesquisas de graça, quando a situação me é cara. A lei Rouanet não entende que todo artista bate o escanteio e corre para cabecear. A lei Rouanet não entende de utopia. A lei Rouanet não entende que, ainda jovem, troquei um caminho fértil para fazer dinheiro por fazer teatro, e que ganhei mais correndo o mundo do que correndo atrás de grana. A lei Rouanet não entende que a lei é para todos. A lei Rouanet não entende que fazer teatro é decepcionar a família, virar piada entre os amigos, receber a pecha de boa-vida. A lei Rouanet não entende que o Brasil é maior do que o Projac. A Lei Rouanet não entende que mesmo que desapareçam as leis eu continuarei fazendo teatro. A Lei Rouanet não entende que a lógica, o pensamento, o desejo do artista é diferente do que almeja um investidor. A lei Rouanet não entende nada de arte. A lei Rouanet não me entenderá jamais.

domingo, 3 de maio de 2015

Canção para o pequeno ato


Um provérbio africano atribuído a Eduardo Galeano, ou vice-versa – não tenho fonte segura que garanta a origem da sentença –, sintetiza o pensamento da Pequena Companhia de Teatro desde sua fundação: Mucha gente pequeña, em lugares pequeños, haciendo cosas pequeñas, pueden cambiar el mundo.  É nisso que acreditamos. É nisso que acredito. Nunca imaginei, esperei, pretendi ou sonhei que nossas ações encontrassem eco e reverberação imediata, muito menos que contribuíssem para qualquer tipo de transformação em curto prazo. Sou um homem que sempre investiu no longo prazo, mesmo sem deixar filhos biológicos para herdar qualquer tipo de transformação defendida por mim. O sonho de construir um mundo melhor nunca se relacionou com o melhor futuro para os meus; sempre pensei nos meus, nos teus, nos nossos, e sempre acreditei que a vida com teatro seria melhor para todos. Melhor no sentido existencial, não no sentido midiático da felicidade a qualquer preço, do desespero do ter, da exposição do ser, da aparência do estar, da salvação do crer; seria melhor porque o teatro confunde as certezas, acachapa a soberba, refuta o conformismo, sabota a impaciência. Numa sociedade atrofiada pela celebração da frivolidade, o teatro é a pequena pedra no sapato, que faz manquejar o dono do andar mais elegante, porém, nunca estará entre as estatísticas das atividades que influenciam o mundo, nem será capa, chamada, destaque, assunto. A influência do teatro é uma questão antropológica: você não a percebe, não a celebra, ela está. O que aqui escrevo não é uma declaração de princípios, é apenas a aclaração do por que a pequenez defendida pelo provérbio me é tão cara. São as pequenas coisas que movimentam meu entusiasmo teatral: a peculiar atmosfera da sala, o olhar virginal do espectador, as batidas de Molière, a rudeza do encontro cara a cara e a consumação da arte sem edição. Pequenas e intensas coisas. A imensidão dos grandes projetos quase sempre naufraga na própria pretensão. O teatro é uma dessas pequenas coisas que podem mudar o mundo, fazê-lo refletir e refleti-lo para que se veja. As ações pequenas comem pelas beiradas, sabendo que não se atinge o centro sem passar pela periferia. Eu falo por mim, a Pequena Companhia de Teatro fala através das suas ações e, claro, através do próprio nome: Pequena. Foi pensando nisso que Katia, Jorge e eu a denominamos em uma tarde à beira-mar. Depois de passados dez anos, não consigo encontrar nome mais acertado para a nossa empreitada.

domingo, 26 de abril de 2015

A arte precisa de entrelinhas


O que vale na arte? O que ela é ou o que os artistas são? Por diversas vezes elaborei projetos para editais culturais de circulação de espetáculos teatrais que não requeriam sequer um vídeo, um link, ou algo que desse acesso ao espetáculo, porém, exigiam matérias jornalísticas, críticas, currículo etc. Na labuta de tentar pensar como um parecerista, sempre que isso ocorre, me pergunto: como selecionar um espetáculo para circular sem vê-lo? A resposta dada pelo conteúdo dos próprios editais sempre está ancorada na relevância cultural da obra. Mas, o que determina essa relevância, se não a avaliação da própria obra? A quantidade de público? O número de matérias de capa? O nome do artista? A quantidade de críticas? O nome do crítico? Vivemos na cultural da visibilidade e certas armadilhas merecem cuidado: se o artista precisa desesperadamente criar e cultuar o mito pessoal – como se isso fosse possível –, é esperar demais que ele encontre tempo para criar uma obra e esperar que seja cultuada por nós outros. Nós, espectadores-leitores-ouvintes, só receberemos lampejos do tempo criativo desprendido na produção da obra, pois, a maior parte desse tempo, foi ocupada na articulação do mito pessoal e na reverberação do mesmo. Acham que estou delirando? Vou dar um exemplo: frequentemente vemos, nas redes sociais e no tête-à-tête, artistas tentando emplacar seu pensamento, sua imagem, seu estilo de vida, sua alimentação balanceada. Na maioria das vezes, nós, espectadores-leitores-ouvintes, sabemos que essa pessoa é artista, contudo, não lembramos qual foi a última obra concretizada por ele. Qual foi o último espetáculo que fez? A última música que compôs? O último livro que escreveu? A última exposição de artes que realizou? (Lembrando que, para esta postagem, fotos esquisitas em redes sociais não contam como obras de arte). Na atualidade, emplacar uma imagem de artista, um comportamento de artista, um estilo caricaturado de artista, parece ser mais eficiente do que desperdiçar anos produzindo arte. Essa ilusão, que costuma confundir artista com celebridade (tema para uma próxima postagem), gera um universo paralelo de pessoas auto-cultuadas, polêmicos de botequim, criadores do invisível, bufões virtuais, artistas sem arte. Cabe a nós, reles espectadores dessa trágica confecção de mitos, extricar os artistas dos mitômanos. Eu me divirto fazendo esse exercício.

domingo, 5 de abril de 2015

Manifesto calado


A Pequena Companhia de Teatro está perto de completar dez anos de existência – eu existo, teatralmente, há quase trinta. Estamos em exercício artístico permanente desde a sua fundação. Durante essa década não recebemos nenhum tipo de apoio, patrocínio, olhar, aceno ou o que quer que seja oriundo de políticas públicas culturais do governo estadual. Por isso, penso que é o estado que tem que me provar que alguma coisa mudou. Nosso esforço continua se focando na tentativa de conseguir mecanismos para produzir cultura e democratizá-la para o maior número de pessoas possível. Acredito que esse seja um posicionamento político importante. O meu silêncio em relação às movimentações reivindicatórias teatrais recentes está assentado nesses fatos. Vejo com carinho o movimento, e acho a ação de um valor inestimável, só não me vejo em condições de auxiliar de alguma maneira, tendo em vista que meus apelos vêm sendo ignorados há quase trinta anos, desde o movimento teatral do interior, no final dos anos oitenta. Entendam que se em momentos uso a primeira pessoa do singular, é porque o que aqui manifesto não representa a voz da Pequena Companhia de Teatro, e sim, minha opinião. Lembro com ternura, no início da década de noventa, um dos tantos encontros – esse ocorreu em uma mesa de bar com o então secretário de cultura do estado –, onde nosso mais arrojado projeto e desejo era que uma vez por semestre pelo menos um espetáculo da cidade de Balsas pudesse visitar Imperatriz e vice-versa – na época, os dois municípios do interior com um polo cultural mais organizado. Nem preciso relatar o resultado concreto desse encontro, mas posso contar que a “circulação” aconteceu, independentemente da presença do poder público. Como se pode imaginar, isso cansa, mas, fazer teatro, não. É o que continuo fazendo. Se em algum momento alguém conseguir provar que o poder da minha voz tem alguma serventia, voltarei aos berros como o mais entusiasmado manifestante. Contudo, certo da minha invisibilidade, permaneço fazendo teatro. Claro que os amigos mais próximos, e alguns generosos admiradores, vão ressaltar a nossa valia e blá-blá-blá, mas, acreditem, sei do que estou falando: somos invisíveis. Alguns companheiros, envelhecidos como eu, podem sentir e saber do que estou falando, mas, a grande maioria lerá este posicionamento como acomodação, estagnação, enfado. Minha resposta continua sendo a mesma, eu me mantenho, ininterruptamente, fazendo teatro. Isso é um posicionamento político. E, sim, estou velho. Cansado de me ocupar com tudo o que não se refere à prática artístico-teatral, inclusive reivindicar o óbvio. Contudo, não vi, recentemente no Maranhão, discurso político mais explícito que o espetáculo “Velhos caem do céu como canivetes”. Para quem acha que não serve de nada, sugiro aguardar os próximos cinquenta anos, pois, não se pode pretender que as coisas mudem com um aceno. Acredito que, se nesses trinta anos, eu tivesse feito muito mais teatro do que fiz, e democratizado esse fazer para um número muito maior de pessoas, quem estaria reivindicando por ele seria o povo e não a classe. Agora, caros leitores, é apenas minha opinião e não creio convencer ninguém. Portanto, não me exijam a participação em polêmicas virtuais porque, também, estou velho para isso. Para aprofundamento dialético recebo interlocutores em domicílio, sempre regado a um bom vinho. Posso ser invisível, todavia, sou de carne e osso.

domingo, 29 de março de 2015

Pequena Mostra de Teatro

 

Temos o desejo de criar um encontro teatral de caráter intimista, que selecione sete companhias brasileiras para uma vivência de uma semana, envolvendo apresentações de espetáculos, atividades formativas, debates após as apresentações, celebração, produção escrita de críticas e conteúdos teóricos, permuta de livros e materiais relacionados, e um fórum informal de discussão permanente.

O eixo curatorial da mostra seria o diálogo entre a experiência cênica selecionada e a particularidade do espaço cênico disponibilizado, a sede da Pequena Companhia de Teatro – um prédio de três pavimentos localizado no centro histórico de São Luís. A particularidade se daria pelo fato da sede oferecer, além de uma sala multiuso, com capacidade entre 50 e 100 espectadores (dependendo da configuração da encenação), diversos outros espaços: um pátio, um salão colonial, uma residência, um banheiro de 21m², um amplo camarim, uma varanda, onze sacadas, escadaria etc.

A ideia seria apresentar para a comunidade uma mostra orgânica, onde a espacialidade e o espetáculo estivessem em harmonia, dando ao espectador aquela sensação de que o espetáculo só poderia ser encenado ali; como se a mostra e o espaço respirassem juntos, tornando nossa sede um ponto de congruência de criatividade, reflexão, intercâmbio e prazer.

Outra particularidade da mostra seria a permanência das sete companhias durante todo o evento. Na busca de recuperar o diálogo e o intercâmbio que foram perdidos na maioria dos festivais e mostras de teatro da atualidade – afirmação sustentada nos mais de quarenta eventos que participamos nos últimos anos –, a proposta seria que os artistas permanecessem em constante contato, formatando um Fórum Informal de Discussão Permanente, sem horário ou tema fixo – principal atividade de produção de reflexão, promovida pelos provocadores, que poderiam ser os membros da Pequena Companhia de Teatro ou convidados.

Como eu disse, é só um desejo, uma ideia. Normalmente buscamos fazer que a ideia, mesmo embrionária, seja bem organizada, porque nunca se sabe o momento em que a vida vai nos demandar o próximo projeto. Nossa persistência caminha no ideário de extrair, do prazer do nosso fazer, o nosso sustento, e para isso, brincamos de imaginar o que gostaríamos de fazer. Esprememos nosso juízo buscando as opções que o teatro nos oferece, tentando estabelecer uma visão estratégica que garanta o nosso sonho. Às vezes nos falta o mecenas. Alguém se habilita?

domingo, 22 de março de 2015

Divagações de uma mente sem lembranças

"Eles passarão... Eu passarinho!"
Hoje, dia 22 de março, faz 37 anos da morte de Peregrina Jacinta Villani, minha mãe. Atendia pela alcunha de Pele, mamá, tia, dependendo de quem lhe fizesse o chamado. Como eu tinha dez anos na época, tudo o que advém da tentativa de escrever a respeito dela, não passa de memórias ficcionais, lembranças inventadas, sensações. Em uma dessas recordações construídas vejo minha mãe brincando de telequete com seus três filhos; vejo a tampa do saleiro soltando da sua mão e salgando o macarrão no acampamento; vejo seu desespero ao abrigar dois dos seus filhos em um toró fenomenal; vejo roupas costuradas, pratos servidos, banhos dados, fardas passadas, carões e gargalhadas. No mesmo lampejo de ficção, vejo a semelhança entre minha mãe e Katia, quando a gargalhada se transforma em ataque de riso e, rindo sem parar, uma mistura de gaitadas, lágrimas e urina consegue contagiar o mais amargo dos seres.

Sou diretor de teatro, coisa que minha mãe jamais imaginaria. Se estivesse viva, não creio que meu caminho fosse esse, mas costumo idealizar que dela herdei a sensibilidade artística, tendo em vista que meu pai é um homem mais pragmático. Ela morreu muito cedo, com 36 anos, mais ou menos a idade que eu tinha quando fundamos a Pequena Companhia de Teatro. Penso no que ela sonhou e não realizou. É como se tudo o que eu vivi de lá para cá fosse o sonho de uma vida não vivida. Talvez por isso eu tenha vivido a vida até aqui com a maior intensidade possível, por suspeitar que somente este seja o principal mandamento da natureza humana. O que fazemos, o que sentimos, o que vivemos. A efemeridade do teatro é a efemeridade da vida, e a única maneira de marcar nossa passagem é vivendo, prazerosamente. O resto é desejo ególatra de transcendência. Pois, como tudo passa, passaremos.

domingo, 15 de março de 2015

A inauguração da não postagem


Hoje eu queria escrever para os que têm fome. Os desprovidos. Os sem celular, sem internet, sem pizza de domingo, sem TV, cabo, parabólica, para-raios. Hoje queria escrever para os sem teatro, sem cinema, sem circo, sem som, sem poema. Os sem teto, sem casa, sem palhoça, sem barraca. Os sem fazenda, tenda, vivenda, vidraça. Hoje queria escrever para os sem voz. Os mudos que gritam para ouvidos moucos. Hoje queria escrever para os que não sabem ler, e ler, para cada um deles o que agora escrevo. Analfabetos, destituídos, despidos. Sem roupa, sem shampoo, sem shopping, sem chá de boldo, sem cartões de débito, sem crédito, crediário, balneário. Os sem carro sem carroça sem Carrefour. Hoje queria escrever para os sós, os solitários, os abandonados, os largados, os excluídos, os invisíveis. Os anoréxicos compulsórios, os jejuadores de nascença. Os sem berço, os sem bolso. Os sem estirpe, linhagem, origem. Os sem nome, sobrenome, codinome. Escrever para os que só têm algo quando sobra. Os sem bandeira, os sem panela, os sem domingo, os sem feriado, os sem férias, os sem feira. Os sem beijo de boa noite, os sem caminha limpinha e quente, os sem dentes. Os sem passado, sem presente, sem futuro. Os sem pão duro. Escrever para os pobres, os miseráveis, os indigentes. Os sem saúde, sem samba, sem túmulo. Os sem mundo. Hoje queria escrever para eles, mesmo sabendo que nenhum lerá esta postagem.

domingo, 1 de março de 2015

A velada virtude da insignificância


A sede da Pequena Companhia de Teatro é um bem privado de usufruto público. Como tal, apresenta ações concretas para a construção de uma política cultural pública que deveria ser responsabilidade do estado. Em 2014, por aqui passaram mais de mil pessoas, entre espectadores, visitantes e participantes de oficinas teatrais e literárias, debates, aula-espetáculo, seminário, reuniões, jantares; todas atividades de acesso gratuito. Para a manutenção dessas ações, que se estendeu durante todo o ano, o poder público investiu menos de três mil reais – valor oriundo da esfera federal. Sabemos que se o espaço fosse um bem público, o valor gasto para a manutenção das mesmas atividades seria estratosférico. O aporte previsto para manter as mesmas atividades em 2015 é de zero real, ainda assim, elas acontecerão, com maior ou menor frequência, dependendo do desejo do interlocutor – espectador atento ou discente ávido. A omissão do estado na construção de politicas públicas eficientes onera o cidadão, que acaba exercendo uma função que deveria ser exclusividade do poder público. Dou um exemplo: nosso eixo curatorial, guiado pela própria produção artística da companhia, oferece um recorte do fazer teatral ancorado na pesquisa. Além de companhias locais que dialoguem com esse recorte, em 2015 provavelmente passarão por aqui o Coletivo Alfenim, A Cia. A Mascara de Teatro, O Grupo Magiluth, a Cia Tabu, etc. Se você quiser fruir desse recorte, você sabe onde encontrar. Ao oferecer um espaço e um calendário para uma forma específica de fazer teatral, a Pequena Companhia de Teatro está criticando a falta de uma política cultural pública eficiente e colaborando para a formação do cidadão capaz de reivindicá-la. Todas as nossas ações são políticas. Oferecer formação é uma forma de revolucionar; o discurso teatral é uma forma de protesto; democratizar o acesso a um bem cultural é uma forma de reivindicação; viver de teatro é uma forma de se posicionar politicamente – você não lembra, mas já tratei disso aqui.  O curioso é que a ausência do estado – falo agora das esferas municipal e estadual – não se dá pela falta de apoio, e sim, no total desconhecimento da existência dessas ações. Os governos municipal e estadual não fazem a menor ideia do que seja uma pequena companhia de teatro. Nunca souberam. Por isso creio que alguns gritos são mudos. Já que somos invisíveis, nossa reivindicação se dá através da ação; fazendo, ininterruptamente, aos trancos e barrancos, como nos últimos dez anos. Quem sabe, um dia, o poder enxergue, e faça seu trabalho, educando. A educação é a única forma de outorgar o poder ao povo.

domingo, 15 de fevereiro de 2015

O caminho


Lendo (e vendo) Os Livros de Miranda, uma pergunta feita durante um dos diálogos entre Maurice e Fernando me tomou de assalto: O que falta para esse ator? A pergunta atinge o cerne do ofício de diretor, pois, sua função, cabe na fenda apresentada por essa indagação. O ator é o ser absoluto do rito teatral; é ele que produz o estado, determina a ambiência, constrói a atmosfera, provoca o diálogo, materializa a ideia. Quanto maior a presença do ator, menor o interstício deixado pela pergunta – não se trata aqui de maior ou menor qualidade, e sim, das dúvidas, bloqueios, vacilações que qualquer processo de montagem gera no ator, com maior ou menor intensidade, dependendo de cada caso. Quando essa greta surge, o desafio de preenchê-la se apresenta para o encenador, e este é convocado para sanar, com suas falências, as incertezas dos seus pares. É o exercício de quebrar-se, para que o som vindo dos ossos partidos ecoe além do óbvio, e chegue ao ator em forma de magma – quente e barroso, para que o ator possa laborar. O que falta para esse ator? No teatro, uma pergunta não deve receber respostas, e sim, caminhos. O segredo do nosso ofício está na forma de sugerir caminhos, e na coragem para acompanhar a caminhada. Se o caminho for tortuoso, a dor será conjunta. Se circular, retornaremos juntos ao mesmo lugar, para partir de novo. Se árduo, a fadiga será mútua. Se certeiro, o gozo só durará até a próxima pergunta. No teatro, as encruzilhadas são de tão diverso mistério, que não há possibilidade de ensaiar uma alternativa, uma solução, um procedimento, antes que o imbróglio aconteça; por isso os caminhos, por isso a permanente suspensão da certeza, por isso o virginal sobressalto, e o exercício criativo que advém dessa pressão. Quando um encenador pensa saber, sabe menos do que pensa. Quando oferece o que não sabe, proporciona a construção de um saber coletivo – fenômeno basilar para a constituição do fenômeno teatral. Para tal, o diretor de teatro precisa se apresentar em estado permanente de presença criativa, mesmo que não consiga criar nada. Se essa presença arrefecer, corra para debaixo da mesa.

domingo, 8 de fevereiro de 2015

Ler & Escrever


O exercício de escrever semanalmente requer disciplina, opinião, inventividade e coragem. O exercício de ler semanalmente o que o amigo escreveu requer paciência, generosidade e disposição. Ler e escrever são gumes da mesma faca. Opostos, se encontram em ações complementares. Enquanto o cursor corre formalizando a opinião, o olhar corre redimensionando o conceito. Escrevo porque algumas coisas me são urgentes, e não conseguem esperar o próximo espetáculo. Porém, também escrevo porque não há mais nada para dizer. Claro está que o valor das opiniões que aqui expresso não superam a simples desnecessidade de escrever. Quando Jorge sugeriu este espaço – vão-se cinco anos de insistência – eu conjecturava solitário tudo aquilo que agora aqui despejo, e permaneço só, munido da ilusão de que algum leitor ainda exista, porque sozinho está aquele que se arriscou e pegou uma caneta pela primeira vez. Escrevinhando. Um escritor é um amontoado de poemas. Um escritor é um emaranhado de romances. Um escritor é um labirinto de contos, ensaios, crônicas, a esconder aquela palavra maldita capaz de sintetizar a linguagem e fazê-lo calar. Se a vida é o desencontro do todo com o nada, a existência do escritor só se justifica se for para falar do nada e escrever de tudo. É o que faço hoje aqui, escrevo; sem conteúdo, sem coesão, mas com a coerência de quem acredita no que escreve, porque vêm do rascunho da minha vida as experiências que transformo em texto. Ao encontrar um leitor, esse texto se renova na experiência do outro, e a trivialidade das palavras escritas ganham cor, uma a uma, pintadas pelos olhos de quem lê, num mosaico multicor único e exclusivo daquele leitor, naquele momento, com aquele texto. Experiência intransferível. Cores inimagináveis. Ler e escrever são como unha e carne, se separadas, sangram. Ao conseguir sua atenção até aqui, torno-me afortunado, porque você já percebeu que hoje trato de algo sem dizer nada, e, ainda assim, você está aqui, atendendo ao meu convite: deslizar o olhar pelas frases que compõem um texto. É um dos meus mais caros desafios: garimpar leitores. Por isso me causa espanto uma expressão utilizada em blogs e redes sociais: seguidores. Eu não tenho seguidores, tenho perseguidos.

sábado, 31 de janeiro de 2015

Antagônicos e o descarte

O Quadro de Antagônicos compreende dezoito palavras a receberem representações físicas, conforme relacionadas aqui. Uma das particularidades que torna o QdA um instrumento eficiente na construção de uma personagem teatral é o descarte, a exclusão, a via negativa. Diferentemente de outras práticas teóricas onde a experimentação do ator visa catalogar o que de melhor é produzido nessa experimentação, no nosso caso é o descarte do que não é interessante que orienta a prática. Parece a mesma coisa, mas é diferente. Quando o ator descarta um antagônico, depois de experimentar fisicamente todo o quadro, na busca do melhor antagônico para a construção da sua personagem, ele aumenta o tempo de pesquisa, pois, ao descartar um, permanece experimentando os outros dezessete. Se o ator fizesse previamente a escolha de apenas um antagônico, baseada no tipo físico que melhor dialoga com a personagem em questão, e começasse a trabalhar somente com esse antagônico, o ator reduziria em 95% as chances de encontrar caminhos mais orgânicos na construção da sua personagem. Para isso, é imperativo não gerar nenhuma preconcepção, prejuízo ou preconceito, sob pena de limitar a potencialidade criativa das experimentações. Dando um exemplo grosseiro: se a personagem a se construir é gorda, a escolha racional do antagônico Peso, além de óbvia, reduziria significativamente as alternativas de nuances que poderiam aparecer na construção da personagem, a partir da experimentação física de antagônicos menos óbvios, como a Tensão, a Lentidão ou, até mesmo, a própria Leveza. O que o Quadro de Antagônicos propõe é uma ruptura com a ditadura da seleção, da escolha do melhor, proporcionado ao ator um trânsito por regiões que ele jamais escolheria. Essa inversão alarga a extensão de alternativas, pluralizando os caminhos para a construção de uma personagem. Na contramão das estruturas técnico-teóricas vigentes, a negação, a recusa, a sobra, o descarte, podem ser um caldo de potência criativa esperando alguém vir sorver.

domingo, 18 de janeiro de 2015

Penso, logo, resisto


Creio que pela idade que me distancia destas, algumas pessoas me chamam de professor. Não sou professor, não tenho licenciatura. Nem, ao menos, curso superior. Tampouco sou intelectual, como arriscam outros mais despudorados e gentis. Me considero um pensador. Penso. Não pensasse, rastejaria. Pensador como você, que pensa por que estou a elucubrar sobre este assunto. Trato-o em defesa do pensamento. Em defesa da presença do pensamento no teatro. Em defesa da reflexão. As recentes experiências sensórias, fragmentadas, desconstruídas, processuais, performateatrais, pós-qualquer-coisa, estão extinguindo o pensamento. Pensar não é mais uma condição basilar para a fruição de teatro. A relação do espectador com a fortuna polissêmica e polifônica contemporânea pode ser a de “um jegue olhando para um castelo”, como diria o velho Adelmo. Basta contemplar o incompreensível e se assombrar com a magnitude sensória daquilo que nada contém. Nem pensamento nem sentimento. Espectador que sou, estão me subtraindo o direito de pensar, e me coagindo a um sentir não emocional; a um sentir tátil, olfativo, gustativo, esteticovisual, ruidossonoro. A contemporaneidade não tem esse direito. Quando me percebo partícipe do fetiche ególatra de algum neoteatrista – ao espectar outras das tantas experiências modernoarcaicas – a única sensação que emana do meu corpo é o calor provocado pela ira. Me ofende participar desse joguinho pseudovanguardista. Me ofende a presunção de acharem que conseguem camuflar o engodo. Me ofende que subestimem minha inteligência ao recriar o famigerado clichê do choque. Me ofende a subtração do meu pensar. Já a pecha de antiquado-careta-retrógrado-velho que começa a se desenhar no pensamento de alguns amigos, durante a leitura deste artigo, fazendo surgir aquele risinho no canto da boca, não me ofende, me defende. Porque não renego minha história nem a história da humanidade. Foi a soma do meu quase meio século de vida, construído a partir do exercício do pensamento, que me trouxe até aqui. Que me possibilita separar arte de artistice. Por isso reitero: o estupro ao pensamento deve parar. Parará, com as décadas. Lamento que, até lá, nosso cérebro já não esteja apto para o pensamento, e sim, embrutecido pelo instinto sensório peculiar a qualquer animal da fauna terrestre.

sexta-feira, 26 de dezembro de 2014

Você sabia que...

... a Pequena Companhia de Teatro promove, nesta segunda-feira, dia 29, o seminário "A crítica teatral e a formação de plateia: exercício de ambos"? O evento, que acontece às 19h, na Rua Vinte e Oito de Julho, 295, contará com a participação do Prof. Dr. Gilberto Freire de Santana e do jornalista André Lisboa, e mediação do ator Cláudio Marconcine. A entrada é franca e o acesso se dará por ordem de chegada até atingir a lotação. Até segunda, então!

Ecos da última jornada


Gosta de literatura e teatro e não abre mão de um texto primoroso, mas acha que em São Luís não há variedade de opções de espetáculos teatrais? Eu quero te alertar e te dar uma boa notícia.
 
O alerta é: assim como eu estava, você também está desinformado.
 
A boa notícia é: você tem sim um teatro experimental, cru, que desperta sensações, provocativo e intenso. Pude concluir isso ontem ao assistir A pequena Companhia de Teatro na peça: “Velhos caem do céu como canivetes”, livremente inspirado no conto “Un Señor Muy Viejo com Unas Alas Enormes” de Gabriel Garcia Marques.
 
O grande escritor latino ficaria feliz em ver a adaptação que fizeram aqui. Uma crítica ao homem, seus grupos e instituições, suas pobrezas espirituais. Um retrato da humanidade desconectada do divino e transcedente. Provocações e reflexões sobre o poder, a ganância, o amor, a amizade, a política e a história. O universo onírico do realismo fantástico de Garcia pode ser plenamente sentido na elogiável adaptação feita. Destaco as interpretações intensas dos atores Claudio Marconcine e Jorge Choairy.
 
Que Jorge é um dos nossos melhores Djs, todo mundo sabe. Convido a todos fãs do seu trabalho a conhecerem também o ator Jorge Choairy em cena. Vocês verão que a qualidade é a mesma.

Destaco também a excelente direção de Marcelo Flecha. Além das excelentes atuações, impressiona o trabalho de expressões corporais dos atores em cena. Impressionante, aliás, foi a palavra que foi mais comum na descrição da peça ao final da mesma.
 
Pra quem procura teatro de primeira linha, não há justificativas pra não ir. E Hoje acontece a última apresentação desse ano, então não vacilem.
 
Ah, ia esquecendo: é GRÁTIS.
 
O espetáculo começa às 19hs na Pequena Companhia de Teatro, no Reviver. Agilizem-se. Recomendo muito.
 
Dê a você mesmo esse presente de natal.
 
Nivandro Costa Vale
 
IMPREVISTO BOM:
 
Tive a alegria de conhecer, hoje (antes tarde do que nunca), o trabalho do teatrologo e diretor Marcelo Flecha. Trata-se da peça Velhos caem do céu como canivetes, inspirada num conto de Gabriel Garcia Marquez. Como o que é muito bom dura pouco - sobretudo em nossa ilha - amanhã, às 19h, será a ultima apresentação.
 
Música, cenário, figurino, texto, direção são irretocáveis. Mas o trabalho dos atores, ultrabem dirigidos, é comovente.
 
O ator Jorge Jorge Choairy, faz um trabalho primoroso e um contraponto ao personagem do ator Claudio Marconcine. Um belo jogo cênico se dá entres os dois, o trabalho de expressão corporal é um capítulo a parte.
 
Espetáculo Lindo, sério, urgente, imperdível, deve ser visto ate amanhã por todos aqueles que, como eu, sentem-se órfãos de espetáculos que ousem ir além do mero entretenimento.
 
Despeço-me com votos de que vocês possam amanha, segunda 19h, desfrutarem desse belo trabalho da Pequena Grande Companhia de Teatro.
 
Prestigiem! Convidem pessoas que vc gosta muito. Faça esse carinho em quem te é importante. E, de quebra, contribua para que o bom teatro tb tenha vez e voz entre nos.
 
William Amorim
 
Ontem fui assistir a peça "Velhos caem do céu como canivetes", na Pequena Companhia de Teatro, em que o amigo Jorge Choairy atua e por indicação de Nivandro Costa.
 
Cheguei a duas conclusões: a primeira é que é facinho reclamar que a cidade não tem nada de bom cultural, mas tá lá, espetáculo de primeira grandeza, som, atuação e luz fuderosos, DE GRAÇA, numa segunda-feira. Reclamamos de barriga entupida. Ainda falta, claro que sim, mas se sairmos da inércia, achamos grandes e lindas coisas.
 
Segundo: nunca vou descobrir se é anjo ou galinha, mas não importa o que somos, desde que sejamos algo que some na vida de alguém.
 
Viva as segundas de surpresas!
 
Milla Camões