sábado, 28 de maio de 2016

Sobre cultura, ministério, leis e artistas milionários


Tenho ouvido tanta necedade a respeito de cultura, ministério, arte, Lei Rouanet e artistas milionários, que chego a pensar em me tornar homem-arte, e passar a explodir com cultura e informação os ingênuos ou energúmenos que propagam disparates ao léu, sem medir as consequências.
 
Recentemente retornamos da 1ª etapa do projeto SESC Amazônia das Artes, onde visitamos algumas capitais de estados da Amazônia Legal – Palmas/TO, Porto Velho/RO, Boa Vista/RR e Rio Branco/AC – e em agosto concluiremos a circulação de Velhos caem do céu como canivetes pelos outros estados da região amazônica – Manaus/AM, Belém/PA, Macapá/AP, Cuiabá/TO e Teresina, no Piauí, que, apesar de não fazer parte da região, é convidado por apresentar condições socioeconômicas parecidas.
 
 
"É a arte que nos ensina que não é necessário ter para ser, e que todo poder sucumbe perante uma forte onda de esclarecimento."

 
Só quem passa por uma experiência similar a essa pode entender o significado de “custo amazônico”, e a importância do conceito de Amazônia Legal para tentar minimizar esse custo tão oprimente para os moradores da região, pois permanecem distantes dos recursos públicos para desenvolver qualquer tipo de atividade, incluindo as ligadas à cultura e arte. O projeto do SESC é inovador, por entender esse custo e tentar diminuir as desigualdades de distribuição artística na região, e favorecer a viabilização financeira do artista amazônico.
 
Por consequência, ao conhecer e reconhecer o Brasil, depois de ter circulado pelo país inteiro durante vinte anos, concluo que comentários sobre artistas ricos só podem sair da boca de pessoas prostradas frete à TV e suas novelas, a imaginar que artista é todo sujeito que aparece na sua frente à noite, na telinha, e desconhecem profundamente seu país, onde 99% dos artistas são massacrados pela escassez de recurso para poder produzir sua arte com dignidade.
 

O Brasil é desigual por natureza, e o que o Ministério da Cultura tentou fazer nos últimos anos foi minimizar essas desigualdades, e, ainda assim, não chegou nem perto dessa tarefa na região que aqui coloco como exemplo. A penúria financeira em que vivemos – sim, primeira pessoa do plural, porque o Maranhão faz parte da Amazônia Legal – é digna de uma revolução, e a resistência artístico-cultural é digna de elogio, e não de achincalhes. A prova de que somos uma região suprimida pela invisibilidade, é o fato de, para os detratores, sermos todos ricos.
 
Esse tipo de comentário, no ouvido de um cidadão minimamente sério, soa como um chiste equivocado, uma anedota nefasta, uma piada de mau gosto. Qualquer cidadão ligado ao fazer cultural da sua cidade conhece as dificuldades em que se encontram seus artistas, as lutas, as frustrações, mas, principalmente, a permanente resistência. É a arte que nos ensina que não é necessário ter para ser, e que todo poder sucumbe perante uma forte onda de esclarecimento.
 
Ou seja, o valor que sobra para a arte não compromete a saúde do cidadão, não desfalca a educação do aluno, não abala a segurança do país; o valor historicamente destinado à cultura não passa daquela velha e famigerada esmola, aquela moedinha que você joga no nosso chapéu depois de lhe dedicarmos duas longas e prazerosas horas do nosso ofício. Não, a arte não vai falir o país. Não, 0,38% do orçamento não vai comprometer o estado. Não, 90% das pessoas que aparecem na TV não são artistas, como já falei aqui. Não. Não. Não. Pare de ser ingênuo ou mal-intencionado. A cultura não precisa disso. Ela já tem moinhos suficientes que enfrentar, para andar se preocupando com a sua desinformação.

sábado, 21 de maio de 2016

Vagabundo, com muito orgulho!

Para a sociedade em geral, desde o primeiro dia em que resolvi viver de teatro, sou um vagabundo. Isso nunca me incomodou, nem deveria, pois decidi abraçar minha profissão, artista, por saber que vivia em uma sociedade conservadora, preconceituosa, desinformada, machista, retrógrada, e por compreender que, através do teatro, eu poderia auxiliar a reverter essa situação, contestando, instigando, questionando, transgredindo, esclarecendo, atuando.
Com o hodierno acaloramento do debate político, essas pechas – vagabundo, viado, maconheiro – ressurgem das trevas, e o artista volta a ser sinônimo de boa-vida, borra-botas, marginal. Confesso que isso não me destempera. Acredito na opção que fiz. Nestes quase trinta anos de arte, são inúmeras as pessoas que, através da minha prática, da minha ética, da busca dialética, da minha cara patética, mudaram de opinião, e, em vez de me injuriar, passaram a compreender que, aquilo que parecia vadiagem, era apenas uma forma diferente de vida, fora da curva, além do óbvio. Ganhei o respeito de muitos, tantos, que eu não poderia quantificar, superando a mais otimista expectativa. Fui muito além do que eu poderia imaginar, e qualquer um que tenha começado a fazer teatro trinta anos atrás, no interior do Maranhão, sabe do que estou falando.
Tenho uma frase que diz: reconhecimento não se busca, se espera. Pois eu nunca esperei ter sequer o reconhecimento dos meus pares, imagine da família, da sociedade, do mercado, do careta. Claro que falta muito, e sinto pena por não ter conseguido ainda fazer com que esses, que enxergam apenas o caminho, não tenham almejado levantar a vista para ver o horizonte. O meu trabalho consiste nisso. É nisso que acredito, é por isso que luto; para construir uma sociedade mais justa, menos reacionária, mais democrática, mais esclarecida.
Compreendo que o momento atual é de confronto, mas acredito que a grande maioria dos que enxergam a arte como uma brincadeira supérflua fazem isso por ignorância. Aqueles que entendem assim, que somos vagabundos, ainda não conseguem olhar além, e encontram-se encerrados, presos, sufocados dentro de um capô de Fusca. Se eu conseguisse chegar a eles com minha arte, sei que um diálogo se abriria. Se eu conseguisse chegar a eles com o argumento da minha opção de vida, tenho certeza que outras pessoas passariam a engordar o coro dos descontentes – digo "grande maioria" porque no mundo sempre há um lugarzinho para um canalha, e esse é outro tipo de gente.
Acredito nisso. Acredito tão profundamente no poder do teatro, da arte, que chego a me surpreender com minha própria tolerância. E penso além. Sempre pensei.  Como vagabundo sempre estive à margem, e a ideia dessa marginalidade sempre me foi cara. O trabalho é uma invenção. Fico com a primeira definição do Houaiss para vagabundo: “que ou quem leva vida errante, perambula, vagueia, vagabundeia”. É o que faço, vagar pelo país levanto o teatro que acredito para todo e qualquer público que queira refletir, discutir e transformar com a gente.
Agora, se você não aceita o argumento, se não lhe interessa dialogar, ou me chama de vagabundo por mera preguiça intelectual, nesse caso, não se preocupe, eu não faço teatro para você.

sábado, 30 de abril de 2016

Caminhando



No próximo domingo faremos a primeira apresentação de Velhos caem do céu como canivetes pelo projeto SESC Amazônia das Artes, aqui em São Luís, na sede da Pequena Companhia de Teatro, com entrada franca.
A partir daí iniciaremos uma nova caminhada, por toda a Amazônia Legal e o Piauí, em duas etapas, sendo a primeira Palmas/TO, Ji Paraná/RO, Boa Vista/RR e Rio Branco/AC, de 11 a 19 de maio.
O que move um grupo de teatro é o caminhar. Um caminhar no espaço, mas também no tempo. Assim como a Pequena Companha de Teatro tem caminhado por todo o Brasil, levando seu repertório para os mais diversos públicos, caminhou também no tempo que compreende uma década, para entender que suas conquistas são frutos desses dois deslocamentos – o temporal e o espacial.
A pulsação do viajar desorganiza, tira o artista da zona de conforto, desburocratiza, rompe as estruturas, subverte a lógica, nos surpreende com o caos. Por mais precavido que o coletivo seja, é na viagem que se revelam as rusgas, as falhas, os perrengues, as mágoas; trazendo para a berlinda tudo aquilo que o conforto do lar camufla.
Também com a viagem vem a partilha, o tratar generoso, a comunhão do olhar sobre o problema exposto, as soluções escalafobéticas, a certeza de que se está no caminho certo, quando esse caminho nos leva para aquele ponto do planeta em que só o teatro nos faria chegar. Aquele lugar onde o público, que não faz a menor ideia de quem você seja, lhe mostra a importância do que você faz, provando que, no teatro, caminhar é fazer.
Caminhar é fazer escolhas, buscar rumos, trajetos, destinos, encontrar bifurcações, rodar em círculos, passar do ponto, errar a rota, descarrilar, mas manter-se em deslocamento, sempre, para sentir-se vivo, mesmo quando a inércia, essa sedutora contumaz, oferece o acachapante conforto da quietude, nos convencendo de que não adianta mais tentar avançar.
Como diria o poeta Antonio Machado: “Caminante, son tus huellas el camino, y nada más; caminante, no hay camino, se hace camino al andar. Al andar se hace camino, y al volver la vista atrás se ve la senda que nunca se ha de volver a pisar. Caminante no hay camino, sino estelas en la mar.” Caminhemos!
 

sábado, 2 de abril de 2016

Teatro para tempos de crise


Semana passada estive em Mossoró palestrando sobre gestão teatral e as estratégias necessárias para encarar tempos de crise, um encontro informal e caloroso com as queridas companhias A Máscara e Pão Doce. O objetivo era tratar a ideia de crise no sentido amplo, abordando crises financeiras, de relacionamento, de gestão, de identidade, etc. Aqui concentrarei minha atenção na dita crise econômica que tanto espaventa.
Nunca me agradou a mistura entre arte e mercado, roda de negócios, comercialização, metas, coaching, produto, lucro, e toda a parafernália mercadológica que é apresentada como obrigatória para o sucesso de uma companhia teatral. Costumo tratar esses mandamentos de maneira distanciada e informal, para não me descobrir, no futuro, um tecnocrata das artes, pançudo e mal pago. Contudo, entendo que vivemos em um mundo onde a indiferença a esses fatores pode ser assustadoramente nociva para o futuro de uma companhia que sobrevive exclusivamente de teatro, como é o caso da Pequena Companhia.
Em tempos difíceis, o que diferencia o teatro de pesquisa de todas as outras atividades do mundo, é que ele sempre esteve e estará em crise econômica. Ele não sabe o que é vida além da permanente dificuldade de sobreviver do seu fazer, portanto, permanece também imune às subidas e descidas de dólar, bolsa, produto interno bruto, taxa de juros etc. O que rege a vida teatral é a subida e descida do pano.
Essa condição deve servir para fortalece uma visão estratégia do grupo de teatro, e tentar perceber a trajetória a longo prazo, arremessar o pensamento ao futuro, imaginar os quadros mais negativos possíveis, e usar a criatividade artística como instrumento gerador de soluções além do óbvio.
Não existe uma regra; penso que cada coletivo deve fazer um diagnóstico preciso da sua situação e, a partir daí, elencar as mais estapafúrdias ideias que dialoguem com seus desejos e dizeres, para formar um banco de possibilidades a serem avaliadas, estudadas, testadas e aplicadas em tempos progressivos e momentos cruciais.
Quando digo estapafúrdias não brinco: de que maneira o espetáculo Velhos caem do céu como canivetes pode ensinar o público chinês a falar português? Em que tipo de leilão pode se leiloar o cenário do espetáculo que já morreu? Como invadir, com um espetáculo, um festival de teatro que não fomos selecionados? Como convencer o mercado a não tratar a arte como mercadoria?
A ideia parte do mesmo princípio que uso para conceber uma nova encenação; pensar além do óbvio, não temer o ridículo, não desistir prematuramente, assustar-se com a própria ideia, evitar o engessamento, sacudir a certeza, respeitar o desalento, resistir. Claro que tudo isso quase nunca dá certo, entretanto, como não cobro pelo conselho, tampouco pago pelo fracasso.

domingo, 13 de março de 2016

O que você está fazendo com a sua vida?


Contam que o Rei Alexandre, ao ser inquirido pelo filósofo Aristóteles com a pergunta “– O que queres ser quando crescer?”, teria respondido, num rompante premonitório, “– Quero ser Grande!”. Claro que a anedota foi inventada por mim, e o trocadilho infame é mero preâmbulo para dar consistência histórica à tese que a seguir desenvolvo, pois depende da sua atenção para que não se torne lixo eletrônico.
A grande pergunta da vida é: o que você quer ser quando crescer? Agora, o caro leitor, pensa-me caçoador, mas não brinco; a mais importante resposta que um ser vivente deve se responder antes de morrer é: o que é mesmo que eu quero ser? A resposta a essa pergunta pode ser dada na infância, na juventude. Contudo, a grande maioria das pessoas só consegue respondê-la na maturidade e outras, passam a vida sem encontrar a resposta.
A fortuna contida nessa resposta, quando elucidada a tempo de poder prosseguir por um resquício de vida, consolida o foco de toda uma conduta e, concomitantemente, aguça a construção de um futuro para essa vida, a partir de ações presentes capitaneadas pela objetividade oferecida pela resposta.
Para dar generalidade à tese, usarei como exemplo uma vida qualquer: a minha. Quando consegui responder que queria ser um encenador, fazer teatro, ser um homem de teatro – isso aconteceu no século passado –, antepararam-se, na minha trajetória, toda sorte de enlaces que desviariam minha caminhada e afetariam o futuro, que é meu presente hoje.
Ao recusar os vários convites para ser diretor do Teatro Arthur Azevedo (não se espantem, o primeiro ocorreu há mais de uma década), se aparentemente eu desprezava uma oportunidade única, o envolvimento com essa jornada me levaria, no mínimo, três ou quatro anos de serviço público e, consequentemente, amortizaria a atenção dada ao que considerava o principal projeto da minha vida, e que hoje atende pela alcunha de Pequena Companhia de Teatro.
Ao responder à pergunta do milhão, também respondia que não desejava ser funcionário público. As coisas são excludentes? Não. Contudo, temos de convir que a divisão de foco e atenção tendem a modorrar uma ou outra opção, alargando o tempo necessário para a conquista dos dois objetivos. Ao responder à pergunta a tempo, eu concentrei esforços, e jamais me afligiram o músico que não fui, o jogador que ficou, o chef que não cozinhou, o poeta que não publicou, o motorista de ônibus que não dirigiu – sim, na infância, quando inquirido com a peremptória pergunta, eu respondia: Quero ser jogador de futebol e motorista de ônibus.
Toda essa pluralidade, contida em qualquer ser humano inquieto, permaneceu e foi exercitada como instrumento de aperfeiçoamento do meu oficio – ser encenador –, mesmo as atividades que aparentemente não tivessem maior relação, como o motorista que sou nas viagens da Pequena Companhia de Teatro pelo país afora. Entretanto, não absorveram maior tempo que o necessário a qualquer atividade paralela, imprescindível para a distração, o entretenimento, o relaxamento.
Ao me apresentar como cobaia, ofereço uma alternativa de reflexão sobre o quanto o permanente titubeio pode ser lesivo para a nossa passagem pela vida, tendo em conta que o que fazemos é mero passatempo de existência, até chegar o momento de poder responder à segunda e derradeira pergunta mais importante: o que fiz da minha vida?

domingo, 28 de fevereiro de 2016

Pequena seleção de atores para treinamento


 
Finalizado o recesso da Pequena Companhia de Teatro, que no meu caso também se estendeu ao excêntrico exercício de escrever para ninguém, retomo as postagens regulares, certo de que não fizeram a menor falta, contudo, satisfeito por saber que, também, não me resultou agônica a abstinência de pensar em um assunto, abonar sua relevância, refletir sobre, provocar uma escrita, desenvolver a escritura, corrigir sua ortografia e publicar o conteúdo – calvário criativo da postagem que você lê, finge que lê, ou ignora.
Para abrir os trabalhos, eis a logomarca comemorativa dos dez anos de fundação da Pequena Companhia de Teatro, assinada pelo autor da logo original, Cláudio Marconcine. Uma imagem que pretende fazer você lembrar que durante a última década fizemos teatro ininterruptamente, ou seja, dez anos em que, se alguém não viu teatro, foi porque não quis.
Em 2016 nossas ações pretendem intercalar-se entre São Luís e o mundo – onde mundo é um futuro incerto de desejos, esperanças, torcidas, almejos, devaneios e fabulações. Já certas, a nossa circulação através do Programa Petrobras Distribuidora de Cultura, pelo Centro-oeste, com Pai & Filho, e a circulação através do SESC Amazônia das Artes, pelo Norte, com Velhos caem do céu como canivetes. Para o Nordeste, Sudeste e Sul temos sete meses livres, alguém se habilita?
Nossas ações em São Luís pretendem concentrar-se nas práticas ordinárias (apresentações, debates, oficinas, seminários, recepções etc.), com uma ação inédita: a abertura do nosso treinamento para os pares interessados. A ideia é convidar amigos que queiram treinar conosco, uma vez por semana, durante ciclos bimestrais ou trimestrais. O convite será informal, não abriremos inscrições, portanto, se tiver interesse em emprestar o seu tempo, avise.
A iniciativa vem de encontro a um desejo antigo nosso de conseguir manter aplicação regular do Quadro de Antagônicos, independentemente dos processos de montagens, fato sempre relegado por mostragens, viagens e vagabundagens. Entretanto, com a facilidade de ter espaço físico próprio, a protelação não convence mais nem o maior amante do ócio – eu.
O principal objetivo da empreitada, além de treinar os atores da companhia, é experimentar nosso procedimento metodológico em outros corpos, e assim poder aprofundar a problematização de uma técnica que, apesar de ser aplicada há mais de uma década, se mostra aberta, inconclusa, flutuante, argilosa, tênue, como imagino deva ser a vida de qualquer experiência que tenha como foco o desenvolvimento de um ator pleno.
Como não sou dado a grandes entusiasmos, confio nos atores da Pequena como dínamo de vontade, além de torcer para que aqueles que queiram se aproximar somem mais desejo do que minha inclinação à desistência, pois, para convencer-me de que algo é melhor que a inércia é preciso muita disposição.

domingo, 27 de dezembro de 2015

Quem é você?

Não sou homem de listas, pedidos, desejos, promessas. Faço o que está ao meu alcance para que minha vida seja tão boa quanto o meu esforço para que a vida dos outros seja. Não consigo imaginar o bem-estar se não for coletivo. Os outros são outros eus, e meus eus são tão plurais que confundiriam meus pedidos. Uma virada de ano não dá conta da histórica desigualdade que nos constituiu como sociedade, portanto, em vez de dar pulinhos sobre as ondas, dou meus pulos para fazer do teatro o instrumento de transformação que sonhei quando ainda não fazia promessas para um ano novo – como disse, não sou homem afeito a essas práticas. Principio insistindo em não abandonar a utopia — um ser humano que acredita no poder de algo tão inútil como o teatro, ou é um tolo, ou um idealista, que, contemporaneamente, significam a mesma coisa. Abraçado a essa égide, vou imaginando um mundo melhor enquanto reparo pequenas fissuras, porque um mundo se constitui de partes pequenas, e se deixo que a parte que me cabe roa, não posso exigir o melhor através do reparo dos outros. Entretanto, sabedor de que tudo é pouco quando os excluídos são tantos, desabito o utópico desejo para habitar a realidade, e mergulho na análise dos pequenos atos, aqueles que corrompem, transformam, denigrem, enriquecem, destoem, melhoram. Qual humano me tocou ser? O foragido? O mesquinho? O mártir? O clandestino? O corrupto? O exilado? O invejoso? O ser simbólico é a essência do ser real. Qual é o meu traje? Que papel me fora outorgado pela imagem que criei de mim? É a partir dessa imagem que se constitui a relação com o entorno, e não se espera honestidade do corrupto, lealdade do infiel, clausura do mundano. O que o mundo espera de mim enquanto me pavoneio sobre o quanto eu ajudo a melhorá-lo? Tocou-me o papel do insignificante, do invisível. É desse lugar que tento mudar o mundo. É da impotência dessa condição que enfrento todos os moinhos. É desse abismo que sonho construir um mundo melhor para todos. É dessa miserável situação que violento a minha vaidade ao prever que o próximo ano será tão igual quanto todos, se minha inércia não se quebrar em benefício do todo. 

sábado, 12 de dezembro de 2015

Cansei de ser enganado


Estou cansado de ver artistas abrindo concessão por tudo: dinheiro, religião, crítica, opressão. Uso hoje o dinheiro como objeto de provocação. Estou cansado de assistir a obras que não são o que seriam, porque a redução de custos comprimiu a arte a ponto de mutilá-la. O cenário não cabe no orçamento? Faço de um barbante meu castelo. Não dá para pagar a banda inteira? Vou de voz e violão. A grana não cobre a contratação de luz? Faço da minha incandescência uma soturna escuridão. Artistas vão de multimídia a monobloco em fração de segundos para adaptar conceitos, sem se ater aos efeitos, que na maioria das vezes se tornam defeitos. Estou cansado da argumentação etimológica, com palavras de ordem – pós, contemporaneidade, processo, efemeridade, flexibilidade –, para camuflar a óbvia necessidade de faturar. Estou cansado de ouvir a frase “artista tem que sobreviver” como argumento para estuprar a arte, o pensamento, a paixão, a víscera, a vocação. Estou cansado de ouvir a explicação do artista me dizendo como é a apresentação original, o quão genial é a obra pressuposta, enquanto eu vejo o Frankenstein que ele criou para poder chegar até aqui apertando o orçamento. Estou cansado de que mintam na minha cara sem pudor, estou cansado da conivência do espectador, estou cansado da ausência de fervor. Estou cansado de ficar em casa com medo do que vou encarar no teatro, no museu, na praça. Onde foram parar as deliciosas frases “botei do meu bolso”, “gastei tudo o que eu tinha”, “tomei prejuízo”, para explicar a odisseia que foi conseguir trazer essa obra magnífica a um estado tão periférico como o Maranhão? Estou cansado de boas ideias e péssima execução. Estou cansado de ser condescendente para não magoar o amigo, de ser hipócrita para não parecer sempre crítico, de ser taxado por não comungar com a mediocridade, de ser o excêntrico porque não engulo qualquer coisa. Estou cansado da ideia de que qualquer coisa é melhor que nada, quando o nada é bem melhor do que qualquer coisa. Estou cansado de levar gato por lebre, apesar de preferir gatos. Não aleije sua obra, não flexibilize em demasia, não venda seu rigor, não comprometa seu dizer, não subestime o espectador. Recentemente vivemos uma situação similar, onde precisamos ajustar nossa montagem a um projeto de circulação, e o norte do país verá Velhos caem do céu como canivetes sem um centímetro de prejuízo em relação ao espectador que assiste o espetáculo em nossa sede; não fosse assim, não veria. Portanto, não me venham com arengas.

sábado, 5 de dezembro de 2015

A Pequena na Amazônia Legal


A última apresentação do ano de Velhos caem do céu como canivetes, a quadragésima, encerrando a programação de artes cênicas da 10ª Aldeia SESC Guajajara de Artes, culminou com o anúncio da seleção do espetáculo para participar do projeto SESC Amazônia da Artes, em 2016, anúncio feito pela querida Isoneth Almeida antes do início do espetáculo. Serão dez apresentações por todos os estados da região Norte, além de Mato Grosso, Piauí e Maranhão.

Com o anúncio, no ano em que a Pequena Companhia de Teatro completa dez anos, teremos nosso repertório circulando por duas regiões completas do nosso país – Pai & Filho circulará pela região Centro-Oeste, pelo Programa Petrobras Distribuidora de Cultura. Nossa luta será para estender a comemoração para todas as regiões, e ainda dependemos de algumas respostas, sortes, confirmações, mandingas, resultados e cruzamento de dedos.

Os dois projetos vão nos proporcionar a possibilidade de atingirmos alguns dos poucos estados que faltam para a Pequena Companhia de Teatro ter circulado por todos os estados brasileiros com seus espetáculos, façanha que para uma companhia de teatro de pesquisa maranhense é quase uma odisseia.

Como os estados do Amazonas, Roraima e Acre, estão incluídos na nossa circulação pelo Amazônia da Artes, e Mato Grosso do Sul e Goiás estão incluídos na circulação pelo programa da BR Distribuidora, apenas o estado de Sergipe e o Distrito Federal não terão recebido espetáculos da Pequena, pelo menos até o fim desta postagem. Não sei o que isso quer dizer, mas sei dizer que isso não é pouco.

Contudo, o que diferencia o projeto Amazônia das Artes, é a possibilidade de diálogo com uma região que, apesar de ser tão próxima do Maranhão, não se apresenta elucidada por nós como deveria. A potência criativa que emana do discernimento das diversas realidades da região, suas delícias e agruras – como nossa querida leitora Maria Rita, do Amazonas, destacou ao comentar aqui – alargará o nosso entendimento sobre um fazer teatral nacional, como outrora comentei na postagem Teatro brasileiro.

O ano do aniversário ainda nem começou e já temos motivos de sobra para comemorar, e celebrar fazendo teatro é a nossa prioridade: juntem-se a nós, Sergipe e Brasília!

domingo, 29 de novembro de 2015

Pequena aldeia


Apesar de abrir as portas da sua sede em 2013, o ano de 2015 está oferecendo uma experiência inédita para a Pequena Companhia de Teatro: a de abrir a casa para outros grupos se apresentarem – experiência iniciada no dia 31 de outubro, com o espetáculo “Para uma avenca partindo”, de Josué Redentor.

Agora, durante a 10ª Aldeia Sesc Guajajara de Artes, nossa sede está sendo ocupada com diversas atividades: ontem as palestras “Ser indígena hoje em contexto urbano, desafios e resistência” e “Ocupa árvore”; amanhã o lançamento da revista “Palavra”, às 19h, e “Para uma avenca partindo”, às 20h30; terça o espetáculo “A escrita do Deus”, às 19h; e quarta “Velhos caem do céu como canivetes”, às 19h.

Essas experiências embrionárias servirão para fazer uma avaliação detalhada, e definirmos os rumos que tomaremos em 2016 no que se refere à cessão do nosso espaço para atividades outras que não aquelas desenvolvidas pela Pequena Companhia de Teatro.
"O fato, como tudo o que se refere ao universo teatral, me faz refletir, indagar, arguir, questionar, e escrever para você, meu discreto confidente."  
Nós quatro, membros da companhia, temos a certeza de que não queremos que nossa sede se torne uma casa de aluguel, e que, como várias experiências que conhecemos, tenhamos limitado nosso desenvolvimento artístico por comprometermos nosso espaço de trabalho com pautas, locações, agenda, calendário.

Daí em diante ainda não definimos que tipo de regimento ordenará essa demanda, portanto, enquanto a discussão interna se desenvolve, empresto minhas impressões e reflexões iniciais a este blog, instrumento onde despejo minhas opiniões, surtos, desatinos, problematizações e devaneios.

Penso que o ideal seria que tivéssemos muita vontade de abrir nossas portas para outras produções, mas que nossa própria produção fosse tão intensa – com temporadas regulares de espetáculos, oficinas, vivências, treinamentos, processos, seminários – que se encarregaria de atrapalhar essa vontade, e só disponibilizaríamos as fendas que surgissem na agenda durante o ano. Seria o melhor dos mundos, tendo em vista que tanto trabalho nos tornaria abastados, e eu esbanjaria dinheiro para minimizar minha dificuldade em lidar com ele.

 
Não sendo essa a realidade – e creio que jamais será, mesmo fazendo um  esforço para me livrar da pecha de pessimista contumaz –, acredito que a linha curatorial da cessão do nosso espaço deveria obedecer critérios que identificassem o diálogo entre o nosso fazer e a produção que se apresentasse aqui; dessa forma, ofereceríamos ao nosso espectador um recorte específico de produção teatral (ou musical, literária etc.), focalizado na pesquisa, no desenvolvimento de pensamento, na valorização da arte como instrumento provocador.

A única certeza que me impregna é que essa disponibilização deveria ser secundária. Durante sete anos sonhamos com a possibilidade de ter uma sede para conquistarmos independência criativa, autonomia espacial, alargamento técnico, desopressão financeira. Esse foi, é, e deveria continuar sendo o nosso foco – você, leitor tenaz que chegou até este ponto da postagem, não sabe a satisfação que dá ter o espaço que se quer para se produzir o que quer que seja sem a pressão de ter que produzir dinheiro para pagar o aluguel.

Como sempre digo, somos privilegiados, e temos que ter o cuidado para que nosso privilégio não se torne uma prisão pautada pelos outros, como quando precisávamos pedir para poder experimentar, pedir para poder ensaiar, pedir para poder apresentar – condição que durante sete anos vivemos e que, sabemos, não queremos iterar.

domingo, 22 de novembro de 2015

Pequena Companhia de Teatro seleciona inúteis


A geografia teatral não é favorável ao Maranhão. Estamos na intercessão entre o Nordeste e o Norte, e montados no que já foi o Centro-Oeste (Tocantins), ou seja, em lugar nenhum. Não estamos integrados a um dizer estético regional, a uma identidade simbólica situacional, a um todo como parte. Não bastasse a condição geográfica, a ausência de políticas públicas estaduais para teatro aleijou décadas de produção, fazendo teatristas tatearem, trôpegos, os seus caminhos, sem maiores referências, com base na empiria, sensíveis à interferência e ávidos por anuências.

Sou um deles, como já falei aqui. Atravessei três décadas para enxergar o que faço com um olhar menos severo, e acreditar que dessa claudicância pode sair um pensamento digno de atenção. De lá para cá tropeguei como tantos, até voltar ao princípio, e entender que o caminho do teatro é o grupo. O resultado foi o agrupamento de Katia, Jorge, Cláudio e eu em torno de um projeto artístico de nome Pequena Companhia de Teatro, que, como ninguém sabe, em 2016 completa dez anos de existência.

Essa assertiva tardia – que no meu caso derivou de pregressos quinze anos de cambaleio entre grupos de teatro no interior do Maranhão, a demorada profissionalização, a integração a uma grande companhia, a glamourização das grandes produções, a superestimação do encenador, o serviço público, a clandestinidade e demais titubeios – chegou com uma clareza rara, uma certeza na necessidade de consolidação do nosso dizer a partir da canibalização afetiva dos nossos seres, uns dos outros. Somos, inicialmente, amigos, e nossa relação afetiva afeta nossa produção artística.

É o resultado dessa plural experiência que provoca em mim a dificuldade de pensar em alargar os parâmetros estruturais da Pequena para uma composição mais argilosa, defendida por um dos meus pares, onde a estrutura composicional não seja tão rígida, e que outros agentes possam interferir na permanente formação artística da companhia, seja na área artística ou na produção e logística.

Minha reserva se opera no campo da prática. É como se houvesse uma consciência empírica que me dissesse do impossível e improvável de conseguir acontecer o que nós quatro fizemos acontecer, e que certas aventuras podem ser instigantes quanto a oxigenação, mas nefastas quanto a estrutura ideal adquirida nesse pouquíssimo tempo – tendo em vista que nossa formação atual recém completou cinco anos, dois espetáculos em repertório e um lugar para cada um no carro emprestado.

Sei que meus fundamentos são pobres, e que diversos parceiros estão à porta, dispostos a dialogar conosco, querendo contribuir, com potência artística para agregar fortuna a essa nossa inútil e saborosa empreitada teatral, porém, como sou oriundo do meio futebolístico, é difícil quebrar a velha máxima: em time que está ganhando não se mexe. Contudo, para não dizerem que sou velho – Oh, novidade! –, também, careta, pragmático, conservador, enrijecido, ou qualquer outro desses adjetivos óbvios que jovens artistas me atribuem, inicio aqui o diálogo: o que você acha?

domingo, 15 de novembro de 2015

Asas sobre o exílio, em forma e pensamento

Fotos de Ayrton Valle
Por Kil Abreu*, em São Luís. 

Ao assistir ao espetáculo da maranhense Pequena Companhia de Teatro e ao olhar o entorno onde ela se inspira, a impressão imediata é a de que a escolha dos materiais e as operações de linguagem sobre eles como que criam um parangolé dramático talhado à medida pra vesti-los. O conto de Gabriel Garcia Marquez (Um senhor muito velho com suas asas enormes) oferece o tecido, a matéria primeira, mas a montagem é fruto de motivos, modelos e técnicas intuídas pelo próprio grupo, de modo que mesmo estando lá, e bem assimilada, a narrativa original dá lugar a uma obra nova, em boa medida autônoma quanto aos seus argumentos.

O ser alado que cai no terreiro, um anjo velho (mas imprestável para a metafísica), é parente mais novo do faquir de Kafka (Um artista da fome), e dele empresta senão o mesmo destino ao menos a trajetória. Como aquele, é criatura marcada por uma diferença fundamental, fora do raio da compreensão ordinária (as asas, a origem ignorada, a sobrevivência na contingência).

Na versão do encenador Marcelo Flecha esta incongruência viva é acolhida por um miserável, um catador de lixo. E daqui desdobra-se já o procedimento fundamental que dá ossatura à dramaturgia: o anjo, que no conto do autor colombiano não diz palavra, aqui não só faz as réplicas ao outro como também cria o espaço para um diálogo político-existencial capaz de instaurar questões novas e de fazer as aproximações que o grupo quer explorar tendo como medida sua própria realidade.


“E a consciência destes seres exilados, quando trágica, tem a ver com o atravessamento da liberdade pela certeza da finitude tanto quanto pela certeza sobre uma vida insuficiente”

Ao ceticismo e pessimismo de quem a seiva das idealizações diante do mundo parece ter sido toda extraída correspondem as provocações do outro, expressas em uma espécie de fé paradoxal – porque instaurada não através da crença ou do dogma, mas através da dúvida e de perguntas sobre o sentido do existir. Então, de García Márquez a Kafka e de Kafka ao próprio grupo os caminhos tendem a encurtar-se. É que em qualquer caso o que margeia, acidentalmente ou não, todas estas narrativas – inclusive a atual, proposta pela Pequena Companhia – é a discussão da liberdade como lugar problemático para onde convergem os enfrentamentos entre miséria e transcendência, entre rotina e maravilhamento (para lembrar a ótima expressão citada pela Beth Néspoli), entre enquadramento e possibilidades de criação.

Os pontos de vista das personagens, por opostos que pareçam, se afunilam e se irmanam em uma condição semelhante. Esta condição é a do exilado (a própria diferença, na própria história ou no próprio lugar). E a consciência destes seres exilados, quando trágica, tem a ver com o atravessamento da liberdade pela certeza da finitude tanto quanto pela certeza sobre uma vida insuficiente. Consciência do abandono de Deus tanto quanto da instalação de um mal terreno, que parece injusto e irrevogável. Por isso a perspectiva de pertencimento é inócua, não faz diferença ao homem que não sonha.

Partindo deste plano de pensamento, tão irrevogavelmente niilista do início ao fim, a Pequena Companhia o desenvolve, no entanto, através de uma dialética bem sustentada e cheia de nuances. E faz dela o campo, o solo fértil para um teatro provocativo. A colheita é de qualidade. A dramaturgia alinhavada por Marcelo Flecha traz um jogo cuidadoso e fundo entre as réplicas. Cuidadoso no aspecto que mais interessa a uma arte da síntese como o teatro: o diálogo entre os personagens não deixa sobras, tudo se aproveita. É ótimo alicerce para a cena. As falas são inteligentes não porque complexas, mas porque na aparente objetividade conseguem instaurar questões que permanecem astuciosamente abertas, à espera das nossas (plateia) colaborações íntimas para que se arredondem. Ao mesmo tempo trazem o desacordo necessário para fazer com que as posições em jogo se movimentem de um ponto a outro, no sentido da argumentação. O resultado é tão bom que o contraste fica evidente nos poucos momentos em que uma ou outra ideia parece fugir ao universo das personagens, expressando a voz do autor lateralmente ao conflito que está em andamento.


No plano visual do espetáculo luz, cenário e atuações ordenam-se em um mesmo movimento orgânico.  Sob o argumento de que o agora catador de latinhas tenha sido em algum momento da vida um artista plástico cria-se não só o espaço para a discussão sobre a natureza e função da arte como também uma ambientação em que os objetos são tão úteis quanto altamente simbólicos.  E assim o plano particular da fábula faz a liga com o contexto social e estético em que ela é agora atualizada. Por exemplo, há uma significativa instalação com latas de Guaraná Jesus fazendo as vezes da coluna central de sustentação do casebre; crucifixos estilizados servem de lenha em um fogareiro no qual não há chamas, só luz. São desdobramentos do plano cenográfico que cavam aqui e ali aberturas para novos sentidos, a refazerem os significados do texto de García Márquez, colocando-o a serviço de imaginário e circunstâncias locais.

O quadro plástico se completa no trabalho dos atores (Jorge Choairy e Claudio Marconcine). É quando se pode colocar em perspectiva a história recente do grupo e dizer que esta montagem de agora reafirma, com excelência, o rigor já apontado em Pai e filho, o espetáculo anterior. São atuações ‘construtivas’, decididamente erguidas no trabalho minucioso da estilização dos gestos e das vozes, por fora de qualquer concepção maneirista. Sem se deixar afundar no formalismo, a criação dos dois intérpretes inventa humanidades complexas, em composições bem cortadas, postas a serviço de uma dinâmica viva em sons, ritmos e deslocamentos que se totalizam em um conjunto límpido quanto aos sentidos.

Se cruzarmos obra e contexto a impressão que se tem – após observar minimamente as circunstâncias possíveis para o fazer teatral em São Luis do Maranhão – é de que a Pequena Companhia vem traçando uma trajetória por fora da ordem dada. A tomar por este Velhos caem do céu como canivetes, trata-se de um milagre criativo, o que certamente não dispensa o trabalho e o esforço, visíveis na fatura final do espetáculo. É um trabalho maduro quanto ao resultado artístico tanto quanto no equilíbrio justo, difícil de alcançar, entre forma e pensamento. De alguma maneira o grupo corrige com potência, nos seus modos próprios, as condições nem sempre favoráveis para que se mantenha de pé um teatro vivo.
 
*Jornalista, crítico e pesquisador do teatro pós-graduado em Artes pela Universidade de São Paulo (USP). Foi crítico do jornal Folha de S.Paulo e da revista Bravo! Dirigiu o Departamento de Teatros da Secretaria Municipal de Cultura/SP (2003/2004), onde gerenciou alguns dos principais programas artísticos da cidade, como o Formação de Público e o Programa Municipal de Fomento ao Teatro. Foi curador dos festivais de Curitiba, Recife e Festival Internacional de Teatro de São José do Rio Preto. Por dez anos foi professor e coordenador pedagógico da Escola Livre de Teatro de Santo André e por oito jurado do Prêmio Shell/SP. É membro da Associação Paulista de Críticos de Arte (APCA), curador no Centro Cultural São Paulo, e colaborador do Teatrojornal.  Mantém estudos sobre dramaturgia e teatro brasileiro contemporâneo.

domingo, 8 de novembro de 2015

O mundo é o palco do encontro


Semana passada acompanhei um dia e meio de programação do festival “O Mundo Inteiro é um Palco”, promovido pelo estimado grupo Clowns de Shakespeare.

A oficina “Estratégias para a circulação nacional”, ministrada pelo querido Marcelo Bones, a cena curta inspirada no meu texto “Distorções de um dia interminável”, encenada pelo delicioso Grupo Estação de Teatro, o espetáculo “Desaparecidos”, do Grupo Estandarte de Teatro, a reunião do “Grupo de pensamento teatral”, recepcionada pelo prófugo amigo Fernando Yamamoto e capitaneada pelo próprio Bones – reunindo significativos nomes do teatro de grupos do Brasil, e uma profunda e fecunda conversa sobre dramaturgia, com meu fiel assassino César Ferrairo.  Uma overdose de conteúdo, em dezesseis horas de permanência em Natal/RN, promovida pelo encontro.

Há anos defendo o encontro. Uso a minha casa como instrumento de encontro. Abrimos nossa sede para propiciar o encontro. Lavo, passo e cozinho para promover um encontro. Só entendo a vida e a arte através das verdades confessas no encontro. Contudo, mesmo sabendo da importância do encontro, percebo que achamo-nos desencontrados.

Com a ilusão do encontro virtual a contemporaneidade opera uma proeza nefasta, e não percebemos que estamos passando anos sem ver um amigo. A intimidade gerada virtualmente ilude nosso sentido de afastamento, e nos imaginamos juntos, porém, separados. Ao me apropriar da rotina oferecida pelo outro através das redes sociais – sabendo o que comeu, o que vestiu, o que deixou de ler, o que não assistiu –, me entendo encontrado, sem saber que aquele prato que ele ostenta pode ser o pedido de socorro para a fome que passa.

Por que, no século do individualismo, defendo o encontro? Porque o teatro se fundamenta nele, e ceifada a importância do encontro entre humanos, o que será da minha arte? Do nosso teatro? Da sua plateia? Advogo em causa própria. Foi o contubérnio com gente de teatro que me fez ser teatreiro. Encontro. Ele anarquiza e vence o sono, a fome, o frio, a sede.... Quantas noites sem dormir por causa de grandes encontros? Quanto frio amenizado pelo abraço do encontro?

O teatro é a arte do encontro, e a primeira barreia que ele sofre hoje é convencer o espectador a participar desse encontro. Sem sair de casa, o indivíduo não precisa encontrar com ninguém para assistir um filme, comer uma pizza, comprar um quadro, ler um livro, jogar golfe com outro indivíduo que mora em Paris, mas, precisa tirar a bunda do sofá para ver teatro. Precisa.

O encontro que o teatro promove é único, autêntico, inusitado e visceral. Uma experiência cada vez mais pertinente, e paradoxalmente distante, na vida contemporânea. Se o indivíduo desse o primeiro passo além da fronteira do sofá, se depararia com um universo presencial tão pujante que jamais tornaria a abandonar as sensações propiciadas por um espetáculo de teatro. Acredito nisso, verdadeiramente.

Segunda começa a X Semana do Teatro no Maranhão. Um bom motivo para largar o controle remoto e vir se encontrar com esse povo que faz teatro. No nosso caso, em duas oportunidades: “Velhos caem do céu como canivetes”, terça, 18h30, e quarta, 20h30, na sede da Pequena Companhia de Teatro. A gente se encontra.

domingo, 18 de outubro de 2015

Estética profética para um mundo pré-apocalíptico


Papelão, rolha, jornal, lixas,  madeiras de descarte, lâmpadas caseiras,  banners, latas de refrigerantes, tubos e cones de papelão, sucata de ferro, CDs, cintos, ventilador, carreteis, plástico, estrela do PT, resíduos de cobre, pingômetro, linha, refletor de jardim, molduras, carcaça de vitrola, vela, tesoura da dona Zilma, couro, para-brisas de carro, cabos de vassoura, panelas, porta, embalagem de cigarro, latas de conserva, papel de imprensa, farol, tecidos, presente da Sílvia, penas, sacos de sapatos, tábua de carne, resíduos elétricos, faca de açougue, arame, agulhas, colares, colheres de pau, porta partitura, fios de nylon,  sem contar os inomináveis penduricalhos das caixas de som do ser humano – personagem da nossa última montagem.

Todos esses materiais estão contidos nas cenografias e iluminações de “Velhos caem do céu como canivetes” e “Pai & Filho”, nossos últimos espetáculos, que permanecem em repertório. Alguns desses elementos você não consegue identificá-los, não os reconhece, e é esse o nosso proposito estético quando desenvolvemos nossos cenários e iluminações. Esses elementos encontram-se, mesmo aparentes, ressignificados em seus dizeres, e tentam auxiliar as personagens nas suas narrativas. Revelar a cênica ocultando a matéria-prima é a finalidade da estética – parafraseando toscamente Oscar Wilde.

A palestra “Desconstrução estética de uma companhia”, que passaremos a oferecer junto com a circulação dos nossos espetáculos, na última apresentação em cada cidade, enquanto acontece a desmontagem de cenário e luz, busca aproximar o espectador especializado das tecnologias desenvolvidas pela Pequena Companhia de Teatro para formar seu arcabouço cenográfico (a partir de materiais recicláveis) e de iluminação (a partir de fontes luminosas de baixo consumo). Nela o espectador poderá não só dialogar sobre o nosso processo, mas principalmente manipular elementos, tocar texturas, descobrir efeitos, questionar soluções, e aprofundar o debate sobre os motivos das escolhas estéticas para os dizeres artísticos.

Paralelo às questões artísticas – absolutas e primordiais na escolha dos materiais –, a formatação da palestra e a lida com essa inúmera quantidade de resíduos tem me provocado a reflexão quanto ao que, efetivamente, precisamos para viver, e o quanto vamos somando proporcionalmente ao que vamos descartando. O consumo é o grande conceito a ser problematizado na contemporaneidade, e o teatro pode ser um instrumento de exposição do nosso desperdício.

Caberia apenas incorporar um conceito sustentável. Para se construir uma encenação a partir de elementos residuais não é necessário incorporar uma estética suja, feia, pensada como lixo, fedor, decadência. A sociedade atual oferece a variedade de resíduos e descartes que o espetáculo demandar, sempre e quando se tenha o olhar atento para o entorno, e um diálogo permanente com a cidade que nos abriga. Quer madeira? Tem. Quer plástico? Tem. Quer ferro? Tem. Quer papel? Tem. Quer dióxido de silício? Tem.

Sem contar o auxílio na viabilidade financeira. Quantos grupos de teatro hoje esbarram em orçamentos estratosféricos para a confecção de cenografia e aquisição ou locação de iluminação, sem perceber que há um entorno pulsante oferecendo-se para o usufruto? Basta estabelecer uma visão estratégica, identificação e catalogando os locais e ciclos de descarte das mais diversas matérias-primas disponíveis na cidade, o armazenamento exclusivo dos materiais mais raros, o passeio esporádico para identificar novas fontes, e o cuidado para não se tornar um acumulador compulsivo – etapa mais difícil da empreitada. Com esse simples procedimento chega-se a uma economia em torno de 80% do valor final das despesas com recursos materiais de qualquer encenação. Sustentabilidade e economia, em um só procedimento. Como sei disso? Em maior ou menor escala, essa vem sendo a nossa prática nos últimos dez anos.

domingo, 4 de outubro de 2015

A Pequena na Semana do Teatro no Maranhão


Aposto que você não sabia que a Pequena Companhia de Teatro, direta ou indiretamente, esteve presente nas nove edições da Semana do Teatro no Maranhão? Nem eu, até parar para pensar no assunto, depois de recusar um convite que me foi feito.

Criamos a Pequena Companhia de Teatro um ano antes do surgimento da mostra maranhense, e de lá para cá, vimos mantendo um diálogo fluido com o evento, diversificando nossa participação ora com espetáculos, ora com palestras, música, oficinas, encontros, e percebo que nossas histórias se confundem, assim como se confundem com as histórias dos poucos que se mantiveram fazendo teatro durante a última década.

Tentando fazer memória, e já sabendo que vou me equivocar, suprimir, inverter, trocar ou delirar, segue uma possível sequência da nossa participação, esperando que o leitor mais atento me ajude a corrigi-la através de comentários aqui no blog:

I (2006) – “O acompanhamento”, de Carlos Gorostiza, espetáculo da Pequena Companhia de Teatro, estreado em 2005.

II (2007) – “O segredo do labirinto”, de Lio Ribeiro, espetáculo-solo com Cláudio Marconcine, e “Memórias de um mau-caráter”, de Marcelo Flecha, monólogo com César Boaes e direção de Urias de Oliveira.

III (2008) – “Deus danado”, de João Denys, espetáculo da Cia. A Máscara de Teatro, dirigido por Marcelo Flecha.

IV (2009) – "Interstício", de Márcio Gledson, Cláudio Marconcine e Rummenigge Medeiros, espetáculo-solo com Cláudio Marconcine, e festa de confraternização, com o DJ Jorge Choairy.

V (2010) – “Entre laços”, de Gilberto Freire de Santana, espetáculo da Pequena Companhia de Teatro, estreado em 2009.

VI (2011) – “Pai & Filho”, de Marcelo Flecha, espetáculo da Pequena Companhia de Teatro, estreado em 2010.

VII (2012) – Mesa de debate “Dramaturgia Maranhense – Desafios da publicação”, com Marcelo Flecha.

VIII (2013) – “O Quadro de Antagônicos como instrumento de treinamento para o ator”, oficina da Pequena Companhia de Teatro.

IX (2014) – “Velhos caem do céu como canivetes”, de Marcelo Flecha, espetáculo da Pequena Companhia de Teatro, estreado em 2013.

Dessa década de encontros e desencontros só guardo uma única magoazinha. Minha montagem de Medeia, com a Cia. A Máscara, de Mossoró, foi preteria em uma dessa edições, e a única cidade maranhense que teve a possiblidade de ver o espetáculo foi Imperatriz. Uma pena, pois meu pai dizia que era muito boa.

Durante esses dez anos venho acompanhando os caminhos e descaminhos da mostra. Passaram governos, comissões, protestos, patrocinadores, gestores, formatos, mas nós não. Estamos aqui, fazendo teatro. Não fosse isso, a mostra mostraria o quê?

A semana sobreviveu graças ao seu principal sustentáculo que alicerça qualquer festival, mostra ou encontro teatral: o trabalho ininterrupto dos poucos fazedores de teatro que existem no Maranhão. Quantos ficaram pelo caminho? Quantos novos gênios nasceram e morreram de uma mostra para outra? Quantos venderam seu sonho por patacas? Onde você estava em 2006, em 1996, em 1986?

Agora a Semana chega a uma dezena de edições, após sérios riscos. Andou trôpega, cambaleante, mas hoje se firma com data, edital e orçamento.  Ao governo que dá os primeiros passos na construção de um estado melhor para todos, sugiro não perder de vista o barro que constrói o evento, pois sei que a Pequena Companhia de Teatro sobreviveria sem a Semana do Teatro no Maranhão, só não sei se a Semana sobreviveria sem grupos de teatro.

Medeia, um fragmento

domingo, 27 de setembro de 2015

Dois – uma jornada pelo abismo teatral


Fui espectador da primeira montagem profissional do texto “Dois”, terceiro texto da minha dramaturgia reunida publicada em 2011, pelo Programa BNB de Cultura, com o apoio do SESC–MA. O desafio ficou a cargo da queridíssima e parceira Cia. A Máscara de Teatro, de Mossoró, por consequência, o afeto me impede de tecer qual seja a crítica digna de confiança, pois minhas palavras seriam suspeitíssimas, mas não vou me privar de aprofundar o meu olhar sobre as ofertas que a montagem proporciona para o espectador, esse catatônico das plateias, como prega o próprio texto.

A experiência do autor teatral como espectador da própria obra é algo diferente de tudo o que um artista possa experimentar; principalmente no meu caso, onde a intenção de montagem jamais permeou meus pensamentos quando da escrita dos cinco textos que fazem minha dramaturgia. Como a dramaturgia de gabinete sempre foi um exercício parar o melhoramento do meu ofício – a direção – nunca me precipitei além do dramaturgo, imaginando como procederia eu se fosse o encenador da dita obra. Então, assisto como espectador, e me divirto, me emociono e me envolvo com a oferta.

No teatro, o autor do texto é um mero provocador da explosão cósmica que os atores, o encenador, o iluminador, cenógrafo, sonoplasta, se encarregam de transformar em universo; e foi esse universo que se revelou para mim, quando me encontrava sentado na segunda fila do Espetáculo Espaço Cultural, incomodado com a primeira fileira reservada e vazia, primeira surpresa que reservava a montagem, mesmo para o tolo autor que não enxergou o óbvio.

A partir daí me deparei com uma construção atoral de unidade singular, onde Tony Silva e Luciana Duarte produziam vigoroso desempenho, durante os três momentos de desconstrução pelos quais passam as atrizes. Me causou certo espanto ver a versatilidade de ambas, tendo em vista já ter trabalhado tanto com as duas que imaginava não restar muita coisa para me surpreender.

Uma direção segura, generosa, e tomada de um frescor visceral foi uma das principais surpresas. O diretor Jeyson Leonardo era para mim um estranho, pois ainda não havia aparecido nenhuma oportunidade de acompanhar suas empreitadas no universo da encenação. A revelação foi a de um artista comprometido, inquieto e expressivo, disposto a oferecer a cara a tapa sem o menor constrangimento.

Outra surpresa foi a forma esteticamente criativa que encontraram para apresentar a ausência de cenografia que a obra sugere. Mantendo o conceito, o preenchimento do vazio árido com um vazio estético, capitaneado por Damásio Costa, alargou a possibilidade de comunicação, resolvendo o desconforto provocado pela aridez excessiva, que faria com que o espectador se distanciasse.

Eu transitava entre o lúdico, o caótico, o cômico, o orgânico, o dramático, sem me aperceber do autor que se escondia atrás da minha prazerosa jornada, e não consegui enxergar nenhum excesso, ruído, ou lapso, natural para um espetáculo que inicia sua trajetória – que espero, torcendo, seja longa, inspiradora e divertida.

A única pergunta que me faço é quanto à opção na forma e conteúdo das duas desconstruções que se sucedem – nas cenas de transição entre um momento e outro –, quando me inquietava a curiosidade de saber qual foi a análise que fizeram para chegar à opção encenada. Como minha passagem por Mossoró foi como um relâmpago, não tivemos aqueles saborosos momentos de intimidade, que proporcionariam o aprofundamento do diálogo sobre essa peculiar opção, que, de alguma maneira, repaginou o segundo momento da peça – momento este que sempre me pareceu problemático de sustentar.

Espero que esta querida parceira nunca pare, e que sua máscara continue a espantar o espectador, distribuindo arte a partir desse epicentro teatral tão querido e improvável, esse país chamado Mossoró.

domingo, 20 de setembro de 2015

Sobre fracassos, holofotes, engraxates e clichês


A aprovação do nosso projeto no Programa Petrobras Distribuidora de Cultura, o ineditismo do fato, e a consequente capa no caderno de cultura do jornal O Estado do Maranhão, me fez refletir sobre o quanto dependemos de factoides para que o nosso trabalho artístico seja assimilado e reconhecido pela sociedade não vinculada às artes cênicas.

A percepção da relevância não se estabelece mantendo temporadas regulares dos espetáculos gratuitamente, oferecendo oficinas de formação, dedicando dez longos anos na construção de um dizer artístico, na consolidação de procedimentos metodológicos, ou na tentativa de alargar as opções teatrais do espectador. É preciso da manchete, do fato, da notoriedade.

A ideia do homem de sucesso, do caso de sucesso, da empresa de sucesso, do sucesso do espetáculo, do ator de sucesso, do grupo de sucesso está tão consolidada na sociedade contemporânea que por mais que você renegue esses valores o interlocutor suspeitará, torcendo a boca ao imaginar que você blefa, pois é inconcebível hoje alguém ignorar um holofote.

Ainda que o caro leitor desconfie, eu afirmo: meus valores são outros. Sobre essa perspectiva, prefiro ser um homem de fracasso. Não acredito nesses valores. Sucesso e fracasso são bases de um conceito que de nada contribuem para a formação do cidadão, do artista, da sociedade. Se o conceito de sucesso é a medição da minha sobreposição ao meu entorno posso concluir que todo o entorno fracassou, e passo a medir o meu sucesso pelo fracasso dos outros?

Há décadas abandonamos a ideia de medir a arte teatral através desses parâmetros; lutamos para que hoje 99% dos festivais e mostras de teatro brasileiro não sejam competitivos, por acreditar que não é sobre o escudo desse tipo de valores que conseguiremos mensurar a relevância de uma obra de arte para a problematização da sociedade, contudo, permanecemos reféns do reconhecimento pálido, da exposição fugaz, da notícia vaga, da visibilidade anônima.

Penso que é nosso dever romper com essa lógica e assimilar a virtude da nossa insignificância. Como sentencia o clichê, a arte é inútil, e mais inútil ainda é insistir em tentar chamar a atenção do cidadão indiferente ao nosso fazer através da exposição de um esporádico episódio de sucesso. A ação artística chegará a esse cidadão de outra forma, sutilmente, sem ele perceber, e sem a necessidade de que ele reconheça a grandeza da nossa insignificância.

Mas como sobreviver sem esse reconhecimento? Como manter uma atividade artística permanente sem a visibilidade necessária para que a sobrevivência possa ser possível? Trabalhando. Da mesma maneira que a médica, o engraxate, o feirante, a professora, o barbeiro. Nenhum deles depende do reconhecimento daquele que não necessita dos seus serviços. O engraxate não depende do reconhecimento de um homem que só usa tênis. A médica não precisa do reconhecimento do são. O barbeiro não necessita do reconhecimento de um careca. Contudo, trabalham para sanar necessidades básicas e vitais para a existência humana, e lidam cotidianamente com sucessos e fracassos diários: a graxa que manchou a calça, o sorriso do paciente curado, o alto índice de reprovação na sala de aula, a fruta que apodreceu e não chegou à boca do faminto porque não dispunha do dinheiro para comprá-la.

Com o artista não é diferente. Vivemos do entendimento daqueles que enxergam em nosso fazer um sentido para suas vidas, e esse sentido está além da proximidade do sapato, do cabelo, da saúde. É nesse interstício da vida das pessoas que a arte se mostra, com o fracasso diário de tentar alargar essa brecha e com o sucesso esporádico de encontrar cabida em outro coração inquieto.